Um homem por inteiro

O historiador Lincoln Secco já havia publicado um livro sobre a revolução dos Cravos em Portugal e se debruçado sobre a vida e obra de Antonio Gramsci. Agora ele traz ao público brasileiro Caio...

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O historiador Lincoln Secco já havia publicado um livro sobre a revolução dos Cravos em Portugal e se debruçado sobre a vida e obra de Antonio Gramsci. Agora ele traz ao público brasileiro Caio Prado Júnior: o sentido da revolução (Boitempo, 2008), uma breve biografia do mais importante intelectual marxista de nosso país.

De uns anos para cá, o interesse por Prado Júnior tem aumentado significativamente e diversos trabalhos sobre ele foram publicados. Mas a obra de Secco possui algumas características que sobressaem. Em tom ensaístico e linguagem clara, sem “academicismos”, o livro tenta mostrar, na medida do possível, CPJ de forma integral: o homem e o militante, o intelectual e o político. Para isso, o autor utilizou vários recursos: pesquisou em arquivos, fez largo levantamento bibliográfico, entrevistou parentes e amigos, e usou documentos até então inéditos. De acordo com Secco, “demorei um ano e meio para fazer a pesquisa e escrever o livro. Vi inúmeros relatos de viagens e descrições muito vivas de paisagens no arquivo dele e resolvi refazer as viagens que ele fazia de carro. Fiz dezenas de viagens curtas (de no máximo uma semana), mas longas em distância. Fui a Ouro Preto. Refiz um trajeto colonial até Goiás Velho. Palmilhei todo o estado do Paraná e Santa Catarina. Fui ao Mato Grosso do Sul, etc. Quanto ao estado de São Paulo, eu o percorri inteirinho, muitas vezes por estradas antigas, que o Caio percorreu. Usei guias de viagens antigos, mapas dele mesmo e ouvi conselhos de gente mais velha que conhecia rodovias fora de uso”.

Secco apresenta Caio em toda sua originalidade dentro do painel teórico em que se encontrava o marxismo no Brasil, principalmente das décadas de 1930 a 1960, contrapondo seus estudos ao que se fazia até então por aqui. Se o PCB seguia a linha oficial adotada do Comintern, CPJ insistia em elaborar uma interpretação diferente, certamente mais criativa e original, que desse conta de entender a formação histórica do Brasil. Ainda que nunca chegasse a ocupar um cargo de direção no partido e fosse mal aproveitado por sua organização, ele nunca deixou de ser um militante fiel e disciplinado. O marxismo de CPJ, que pouco citava os clássicos do socialismo, tinha suas particularidades. Se por um lado ele sabia que seriam necessárias mudanças estruturais profundas para a realização de uma “revolução” no país (entendendo-se este termo não como uma ruptura abrupta através de luta armada, por exemplo, mas como um processo lento, de longa duração), também estava ciente da importância de câmbios moderados, “modernizadores”, reformistas, ao longo deste processo. Por isso, Secco consegue mostrar Caio como um “revolucionário reformista” (ainda que os dois termos juntos soem estranhos). Era revolucionário porque sabia das necessidades de uma profunda alteração nas estruturas políticas e econômicas e de uma mudança de consciência das massas; porque sempre foi um admirador, defensor e propagandista não só da revolução de Outubro como da própria União Soviética, em suas distintas fases; e porque sempre se manteve como um fiel e disciplinado membro do Partido Comunista. Por outro lado, foi também deputado estadual, e nesta condição, certamente não poderia fazer mais do que levar um pouco de luz à ignorância que campeava de forma disseminada na Assembléia Legislativa de São Paulo, propondo leis “reformistas” que melhorassem, mesmo que pontualmente e em ritmo de conta gotas, a situação de injustiça e desigualdade social no estado.

Caio, homem de grandeza ética e moral inquestionáveis, foi político, militante, teórico marxista, fundador e editor da Revista Brasiliense, geógrafo e historiador. Foi um dos mais importantes “intérpretes” do Brasil, junto com Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. E um marxista que, com sua criatividade e originalidade, está inserido na tradição de teóricos como Gramsci e José Carlos Mariátegui, para citar apenas dois dos mais destacados.

Mesmo fora do meio acadêmico, foi o maior historiador brasileiro. Outros historiadores, como Nelson Werneck Sodré, Jacob Gorender, Evaldo Cabral de Mello e Alberto da Costa e Silva, por exemplo, só viriam a confirmar, depois dele, que a produção intelectual fora das paredes das universidades tinha (e tem) tanta ou mais vitalidade e importância do que aquela feita nas instituições de ensino superior no Brasil, onde “intelectuais-formigas”, encerrados em seus “feudos”, imbuídos de ranços e vícios da profissão, e seguidores de modismos acadêmicos, normalmente não se arriscam nem ousam demasiadamente quando tratam de um tema qualquer, ainda que haja exceções, certamente.

Em um país onde a ignorância e as práticas “coronelistas” e de troca de favores políticos eram (e ainda são) disseminadas, o cosmopolita CPJ colocava o dedo na ferida, e fazia o que estava a seu alcance para denunciar as mazelas do Brasil e propor suas soluções. Ele chegaria a conhecer Lula no começo da década de 1980 e aparentemente não teria gostado dele. Talvez já conseguisse antever quem o sindicalista viria a se tornar muitos anos mais tarde e qual era a verdadeira essência do líder dos trabalhadores. Nos dias de hoje, um homem como Caio Prado Júnior certamente faz falta.

Originalmente publicado no Correio Braziliense



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