Terra e água são possíveis

Indo na contradição da lógica das grandes obras no Nordeste, terra e água são possíveis para nosso povo. Basta entender a lógica do Semi-Árido, respeitar suas leis naturais e adequar-se corretamente ao ambiente em...

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Indo na contradição da lógica das grandes obras no Nordeste, terra e água são possíveis para nosso povo. Basta entender a lógica do Semi-Árido, respeitar suas leis naturais e adequar-se corretamente ao ambiente em que se vive.

Por Roberto Malvezzi (Gogó)

 

Indo na contradição da lógica das grandes obras no Nordeste, terra e água são possíveis para nosso povo. Basta entender a lógica do Semi-Árido, respeitar suas leis naturais e adequar-se corretamente ao ambiente em que se vive. A essa lógica denominamos Convivência com o Semi-Árido.
Agora, mais que nunca, quando o governo insiste na maior obra já feita nessa região, a transposição do rio São Francisco, nós sustentamos outra lógica, da terra descentralizada, da água democratizada, aproveitada minuciosamente, através de uma nova cultura da água e da terra na região semi-árida brasileira. É preciso notar que começa por parte da elite nordestina, acostumada a construir seu poder e sua fortuna à custa da miséria popular, uma crítica mais dura a essa nova lógica. Óbvio, ela questiona a história dessa região e tende a empoderar aqueles que sempre estiveram destituídos de qualquer poder.
Prosseguindo nessa nova reflexão, que implica uma nova prática, está sendo lançado, por parte da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), o Projeto Uma Terra e Duas Águas, o P1+2. Inspirado na experiência chinesa para o seu Semi-Árido, a idéia original é que as famílias tenham terra suficiente para viver nessa região, juntamente com a água para consumo humano, colhida ao pé da casa nas cisternas, juntamente com outro reservatório de água na roça para o plantio. A idéia básica é sempre trabalhar com a água de chuva ou subterrânea.
Nossa matemática hídrica é muito simples. Chove por ano, sobre todo o Semi-Árido, a média de 750 bilhões de metros cúbicos de água. A infra-estrutura para armazenar essa água comporta apenas 36 bilhões. Portanto, perto de 720 bilhões de metros cúbicos de água são desperdiçados para o mar ou pela evaporação. Por conseqüência, a proposta do P1+2 é aproveitar a água de chuva, guardá-la em reservatórios herméticos para que a água não se perca por evaporação e utilizá-la também para a produção. As tecnologias são diversas, como as cisternas para produção, barragens subterrâneas, caxios etc. A vantagem é que essa água é grátis, já distribuída, não impacta o meio ambiente negativamente, pelo contrário, coopera decisivamente para o melhor aproveitamento da água que a natureza nos fornece todos os anos.
Não estamos iniciando um projeto qualquer. Ele vai na lógica de desconstruir a indústria da seca erguida pelas oligarquias nordestinas durante séculos. Seu impacto virá com o tempo, à medida que mostrar a força de sua lógica e que a mudança climática se agravar. Então, os predadores dos nossos rios e solos serão vistos como seres nefastos pela história. O futuro estará com quem souber aproveitar a gota de água disponível.



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