“Uma nova Honduras despertou depois do golpe”

Em visita ao Brasil, o jovem jornalista hondurenho Rony Martinez relata como foi a batalha da Rádio Globo para seguir no ar durante o golpe de Estado contra o governo de Manuel Zelaya, em junho de 2009, e garantir o direito à informação e...

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Em visita ao Brasil, o jovem jornalista hondurenho Rony Martinez relata como foi a batalha da Rádio Globo para seguir no ar durante o golpe de Estado contra o governo de Manuel Zelaya, em junho de 2009, e garantir o direito à informação e à liberdade de expressão em Honduras.

Por Bia Barbosa

Em dezembro passado, a Rádio Globo de Honduras – que não possui qualquer relação com a gigante das comunicações no Brasil – completou dez anos no ar. Disputando hoje o primeiro lugar da audiência em todo o país, a emissora, pequena e jovem, passou por uma verdadeira transformação no último ano. Deixou de ser uma rádio musical para se transformar num dos maiores símbolos da resistência hondurenha depois do golpe de Estado contra o governo de Manuel Zelaya, em 28 de junho passado.

Neste dia, o também jovem jornalista Rony Martinez, de 26 anos, foi um dos primeiros a chegar na emissora e ver que o prédio estava ocupado por militares. Desde então, começou uma batalha para garantir o direito à informação e à liberdade de expressão em Honduras. Foram meses lutando contra o cerco midiático do governo golpista de Roberto Micheletti, para levar à população a verdade sobre o que estava acontecendo no país.

Em visita ao Brasil, Rony Martinez conversou com Fórum. Ele falou dos primeiros momentos do golpe, da repressão à mídia e das ameaças que existem até hoje no país, mesmo após a chegada ao poder do novo presidente Pepe Lobo. E afirma: “Depois do golpe, nasceu um novo hondurenho, mais consciente e solidário”.

Fórum – Como começou a resistência ao golpe dentro da Rádio Globo de Honduras?
Rony Martinez –
Antes do golpe, lutávamos pelo terceiro lugar da audiência em nível nacional. Éramos uma rádio musical. No dia 28 de junho, nos preparávamos para transmitir a consulta popular, na qual o povo seria questionado sobre a instalação de uma quarta urna de votação, durante as eleições presidenciais de 29 de novembro, para saber se a população autorizava ou não a instalação de uma Assembleia Constituinte. Neste dia, seria eleito outro presidente e o povo diria se queria reformar a Constituição; dizer se queria passar de uma democracia representativa para uma democracia participativa. Era para esta primeira consulta que o povo se preparava.

Fórum – E o que aconteceu neste dia?
Rony Martinez –
Quando chegamos à rádio às 5h45 da manhã ela estava tomada por militares. Não sabíamos o que acontecia em Honduras. Eles disseram que tinham tomado o mando do país e que não poderíamos entrar na rádio. Insistimos muito e nos comprometemos a transmitir sem dizer o que passava. Mas uma vez lá dentro, não informar a população era um crime de lesa-humanidade. Tinham derrubado o Presidente, havia pessoas nas ruas, todos os prédios oficiais estavam ocupados, tinham cortado a eletricidade. Perguntei a David Romero, diretor da emissora, o que estava acontecendo e ele me disse: houve um golpe de Estado. Tinha aprendido o que era uma ditadura, mas a partir deste momento conheci na prática o significado de um golpe.

Fórum – Qual foi a reação dos militares ao que a Rádio Globo começou a dizer?
Rony Martinez –
Às 6h30, dez minutos depois da transmissão, cortaram os transmissores em nível nacional. Mas apesar de poucos, somos loucos. E nossos técnicos conseguiram usar a frequência de uma rádio comunitária em Tegucigalpa e nos colocar no ar. Passamos a transmitir também pela internet. A nível nacional, no entanto, as pessoas seguiram sem saber o que acontecia. Enquanto 98% dos meios se calavam e seguiam o maquinário oficialista e golpista, nós cumpríamos uma missão importantíssima, dizendo ao mundo o que acontecia em Honduras. Muitas rádios comunitárias, alternativas, de outros países começaram a retransmitir nosso sinal. A voz correu de forma incrível. Ao meio-dia recebemos uma chamada das Forças Armadas para nos calarmos. Do contrário, nos tirariam de lá a tapas. Seguimos transmitindo, com o povo informando por telefone o que acontecia. Às 17h30 ligaram de novo. Já estava tudo armado pra gente sair do ar e transmitir pela internet de um lugar clandestino quando arrombaram os portões do edifício. Vimos homens encapuçados, com armas. Nos jogaram no chão, engatilharam as armas, nos levaram num caminhão militar. Achei que iam desaparecer com a gente. Diziam que não podíamos chamar o povo à insurreição. Mas os ouvintes ligavam contando que os militares estavam matando pessoas. Segundo a Constituição, é um direito do povo se insurgir contra qualquer governo que tome o poder pela força.

