Uma trincheira diante do arbítrio de Uribe

O domingo 1º de maio de 2005 foi um divisor de águas na história do colombiano Yuri Enrique Neira. De profissional bem-sucedido no mercado de seguros, sua vida passou por uma brusca tormenta com...

271 2

O domingo 1º de maio de 2005 foi um divisor de águas na história do colombiano Yuri Enrique Neira. De profissional bem-sucedido no mercado de seguros, sua vida passou por uma brusca tormenta com a morte de seu filho de 15 anos, Nicolás David Neira, brutalmente assassinado pela Polícia Nacional Colombiana, o Escuadrón Móvel Anti-disturbios (Esmad).

Enquanto Nicolás caminhava pelas ruas de Bogotá em busca de livros, uma marcha de trabalhadores passava pela Carrera Séptima, uma das principais vias da cidade, em comemoração ao Dia do Trabalho. Eram pouco mais de 13 horas quando, entre as calles 18 e 19, travessas da Séptima, o destino de Nicolás cruzou o caminho da polícia: bombas de gás lacrimogêneo lançadas contra a marcha pacífica baqueiam o adolescente asmático, que agoniza diante de manifestantes apavorados que debandavam acossados por policiais. Sem poder correr, e sem razões para tal, Nicolás fica. E é aí que recebe uma avalanche de golpes na cabeça, perpetrados por oito policiais do Esmad.

Os cassetetes provocaram em Nicolás traumatismo craniano, fraturas múltiplas e edema cerebral. No dia 5 de maio, Yuri amargava a morte cerebral do filho. Para ele, a “fatalidade” foi uma manifestação de poder dos que querem disciplinar “os marchantes, os inconformados com um Estado paramilitar”, e ensinar-lhes que se deve minar “seu novo fervor, que está nascendo com espírito crítico e pensamento livre”.

Após a tempestade, Yuri ainda espera uma resposta da justiça. “Busco a verdade, estudo Direitos Humanos, conheço a maioria das ONGs do país, iniciei uma campanha contra a brutalidade policial e pelo desmonte do Esmad”, sentencia. As águas passadas em 2005 continuam a escorrer torrencialmente no presente de Yuri que, mergulhado em investigações sobre as violações, infrações e delitos cometidos pela polícia colombiana, se diz um perseguido político. “Minhas denúncias me levaram a 24 detenções arbitrárias, quatro atentados contra minha vida, uma invasão de propriedade e um exílio no Brasil”, conta.

Se antes Yuri podia dizer que tinha uma vida em família, uma casa, um endereço fixo, atualmente vive “como um nômade em casas de segurança, na casa de amigos, hotéis e às vezes na casa de um familiar”. No entanto, há um endereço onde ainda se pode encontrá-lo: o Salmón Cultural, um lugar situado em pleno centro de Bogotá e dentro do coração financeiro da capital colombiana aonde vão coletivos de jovens, indígenas, camponeses, estudantes, mulheres, afro-descendentes, entre outros. “Todos realizam atividades a fim de dar visibilidade às problemáticas de suas comunidades por meio da arte, poesia, cinema, música, teatro e demais manifestações artísticas com pontos de vista diversos, abrindo espaços para a construção coletiva do conhecimento em ações diretas, mas não violentas”, explica Yuri.

O espaço foi criado em 2007, a partir da cruzada de Yuri, que repensa sua própria existência e as cicatrizes da perda de seu filho. “Como produto dessa reflexão, nasce o Salmón Cultural”, explica a jornalista colombiana Maureen Maya. “Um dos aspectos mais curiosos, mas mais bonitos da história de Yuri, é a forma com que ele desafiou seus próprios preconceitos. Garotos que ele antes olhava com receio ou que considerava uma ameaça para seu filho, por seu anarquismo e rebeldia, por sua moda às vezes agressiva, se tornaram seus melhores amigos e mais firmes aliados. Ele pode reconhecer enormes qualidades e valores humanos, tendo sido protegido por eles na fracassada tentativa de homicídio* que sofreu”, relata Maya.

A proposta da casa atraiu Maria Caro (nome fictício), de 27 anos, integrante do coletivo sócio-cultural La Concreta. Diante da atual situação do país, ela acredita que o Salmón é um “espaço de resistência”. Cultural, e não armada, simbolizada nos três andares da casa situada na Calle 32. “No primeiro piso, há um bar; no segundo havia a Galeria Café Mar (onde hoje está o Salmón); e no terceiro havia o Piso 3 (já fechado), outro bar onde se iniciou todo um exercício de resistência a partir da música, da arte e da política”. No segundo andar, as paredes estão decoradas com cores vibrantes, desenhos psicodélicos, letras rabiscadas e retratos grafitados de Nicolás Neira. Festa e resistência dançam no mesmo ritmo, marcado pela vitalidade de jovens colombianos que buscam um lugar para “a convivência pacífica e a reflexão política através da cultura”, descreve Maria.

Entre tantas casinhas de tijolo à vista, típicas de Bogotá, à primeira vista a fachada do Salmón, coberta de grafites coloridos e demarcada por um portão metálico, pode dar ares de clandestinidade. Mas Yuri destaca: “Não é clandestino. Somos tão públicos que a prefeitura maior de Bogotá nos tem como ponto de referência para realizar eventos, as ONGs solicitam o espaço para realizar oficinas e outras atividades”. Ali se realizaram as primeiras reuniões do Movimiento Nacional de Víctimas de Crímenes de Estado e foi recebida a banda mexicana Maldita Vecindad e a argentina Actitud Maria Martha, além de expressivos artistas colombianos.

