Universidade Federal do Ceará abrirá curso de jornalismo para assentados

Nas próximas férias a Universidade Federal do Ceará (UFC) receberá 60 assentados em suas salas. Essas pessoas farão o primeiro curso de jornalismo voltado para pessoas assentadas pelo Incra do país, o curso Jornalismo...

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Nas próximas férias a Universidade Federal do Ceará (UFC) receberá 60 assentados em suas salas. Essas pessoas farão o primeiro curso de jornalismo voltado para pessoas assentadas pelo Incra do país, o curso Jornalismo da Terra. O curso tem a mesma carga horária e estrutura curricular que o curso tradicional de jornalismo da universidade, mas os conteúdos das aulas abordarão questões ligadas à vida no campo.

“O curso lidará com temáticas voltadas para o jornalismo do campo para as pessoas que vivem lá possam atuar em assessorias de comunicação ou órgãos que desenvolvam essa temática”, explica a professora Márcia Vidal Nunes, que será responsável pela coordenação do curso.

Os conteúdos do curso ainda estão sendo elaborados e, conforme informou Márcia, ficarão prontos até outubro, um mês antes do vestibular para selecionar os estudantes. O curso específico de jornalismo para assentados da reforma agrária é uma demanda antiga dos movimentos pela terra e está sendo criado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) por meio do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).

A seleção se dá por meio do vestibular e prioriza os assentados por reforma agrária. “É importante frisar que não são cursos para o MST ou outro movimento social, é para qualquer assentado”, afirma Márcia.

Para Márcia, o ensino de jornalismo para quem mora no campo deve ser diferenciado do curso que se oferece nas universidades, “porque o olhar de quem vive no campo sobre o campo é diferente do de quem está na cidade”. O mesmo argumento é dado pelo professor Valdir Alves da Costa, da coordenação pedagógica do curso de Pedagogia da Terra, curso que é oferecido na UFC desde 2004 e em outras universidades federais em convênio com o MDA. Valdir espera que os futuros alunos atuem em veículos comunitários para fazer “jornalismo de fato, comprometido com a verdade”.

De acordo com Márcia, o custo do curso completo não pode passar de 1 milhão e 80 mil reais para pagamento de bolsas de permanência e salário de professores.

Pedagogia da Terra
O curso de Pedagogia da Terra dá ênfase em temas como educação popular, desenvolvimento sustentável, agroecologia, educação do campo, e na teoria de Paulo Freire. A primeira turma do curso que se formou chegou ao fim com uma evasão de 12%, que Waldir considera um índice baixo.

“É a universidade cumprindo o tripé universitário, de ensino, pesquisa e extensão. A gente acredita que pode evoluir no acúmulo de saber da universidade pública”, afirma Valdir. No caso do curso de pedagogia, a iniciativa ainda cumpre uma deficiência do campo, que é a falta de formação adequada para os professores que dão aula em escolas do ciclo básico.

“Geralmente nesses assentamentos os professores que dão aula só tem magistério”, conta o coordenador. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, todo professor que ministra aulas para classes de ensino fundamental e médio deve ter diploma universitário.

Questionamento
Em junho deste ano a Justiça Federal determinou a extinção do curso de direito agrário oferecido na Universidade Federal de Goiás (UFG), também destinado somente a assentados. De acordo com o juiz Roberto Carlos de Oliveira, da 9ª Vara Federal, a priorização de assentados no processo seletivo feria os princípios de “igualdade, legalidade, isonomia e razoabilidade do direito brasileiro”.

O professor Valdir rebate a interpretação do juiz, que classifica de “legalista”. “Isso é inclusão social. Quando a gente fala em inclusão, é ter programas que incluam o indivíduo por meio da educação”, diz.

Há onze anos o Pronera financia cursos e outras atividades voltadas para assentados e assentadas da reforma agrária para que a comunidade possa se desenvolver sustentavelmente. Além de cursos de graduação, o programa também financia cursos de educação para jovens acima de 15 anos.



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