Fórum – Quando a rádio voltou ao ar?
Rony Martinez –
No dia seguinte, com medo. Praticávamos a autocensura. Dávamos a informação, sem dizer nomes. Mas a comunidade internacional já conhecia a Rádio Globo e decidimos seguir adiante. Ficávamos 24 horas no ar. Eu dormia duas horas por dia no sofá da emissora. Às vezes cortavam os retransmissores onde o conflito era maior. Mas quando havia ameaça de fechamento, as pessoas nos defendiam. Seguimos assim até 21 de setembro, quando Zelaya volta ao país. Aí emitem um decreto restringindo todas as manifestações de rua. Colocam uma série de restrições aos meios e, no dia 28 de setembro, às 5h30, a rádio é invadida por mais de 100 homens. Quando começaram a arrombar os portões estávamos ao vivo. Abri a cabine e coloquei o áudio no ar. Os meios internacionais acompanharam tudo, viram quando violaram o direito do povo hondurenho à informação e à liberdade de expressão. Mas no mesmo dia, de um local escondido em Tegucigalpa, voltamos a transmitir clandestinamente pela internet. Como alguém podia nos denunciar, não saíamos de onde estávamos. Comíamos muito pouco. Mas conseguimos fazer a ponte com rádios alternativas, e a mensagem foi passada. Foi algo histórico.

Fórum – Até quando durou a clandestinidade?
Rony Martinez –
Até 19 de outubro, quando, por pressão internacional, caiu a vigência do decreto. Voltamos ao ar com o hino nacional. David Romero, que é um cara durão, chorou ao vivo. As pessoas buzinavam em comemoração. Foi muito emocionante. Tínhamos sete linhas de telefone e todas ficavam congestionadas! Era o jornalismo cidadão. Passou a ser uma rádio do povo. Hoje estamos em primeiro lugar. Mas seguimos com a autocensura.

Fórum – Como você vê a atuação do governo brasileiro durante o golpe?
Rony Martinez –
Estamos muito agradecidos. Se Zelaya tivesse entrado em outra embaixada, era capaz de ter sido atacado. Ele pensou muito bem, porque o Brasil é uma potência mundial. Não sei a opinião dos brasileiros, mas em nível internacional a diplomacia brasileira é fenomenal. Lula é muito respeitado. Ouvíamos que ele estava sendo criticado por manter 50 pessoas dentro da embaixada. Mas onde está a solidariedade entre os seres humanos? O Brasil teve uma postura de irmão fraterno.

Fórum – Na sua opinião, quando o golpe começou a ser organizado?
Rony Martinez –
O que mais os assustou foi quando Zelaya assinou o acordo da Petrocaribe [pelo qual os países caribenhos compram petróleo venezuelano em condições preferenciais] e a Alternativa Bolivariana para as Américas. Eles planejaram muito bem, porque Micheletti tinha votado a favor da Alba. Então Zelaya, num discurso para 100 mil pessoas em Tegucigalpa, em junho de 2008, diz: “Me criticam por ser um governo de centro-esquerda; se isso lhes incomoda, que tirem o centro”. E isso incomodou. Este foi um dos “erros de Zelaya”. Ele conversava como o povo da mesma forma que com os empresários. Ninguém imaginava isso, porque Zelaya era um cara que vinha das empresas privadas, era um caubói. Os analistas de direita começaram a dizer que ele era perigoso.

