Vida e morte tupinambá

À primeira vista, a aldeia Itapoã, em Olivença, Ilhéus, sul da Bahia, engana. A proximidade com belas praias, cachoeiras e rios passa a ideia equivocada de que o lugar é um legitimo oásis. De...

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À primeira vista, a aldeia Itapoã, em Olivença, Ilhéus, sul da Bahia, engana. A proximidade com belas praias, cachoeiras e rios passa a ideia equivocada de que o lugar é um legitimo oásis. De fato, poderá ser, pois ingredientes para isso não faltam. Mas um breve passeio pela região e algumas poucas conversas com os índios tupinambás que habitam a comunidade revelam outro cenário. Em poucos instantes a visão paradisíaca é soterrada pela mais crua e dura realidade.

Localizada em uma das mais belas regiões do sul da Bahia, a aldeia passa por um imbróglio fundiário que impede a chegada de serviços básicos como saneamento, saúde e educação. Rodeados pela presença abundante de água, os índios precisam caminhar cerca de dois quilômetros até uma das várias nascentes do rio Cana Brava – que atravessa a comunidade – em busca de água para as suas necessidades mais básicas, como tomar banho, preparar sua comida e matar a sede. “Além de não termos água encanada, falta esgoto e até a luz é irregular”, reclama Ivana Cardoso ou Potyra Tê Tupinambá, seu nome indígena, a diretora da ONG Thidewas, que atua na comunidade. São 23 comunidades tupinambás espalhadas em diferentes regiões do país, onde vivem 7 mil índios. Na aldeia Itapoã estão aproximadamente 500 deles.

Entre outras coisas, os tupinambás reclamam que é em um minadouro do rio Cana Brava, onde eles se banham, que grandes hotéis despejam seu lixo ‘in natura’. Os mesmos hotéis que fazem campanhas publicitárias – inclusive de cunho internacional –
alardeando terem conseguido integrar-se à natureza, preservando a flora e a fauna.

Aliás, há dois anos, a área de mais de 200 hectares, em que está localizada a comunidade tupinambá de Olivença, era ocupada por um grande lixão. E, segundo Potyra, não era apenas lixo que jogavam por lá. “Era um local perigoso usado para desova de pessoas mortas por bandidos e policiais”. Vendo a situação, os índios que moravam próximos à região decidiram re-habitar o local em que outros tupinambás viveram, no passado. Em uma linguagem mais técnica, o lugar passou a ser considerado uma ‘aldeia de retomada’.

Antes de se tornar depósito de lixo, o local também foi um loteamento, que endividado foi transferido para um banco estatal. A área ocupada hoje pela aldeia Itapoã é a única que ainda não foi alvo na justiça de ação de reintegração de posse. A explicação, segundo Potyra, é o processo em trâmite de demarcação da aldeia. O imbróglio neste momento está nas mãos do Ministério da Justiça, responsável por analisar a contestação de fazendeiros da região, contrários à presença dos indígenas.

Tensão crescente
Com a pendenga judicial em curso, os moradores da aldeia assistem à tranquilidade do local ser substituída por uma tensão crescente. “Os índios que vão à cidade são frequentemente ameaçados por capangas armados contratados pelos fazendeiros”, acusa a diretora da ONG Thidewas. Atualmente vivem na comunidade 72 famílias, mais de 200 crianças. Apesar das evidentes diferenças, na região há consenso de que, em breve, a disputa ganhará repercussão semelhante ao recente caso da demarcação da terra indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, que desde sua homologação em 2005, pelo presidente Lula, se tornou cenário de intenso conflito com agricultores que não queriam abandonar a região.

Mas o fato de isso ainda não ter acontecido não significa que a situação já não esteja delicada para a comunidade. Na área da saúde, a desnutrição, por exemplo, atinge boa parte das crianças. “O atendimento deveria ser feito pela Funasa, mas não é o que acontece”, afirma Potyra. E na da educação vive-se uma crise devido a um concurso para educadores que teria sido mal conduzido. “O Estado não nos ouve”, lamenta Potyra. Ela se refere aos mais de 50 professores indígenas que possivelmente perderão seus empregos. “Foi realizado um concurso com critérios não muito democráticos para a escolha dos novos professores”, diz.

