Um país dividido

No domingo, 25 de outubro, os sentimentos eram dúbios na noite fria de Montevidéu. Assim que se confirmou a necessidade de segundo turno para a definição do próximo presidente uruguaio, havia algo de frustração...

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No domingo, 25 de outubro, os sentimentos eram dúbios na noite fria de Montevidéu. Assim que se confirmou a necessidade de segundo turno para a definição do próximo presidente uruguaio, havia algo de frustração e cansaço no rosto do candidato José Mujica, da coligação de partidos de esquerda Frente Ampla, e também em milhares de manifestantes que o esperavam à porta do hotel em que aguardava a apuração. Do lado do Partido Nacional (Blancos), cuja sede ficava a menos de 1 quilômetro, Luis Alberto Lacalle e apoiadores estavam aliviados por a decisão ter sido deixada para o último final de semana de novembro.

Tentando mostrar ânimo, Mujica, na coletiva de imprensa e no ato que fez em seguida, conclamou os militantes a lutarem ainda mais nos dias restantes e ressaltou que havia conseguido mais votos que os dois partidos tradicionais juntos. E no final de novembro haveria um verdadeiro plebiscito entre os que querem continuar com os avanços do governo de Tabaré Vázquez e os que, na sua ótica, representam o passado.

O discurso de Laccalle foi de “ser a hora de união de todos”. Afirmava que a opção por seu partido era certeza de paz, segurança e equilíbrio. Logo depois de receber o esperado apoio do Colorados (que junto com o Partido nacional dominou a política uruguaia por mais de 170 anos), disse que se despiria de sua condição de Blanco e que a partir daquele momento só a bandeira do país os uniria. Numa declaração distribuída na mesma noite afirmou que seu partido guia-se apenas por um sentido exclusivamente nacional, na ação do governo, independente das proximidades ideológicas: "Reivindicamos a unidade em torno dos problemas dos uruguaios, que não de dividem por cores. As vítimas da insegurança e os que não têm teto não têm partido; as crianças merecem uma melhor educação". E repetiu slogans de que crê na integração e cooperação de todos os uruguaios, e não em lutas de classe.

Sobre a derrota das duas propostas que foram levadas a plebiscito, havia algo de frustração do lado da Frente Ampla e uma comemoração discreta entre Colorados e Blancos. Essas propostas previam a extinção da lei que impede o julgamento dos crimes cometidos pelos militares na ditadura e o voto, por carta, dos uruguaios que moram fora do país.

Das duas, a que ficou mais próxima de passar foi a anulação da chamada “Ley de Caducidad”. Atingiu 47,36% de votos para o sim, quando eram necessários 50% mais 1. Além da divisão do país praticamente ao meio, outro fator é que os que votavam sim tinham de colocar uma cédula rosa na urna. Quem anulou voto ou preferiu não se posicionar acabou colaborando para a derrota. No caso do chamado voto epistolar, o resultado foi claro. Apenas 36,93% se posicionaram a favor. Contou muito para a decisão o medo de que os uruguaios fora do país pudessem decidir a eleição interna, já que há praticamente 13 da população uruguaia, principalmente jovens, vive fora de suas fronteiras, em países como Argentina, Espanha, México, Austrália etc.

Mas, das duas propostas, a da extinção da Ley de Caducidad era a mais crítica. Se aprovada, todo o passado da ditadura poderia ser revisto sem a contagem de tempos de prescrição e com a anulação de todas as decisões baseadas nela. Mesmo perdendo no voto, seus efeitos poderão ser minorados a partir de agora. Pouco antes das eleições, a Suprema Corte do país a declarou inconstitucional ao analisar o caso de uma perseguida pelo regime militar. Os efeitos valem apenas para esse processo, mas abrem caminho para que outros a questionem na Justiça.

O senador Rafael Michelini, cujo pai, ex-presidente da Câmara, foi assassinado pelos militares defendeu até o último momento a aprovação do SIM, porque a anulação da lei proporcionaria justiça. Rafael, em entrevista à reportagem de Fórum, também lembrou o caso de seu pai, Zelmar Michelini, seqüestrado em Buenos Aires e morto em 1976. “Ele foi assassinado dentro da política de terrorismo de Estado. Seu corpo foi mostrado para dar um recado claro: se faziam isso com o ex-presidente da Câmara dos Deputados, imagine o que poderia ocorrer com as pessoas comuns”.

E é esse passado insepulto que também assombra parte do eleitorado e onde se agarra o Partido Nacional para tentar ganhar as eleições. A estratégia definida e já usada no final do segundo turno é clara. Voltar ao passado de guerrilheiro tupamaro de Mujica para desvinculá-lo do governo exitoso de Tabaré, que detém aprovação superior a 60% nas pesquisas nacionais. Ao passo que Frente Ampla tenta exatamente o contrário, provar que, apesar das diferenças de personalidade, Tabaré e Mujica pertencem ao mesmo campo ideológico e que o país continuará no rumo de crescimento e investimento social. O que dificulta um pouco essa aproximação é que Tabaré já declarou que não vai se envolver na campanha por ser presidente de todos os uruguaios, não de determinado partido. E manterá a mesma postura no segundo turno.