Ditadura encoberta
Na noite de 24 de julho, um grupo de jovens usou batons, pó-de-arroz, armas de brinquedo e blusões camuflados para uma manifestação performática, na Carrera Séptima, contra a violência. Durante a performance, os jovens distribuíam panfletos e discutiam a militarização do país. No asfalto desenharam contornos brancos, como os delineados por investigadores criminalistas ao redor de um cadáver, com os dizeres “falso positivo”. “O termo se refere a uma prática de membros do Exército Nacional que se dedicam a assassinar camponeses inocentes, garotos humildes ou que vivem em condições de marginalidade, para logo fazê-los passar como guerrilheiros mortos em combate”, esclarece Maya. “Uma das causas disso é que o governo nacional paga para assassinar. Os soldados que apresentam presuntos guerrilheiros recebem bonificações, de 200 mil a 3,4 milhões de pesos. Os comandantes militares pressionam seus soldados para registrar mortes em combate, e com isso podem ensinar a eficácia da política de segurança democrática”, explica.

Enquanto defensores dos Direitos Humanos, articuladores do Salmón Cultural e outros movimentos sociais tentam pôr às claras o que acontece na Colômbia, o desenrolar de muitos episódios continua obscuro. Maya diz sentir o que estão vivendo como uma ditadura encoberta. Ainda assim, das mais brutais. “Nas últimas duas décadas, mais de 45 mil pessoas desapareceram na Colômbia; 24 mil foram sequestradas nos últimos 12 anos, 5.800 mil foram executadas a partir de 2002 por grupos paramilitares em conivência com agentes do Estado e mais de 10 mil seres humanos estariam atualmente em 3 mil valas comuns. Além disso, 1.920 sindicalistas foram assassinados durante a última década, 7.800 foram detidos arbitrariamente, 18 povos indígenas estão em risco iminente de extinção e 2.560 membros dessas comunidades foram assassinados nos últimos 10 anos, dentre os quais 900 eram líderes”, enumera a jornalista. Entre todos esses crimes, 56% foram cometidos durante os governos de Álvaro Uribe.

“Digo às claras: Na Colômbia foi exterminado todo um movimento político, a União Patriótica (UP). De 1985 a 2009, foram assassinados cerca de 6 mil militantes em absoluta impunidade, entre eles 2 candidatos presidenciais, 9 congressistas, 13 deputados, 70 vereadores, 11 prefeitos – hoje, o caso tramita na Corte Interamericana de Direitos Humanos, porque os recursos jurídicos se esgotaram”, conta Maya. Para ela, “com Uribe efetivamente se consolida o poder mafioso na Colômbia e o projeto narcoparamilitar, isso não se pode negar. Agora, se me pergunta se Uribe é mafioso, nada mais digo que na lista negra de narcotraficantes do mundo, realizada periodicamente pela Defense Intelligence Agency (DIA), além de nomes como Pablo Escobar, Rodrigo Gacha, Fabio Ochoa e outros, figuram os nomes de Álvaro Uribe Vélez no número 82 e seu pai, já falecido, Alberto Uribe Sierra”.

De acordo com o historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Daniel Santiago Chaves, a Colômbia “é uma nação dividida entre poderosos e narcotraficantes, com uma sociedade civil emparedada”. “Álvaro Uribe é um homem do poder, que não compreende a importância das instituições públicas democráticas supra-chancelares mais amplas, sem tolerância às FARC, sem apreço pela esquerda sul-americana. Deseja se reeleger ou eleger um sucessor a todo custo, esteve envolvido com a crise da ‘parapolítica’ – expondo que, além das FARC, muita gente no poder está envolvida com a cocaína”.

A omissão e conivência da imprensa também são outro dado do cenário atual colombiano. “Nenhum meio, por exemplo, se atreveu a falar do terrorismo do Estado, nem a revelar o rosto oculto do verdadeiro poder, o que controla e alimenta a guerra, o que impede as saídas políticas negociadas à guerra, o que determina quem ganha as eleições e orienta as políticas e versões informativas”, critica Maya. Para Yuri Neira, “muitos colombianos, devido ao terrorismo do Estado e buscando o bem-estar de suas famílias, continuam a acreditar que o silêncio é a salvação, mas acredito que o silêncio nos está matando mais do que as balas do Estado”. 

* Em 16 de janeiro de 2009, o Departamento Administrativo de Seguridad (DAS) invadiu o Salmón Cultural. Com o argumento de que Yuri Neira era um guerrilheiro da frente urbana das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), fabricante de explosivos e distribuidor de armas, os policiais revistaram a casa por mais de 6 horas, mas não encontraram nada ilegal. No dia 17, dois pistoleiros retornaram ao Salmón com a ordem de assassinar Yuri, que escapou e buscou asilo em São Paulo, como perseguido político.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de setembro. Nas bancas.



No artigo

2 comments

  1. MORETTO

    até quando os militares e poderosos capistalistas financiados pelos nazistas americanos irao aterrorizar e assassinar o povo da america latina? as FARCS PODERIA TER MAIS FORÇA E LUTAR CONTRA A DITADURA, MAS FOI ANEQUILADA PELO ARMAMENTO BELICO AMERICANO NESSES ULTIMOS TEMPOS. PRECISAMOS FICAR DE OLHOS BEM ABERTOS COM ESSES CAPITALISTAS E MILITARES EM NOSSA AMERICA.

  2. MORETTO

    até quando os militares e poderosos capistalistas financiados pelos nazistas americanos irao aterrorizar e assassinar o povo da america latina? as FARCS PODERIA TER MAIS FORÇA E LUTAR CONTRA A DITADURA, MAS FOI ANEQUILADA PELO ARMAMENTO BELICO AMERICANO NESSES ULTIMOS TEMPOS. PRECISAMOS FICAR DE OLHOS BEM ABERTOS COM ESSES CAPITALISTAS E MILITARES EM NOSSA AMERICA.

Comments are closed.


x