Um intelectual revolucionário vitima do crime acadêmico

Darcy Ribeiro não estudou nos EUA, nem na Europa, mas sua grandeza deixou um legado que ainda hoje ilumina os rumos da civilização brasileira Por Gilberto Felisberto Vasconcellos  ...

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Darcy Ribeiro não estudou nos EUA, nem na Europa, mas sua grandeza deixou um legado que ainda hoje ilumina os rumos da civilização brasileira

Por Gilberto Felisberto Vasconcellos

 

Escrevi o futuro livro Darcy Ribeiro e A Criminalidade Acadêmica. A independência é desejada pela academia universitária, que não pensa o nacional nem a América Latina, e, quando o faz, é sempre vendo o país pela teoria – e não a teoria pelo país. O prestígio da importação. A superstição do “frixópi” epistemológico.
Darcy Ribeiro nunca admitiu que houvesse missão civilizadora do capital estrangeiro. Leu muito bem Karl Marx, inclusive dizia que ele era o Karl Marx na América Latina. No comércio mundial, os países coloniais e dependentes levam a pior. Há nações que se apropriam de uma parte do “sobretrabalho” de outras.
Marx preludia as “perdas internacionais” de Leonel Brizola.
Eu sempre me pergunto: como Darcy conseguiu resistir aos trancos e barrancos da vida? Por que não entregou o time e não se corrompeu? Do que nutriu sua resistência? Como foi possível viver sem capitular? Por que recusou a escolher o caminho confortável da cooptação? O PDT retomou o PTB de Getúlio Vargas, de Brizola e de Jango interrompido em 1964. Era afeiçoado a esse partido como instrumento de libertação do povo brasileiro.
Darcy Ribeiro e Leonel Brizola nunca cogitaram que depois de sua morte seria o dilúvio. Esses dois líderes não concebiam a existência de um nacionalismo trabalhista, ou de um brizolismo antiimperialista que gravitasse fora de um partido político. O problema é hoje distinguir o falso do autêntico brizolismo.
Em 1968, escreveu O Processo Civilizatório, que trata das etapas evolutivas da humanidade desde a Revolução Agrícola, o cultivo das plantas e domesticação dos animais, a Revolução Urbana com a agricultura de regadio, a metalurgia e a escrita, depois a Revolução Industrial com os conversores energéticos inanimados. A última etapa seria a termonuclear-eletrônico-cibernética.
Com o capitalismo mercantil do século XVI, ocorre a expansão européia no ultramar, da qual surge a descoberta pelos europeus da América, que começa a ser colonizada pela cruz e pelo lucro. Lucro exportável. Foi aí que se configurou a primeira civilização de base mundial. O Atlântico foi o último oceano a ser conhecido. Aqui começa nossa história: feitoria, escravidão, plantation, exportação para abastecer o mercado externo.
Foi intelectual e político dos índios, dos negros, dos mestiços, dos trabalhadores, da marginália sem salário e emprego fixo, ou seja, da população sobrante e “inempregável”, que é a maioria oprimida do povo brasileiro situada abaixo do proletariado. Marxista desde sua adolescência mineira em Montes Claros e Belo Horizonte; mais tarde, meados da década de 40, em São Paulo, tornar-se-á militante do Partido Comunista, quando estudou na Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), aluno brilhante de Herbert Baldus e Sérgio Buarque de Holanda, a quem dedicou o livro A Utopia Selvagem.

Na paulicéia desvairada encontrou a mulher amada, Berta; em seguida, fica amigo do marechal Rondon. O amor e a missão, científica e política, se entrelaçam em 1948, com seu primeiro emprego de proteção aos índios, ocasião em que foi viver na selva.
Berta, com quem Darcy se casou muito cedo, se destacará como uma estupenda etnóloga. Ambos curtiram lua de mel na floresta dos trópicos. Disso resultou a maior carta de amor, Diários Índios, 500 páginas, que nenhum autor apaixonado jamais escreveu para sua mulher, que era também marxista. Uma beleza. É o erotismo da fotossíntese na antropologia revolucionária brasileira.

Diários íntimos Essa carta etnológica é o testemunho de um trabalho de campo admirável, contém o prelúdio épico de seus quatro romances escritos depois de ter publicado sua antropologia das civilizações, mentalizada com método dialético que teve início com o livro O Processo Civilizatório, talvez o acontecimento intelectual mais importante do ano de 1968 no mundo inteiro. Darcy Ribeiro escreveu esse livro em Montevidéu, dando aula de Antropologia na universidade. Estava exilado por causa do golpe de 64, que o expulsou de Brasília, chefe da Casa Civil do presidente João Goulart, derrubado por querer a reforma agrária e dar um basta no mecanismo imperialista da remessa de lucros para o exterior. Caiu com o Jango. Caiu não por causa dos defeitos desse governo, mas sim pelas suas virtudes.
Com a ditadura antinacionalista, Darcy Ribeiro se viu compelido a “diasporizar-se” por todos os países da América Latina. Foi em 1964 que ele deixou de ser intelectual brasileiro provinciano. A partir daí, apeado do poder aos 42 anos de idade, assessorou – por causa de sua bagagem científica e política – Salvador Allende no Chile, Alvarado Velasco no Peru, transou a Venezuela de 1973 com a família do poeta Ludovico Silva, o autor do livro O estilo literário de Karl Marx. É o legítimo precursor do bolivariano Hugo Chávez. Nenhum outro intelectual abordou todos os países da América Latina. Pátria grande.
Andou e escreveu lá no México de Leopoldo Zea e na Argentina do cineasta Fernando Solanas, com o detalhe já apontado pela sua prefaciadora de O Processo Civilizatório, a arqueóloga estadunidense Betty Meggers: trata-se de um livro para os EUA sossegarem o periquito, isto é, se pacificarem e ficarem instintivamente calmos.
Não estudou nos EUA, nem na Europa, mas sacou que a Escola de Sociologia Política de São Paulo era estadunidense e a Filosofia e Letras da USP, francesa. Criou a Universidade de Brasília (UnB) para orientar os rumos da civilização brasileira. Essa descolonização mental se processava segundo os ensinamentos do educador Anísio Teixeira, coincidindo contraditoriamente com o período da abertura JK da economia, sendo que desde 1954 Darcy Ribeiro se afeiçoou (sem deixar contudo de ser marxista) ao ideário trabalhista de Getúlio Vargas.
Denunciou que os governantes burgueses querem ser bem vistos lá fora. É a síndrome da cabeça colonizada. É a liderança “vendepátria” num país que não controla seu destino. Tudo para os bacanas estrangeiros.
A colônia do etanol continua a ser o que sempre foi: uma provedora de matérias-primas.
Tal como outros grandes pensadores latino-americanos, Darcy achava que não havia incompatibilidade entre nacionalismo e marxismo. Leia-se: nacionalismo antiimperialista. O “socialismo moreno” é a prova da simbiose entre uma coisa e outra. Tinha gana de interferir com seu saber na história, o que não quer dizer voluntarismo nem menoscabo pelas condições sociais objetivas. É que um saber que não atua era para Darcy Ribeiro um saber vadio, diletante e ornamental. Daí sua ojeriza pelo intelectual socialmente irresponsável, ou seja, pela vadiagem reacionária.



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