Fator importante para o candidato da Frente Ampla é que já conquistou maioria no Congresso. Elegeu 16 senadores em 30 e 50 deputados num total de 99. Aqui cabe explicar outra singularidade do processo eleitoral do país. Os candidatos a presidente e vice também podem concorrer ao Congresso. Se Frente Ampla ganhar, Danilo Astorí, o vice, terá o cargo de presidente do Congresso. Nessa mesma hipótese, os candidatos Lacalle e seu vice, Jorge Larrañaga, também já estão eleitos senadores. O que muda é que em caso de vitória do Partido Nacional, seu vice será presidente do Congresso.
Para contrapor-se a essa desvantagem de ser minoria no Congresso, Lacalle já falou que procurará, no governo, enviar ao Parlamento projetos de lei e redobrar o trabalho de negociação e diálogo. E que Frente Ampla não votará contra os desejos do país, como, por exemplo, deixar de cobrar impostos sobre aposentadorias. Já Jorge Brobetto, presidente da Frente Ampla, destacou, em entrevista antes dos resultados, que a maioria parlamentar definiria as eleições. “Mujica será presidente no primeiro turno ou no final de novembro, mas mais importante é ter maioria parlamentar para fazer as transformações necessárias para levar o país adiante”, afirmou, peremptório.

O voto Buquebus Curiosamente, uma das possibilidades aventadas para a não escolha do presidente no domingo foi a baixa participação dos uruguaios que moram na Argentina. Se na eleição de Tabaré em 2004 diz-se que foram ao país em massa, no último domingo de outubro conta-se que não ultrapassaram os 10 mil. Não é à toa que a Frente Ampla pretende utilizar parte de seu orçamento para o segundo turno no subsídio a passagens de quem mora do outro lado do Rio da Prata. A empresa de barcas que liga os dois países, a Buquebus, também já anunciou desconto de 50% para quem quiser cruzar as fronteiras e votar, desde que se inscreva antecipadamente.

Por falar em fronteiras, um dos temas essenciais da campanha é a disputa com a Argentina pela empresa papeleira finlandesa Botnía, que ao decidir se instalar na parte oriental do rio causou protesto e um movimento que levou os argentinos a fazer piquetes e fechar pontes que ligam os dois países. A argumentação é que a fábrica poluiria o rio. Todos os candidatos defenderam o direito de o Uruguai se industrializar e existe certo consenso na busca de acordo com o país irmão. Mujica, por exemplo, na coletiva para correspondentes estrangeiros um dia antes da eleição, perguntado se assumisse a presidência faria alguma acordo, declarou, com ironia. “Imagine se fosse fácil assim. O que vamos fazer é negociar, negociar e negociar.” Mas o tema não é apenas uma disputa entre dois países. O Uruguai como uma pequena economia, baseada principalmente na exportação de gado e produtos agrícolas, tem a necessidade de se industrializar. Até como forma de sair de quase trinta anos de estagnação econômica, que começou a ser rompida no governo de Tabaré. Se conta da crise econômica muitos países preveem crescimento negativo ou próximo de zero neste ano, a expectativa no Uruguai é de elevação do PIB em 7% ao final de 2009. É bom lembrar que o país foi um dos primeiros a quebrar na crise econômica de 2002, quando o governo Battle chegou a fazer empréstimos externos para socorrer bancos multinacionais.

É justamente dessas comparações entre a situação atual e a dos governos Colorados e Brancos que a oposição tenta sair. Até por conta dos avanços econômicos e sociais em cinco anos. A dívida externa, por exemplo, passou de 69% em relação ao PIB no fim de 2004 para cerca de 30% atualmente. As reservas internacionais saltaram de US$ 2,5 bilhões para US$ 6,3 bilhões no mesmo período. No campo social, um dos principais programas do governo da Frente Ampla foi a distribuição de um notebook de baixo custo para cada aluno do ensino fundamental. O Plano Ceibal teve sua primeira fase encerrada em outubro e beneficiou mais de 300 mil alunos e 18 mil professores (como já publicado na edição 75 de Fórum). É destaque também na área social a redução da pobreza extrema, de 4% para 1,7%, e da pobreza, de 32% para 21% da população, assim como a diminuição na mortalidade infantil, de 13,2 por mil nascidos vivos, em 2004, para 10,6, atualmente.

É claro que eleições não são definidas por números nem análises econômicas, há um componente subjetivo e votos não se transferem automaticamente de um presidente para outro. Por isso a oposição tem insistido nas diferenças entre Tabaré e Mujica, mas também aproveitando um sentimento de insegurança. No comício final do Partido Nacional, por exemplo, sobre o palco havia um cartaz enorme de uma motosserra com a palavra “insegurança” escrita. A história é boa. Flagrado numa entrevista a uma emissora de rádio ao dizer que passaria uma motossera nos gastos sociais do governo Tabaré, Lacalle veio a público desmentir, dizendo que se confundira e que iria cortar, na verdade, os gastos do governo. Para tentar inverter o fato, seus marketeiros inventaram a estratégia de usar a motossera como símbolo. Se vai funcionar, só as urnas poderão dizer em 29 de novembro.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro. Nas bancas.



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