Toques Musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música Por Julinho Bittencourt     BRAGUINHA NASCEU CARLOS ALBERTO FERREIRA BRAGA e assumiu o nome artístico de João de Barro....

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A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Julinho Bittencourt

 

 

BRAGUINHA NASCEU CARLOS ALBERTO FERREIRA BRAGA e assumiu o nome artístico de João de Barro. JAMES BROWN veio ao mundo com o nome de James Joseph Brown Jr. Os dois não têm rigorosamente nada em comum. Viveram no mesmo tempo e seguiram a mesma profissão, e só. Um deles, um proeminente compositor brasileiro e o outro, um magnífico cantor norte-americano. No meu caminho, no entanto, e talvez no de alguns outros tantos, os dois se cruzaram irremediavelmente. Fincaram suas vidas e carreiras de forma determinante, tal qual costumam sempre fazer os grandes artistas. Braguinha era branco, filho de uma família de classe média brasileira, nascido no Rio de Janeiro, então capital da República, uma das cidades mais desenvolvidas de um país subdesenvolvido e pobre. James Brown, negro, nasceu na preconceituosa Carolina do Sul e foi criado em um bordel na Geórgia, no país mais rico do mundo.
A obra dos dois atravessou o século XX fazendo jus às suas origens. Braguinha foi o autor de um cancioneiro magnífico, que reúne marchinhas de carnaval, músicas como “Copacabana”, eternizada por Dick Farney. A canção virou uma espécie de prenúncio da bossa nova. James Brown fez exatamente o mesmo com a sua música furiosa. Nascido e crescido sem acesso a nada, inventou o funk, estilo de música norte-americana dos mais tocados no mundo. Uma pequena base rítmica, metais em brasa e seu canto rasgado, sem tempo definido. “Say it loud, I’m black, I’m proud” (Diga alto, eu sou negro, eu sou orgulhoso), no que foi rapidamente seguido por uma multidão de apartados das ruas dos EUA. “James Brown for president”.
Muito mais do que cantar as suas origens, os dois foram mestres na afirmação do estado de felicidade. É óbvio demais não esquecer de “I Got You (I Feel Good)”, talvez a canção mais potente e explosiva de que se tem notícia. O melhor grito primal de alegria e fé na vida que se pode ter feito. Assim como também é impossível não lembrar dos 153 mil torcedores brasileiros, no Maracanã, na Copa de 1950, cantando as “Touradas em Madri”, logo após a lavada do escrete canarinho sobre a temida seleção espanhola, por 6 x 2. Segundo o autor, esta foi a maior emoção da sua vida. Dois mestres em perfeita tradução.
Os dois ensinaram também o afeto. É sempre bom não perder de vista que Braguinha foi o autor da letra de “Carinhoso”, a canção mais bonita do Brasil. Com uma poesia extensa e derramada, feita de clamores irrecusáveis, acendeu a paixão que nos devora para todo e sempre o coração. James Brown, por sua vez, apenas com os gritos e sussurros de “Sex Machine”, mostrou a todos nós, garotos e meninas ainda saídos do ninho de um mundo impregnado de pecados, como se faz, como se ama sem medo.
O menino James Brown foi abandonado pelos pais aos quatro anos e teve que cantar e dançar pra pagar a vaga do bordel onde vivia. O menino Braguinha foi o autor das trilhas sonoras da coleção Disquinho, pela qual várias gerações aprenderam suas primeiras histórias. Neste ano que passou, o menino Jesus chamou os dois para sua festa de aniversário. Braguinha na véspera e Brown para o dia propriamente dito. Por lá puderam finalmente se conhecer e compartilhar seus mundos tão distintos e próximos. Por lá beberam, cantaram e celebraram o trabalho bem feito. JÁ O QUE ARRIGO BARNABÉ E ITAMAR ASSUMPÇÃO TINHAM EM COMUM todos que já os ouviram sabem: a ousadia. Os dois compositores surgiram em São Paulo, no início da década de 1980, e formaram, com mais alguns outros poucos músicos, a conhecida vanguarda paulistana. No entanto, o que eles tinham de divergências, de certa forma, convergia também. Enquanto Arrigo trazia formação erudita, Itamar fazia sua música com o que aprendia nas ruas e nos discos. Nunca foram parceiros de fato, fizeram poucas coisas juntos. Mas, com intuição, inventividade, ciência e arte, formularam como poucos uma nova música para o Brasil que foi, e é até hoje, de certa forma ignorada pelo grande público.
Itamar se foi, de forma precoce, em 2003, vítima de câncer no estômago. Em sua homenagem, Arrigo acaba de lançar MISSA IN MEMORIAM ITAMAR ASSUMPÇÃO, uma peça erudita, repleta de cantores líricos e instrumentos sinfônicos. Em outras palavras, vai ao encontro da memória do amigo com os elementos que mais os distanciavam (ou aproximavam?). Os dois partiam de pontos distintos para se encontrarem no meio do caminho.
Sob este enfoque, a missa de Arrigo soa natural. Ela é toda composta em latim, com os textos originais da liturgia católica (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei) entremeados aqui e ali de alusões ao Nego Dito. A irreverência habitual do compositor beira neste disco o inimaginável e, talvez até por isso mesmo, se torna comovente do começo ao fim. Arrigo vai ao final do fundo do sonho compartilhado pelos dois e experimenta tudo. Ao mesmo tempo, celebra da forma mais profunda que pode a memória do amigo.
Toda a peça parece voltada para a ausência, o desaparecimento. Em Sanctus, no entanto, surge a visita inesperada do homenageado. Em alguns poucos fragmentos, a obra faz finalmente uma referência mais direta à música de Itamar. O coral alterna frases da canção “Nego Dito” com o texto litúrgico, formando um interessante efeito rítmico, em que a melodia sincopada de Itamar repousa sobre as notas prolongadas em pedal da missa. O descanso eterno e a voz que insiste em se prolongar.
No último movimento, Agnus Dei (Cordeiro de Deus) salva a humanidade. A recusa é a mesma para o Criador e a criatura, artista e obra. Tudo, no final, foi ausência e sacrifício. A imagem do herói, crucificado, livra os homens da obra fácil. Por falar nisso, nada é simples de ser ouvido e assimilado nesta Missa In Memoriam Itamar Assumpção. Quem já achou complicado ouvir Clara Crocodilo ou Sampa Midnight que se prepare, aqui tudo é muito mais denso. A recompensa, não por acaso, também é muito maior.



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