Fórum – E como está Honduras hoje?
Rony Martinez –
A repressão continua. Seguem assassinando líderes sindicais, de grêmios estudantis; a cada três dias matam uma pessoa. A mídia diz que é o combate à delinquência, mas você pesquisa e descobre que era um militante da resistência. Também estão matando camponeses. A universidade acaba de ser fechada por dez dias. Dizem que é por insalubridade, mas querem privatizar a Universidade Nacional Autônoma de Honduras, a única pública no país. E há uma campanha para criminalizar os grêmios e sindicatos, que levam a resistência adiante. Estamos denunciando tudo.

Fórum – A censura continua?
Rony Martinez –
Diretamente, não. Não lhes convém censurar os meios agora. Com o novo presidente e “o governo da reconciliação nacional”, “a página foi virada”. Se fizerem algo em Honduras, o mundo virá pra cima. Mas ainda temos medo da repressão. No final do ano, abriram meu carro com um tiro e arranharam toda a lataria. O Comitê de Defesa dos Direitos Humanos está nos monitorando e há medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos para que o governo garanta nossa segurança. Mas não temos inimigos, então se algo acontecer conosco será coisa do governo ou dos militares.

Fórum – O que aconteceu com os responsáveis pelos crimes cometidos durante o golpe?
Rony Martinez –
Houve estupro de mulheres com cassetetes, crianças de 13 e 15 anos foram presas. Foi algo grotesco. Quando falamos parece que foi uma ditadura de dez anos. Mas para nós foram dias muito longos. Agora o governo tem trabalhado com a ideia de que “viramos a página”. Chamaram os membros do Exército à Corte Superior de Justiça e responsabilizaram quem estava no comando. Mas não fizeram nada contra Micheletti. A Frente Popular de Resistência contabilizou mais de 150 desaparecidos. Viramos a página, mas há coisas que não se pode esquecer. Até que eu morra vou lembrar o que fizeram. Uma pessoa que teve um familiar morto não vai esquecer. Podemos não falar de determinados assuntos, mas a justiça precisa ser feita. E não podemos esperar justiça da mesma estrutura golpista que está aí. É a mesma Corte Suprema, os mesmos magistrados que prenderam Zelaya, o mesmo Congresso Nacional e forças armadas.

Fórum – Para a população, essa ideia de virar a página também vigora?
Rony Martinez –
Esta ideia não cola. Houve manifestações de 500 mil pessoas. A despedida de Zelaya contou com a presença de 1,2 milhão de pessoas – a população de Honduras é de 7 milhões. Toda essa gente viu com seus próprios olhos, viveu na pele o que passou. Dizem que estamos colocando ódio na população, mas quem fez isso foram eles, que deram um golpe e romperam a ordem constitucional. Zelaya não ia ficar um dia a mais no poder. Mas o tiraram de lá porque ele “tentava fazer algo”.

Fórum – Como está a organização da esquerda?
Rony Martinez –
Antes o que era a Frente Nacional de Resistência contra o golpe, agora é a Frente Nacional de Resistência Popular. A UD (Unificação Democrática), partido que reunia todos os segmentos de esquerda, perdeu credibilidade porque decidiu participar das eleições, quando o grito do povo era não legitimar o processo. Então a situação é muito difícil. Para a Frente Popular participar das eleições, tem que se tornar partido político. O problema é ao redor de quem convergem essas forças. Há diferentes líderes, mas o fenômeno ainda é Zelaya. As pessoas morrem por ele. Mas enquanto não se reformar a Constituição, ele não pode ser candidato. A meu ver – e esta é a opinião da maioria da esquerda – temos que participar das próximas eleições para instalar a Assembleia Constituinte, reformar a Constituição e trazer Zelaya de volta ao poder.

Fórum – Quais as perspectivas para o futuro político de Honduras?
Rony Martinez –
Com o golpe, despertou uma solidariedade nunca antes vista em Honduras. Nasceu um novo hondurenho, com consciência social. Desde a grande greve de 1954, não havia mobilização. Agora facilmente você convoca 100 mil pessoas às ruas. Dizem que a Rádio Globo é “zelayista”, mas a rádio é do povo. Zelaya foi o ponto de partida para o despertar de Honduras.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 85. Nas bancas.



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