Um retrocesso, na opinião de Sebastian Gerlic, presidente da ONG Thidewas. “Os novos professores que trabalharão nas comunidades foram escolhidos por seus diplomas, desrespeitando as especificidades da educação indígena”, observa. “Quem é o melhor professor para uma comunidade indígena?”, pergunta. E ao mesmo tempo responde: “certamente aquele em quem a comunidade confia e com o qual se sente bem, que respeita e conhece a diversidade do modo de vida do índio. E não alguém armado de certificados e crachás, mas que nada tem a ver com o grupo”.

Aldeias tecnológicas
Conectados à internet, índios descobrem o poder do ‘arco e flecha digital’

Ainda não tem banheiro e orelhão telefônico, mas na aldeia Itapoã, em Ilhéus, a internet já chegou. Conectados à rede mundial de computadores, índios descobriram o poder do ‘arco e flecha digital’. “Hoje, na era digital, para caçarmos nossa sustentabilidade, exercermos nossa cidadania e mantermos nossas tradições estamos usando tecnologia de ponta”, defende Alex Tupinambá, coordenador do projeto Índios On-line, iniciativa da ONG Thidewas, que tem apoio do MinC (Ministério da Cultura) e do Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da Oi. É por meio dela que as comunidades estão enfrentando as adversidades do difícil cotidiano.
O projeto começou em sete comunidades do Nordeste do Brasil para promover o resgate cultural e a melhoria das condições de vida desses povos, hoje já atinge 24 etnias de 12 estados brasileiros, com mais de 100 participantes. Desse total, cerca de 50 índios já integram outra ação chamada Celulares Indígenas, que utiliza aparelhos celulares como gravadores, máquinas fotográficas e filmadoras, para postar os conteúdos no portal Índios On-line, criando uma rede onde expressam suas opiniões, sentimentos e reivindicações.

Coordenada pelos indígenas, a rede beneficia indiretamente, segundo a ONG Thidewas, mais de 50 mil pessoas, recebendo em média 1.500 visitas diárias. No portal, já são mais de 3 mil matérias, 200 vídeos e 10 mil comentários de todos os cantos do Brasil e do mundo. “O principal objetivo é facilitar o acesso à informação e a comunicação entre as comunidades indígenas, criando um ambiente virtual onde os índios promovam a diversidade cultural, o diálogo intercultural e a consciência ambiental”, observa Sebastian Gerlic, da ONG Thidewas. 

Pontão de Cultura Na esteira dos avanços tecnológicos da aldeia em Olivença, no último dia 25 de setembro, comunidades indígenas de São José da Vitória, próximo a Ilhéus, inauguraram o Pontão de Cultura Esperança da Terra, ação vinculada ao Ministério da Cultura que deve representar um impulso importante para o desenvolvimento das comunidades da região – que apresenta um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do país. O local possui um telecentro com 10 computadores e uma sala de aula para cursos de reciclagem de máquinas, direitos civis, cidadania e sustentabilidade.
Ao som de cantos e danças tradicionais, a inauguração reuniu lideranças indígenas de diversas etnias, quilombolas, sem-terras, acadêmicos da Uesc (Universidade Estadual de Santa Cruz), PUC (Pontifícia Universidade Católica), USP (Universidade de São Paulo), entre outros. “O local funcionará como um espaço para encontros, oficinas e intercâmbios e ações de eco-alfabetização, bio-construção, ciberativismo, etnojornalismo, cultura de paz, agro-florestas e permacultura”, informa Gerlic.

Na mesma semana, a aldeia Itapoã comemorou a construção da nova sede da rede Índios On-line. Com a instalação de novos computadores conectados via satélite, inauguraram a nova base de produção multimídia, que recebeu o nome de Ciberoca – resultado de parcerias da comunidade com os ministérios da Cultura e Comunicações. Potyra, da ONG Thidewas, observa que a internet está colaborando para o desenvolvimento das comunidades. "O índio continua muito discriminado e nos mostrar ao mundo é uma forma de combatermos essa realidade. Estamos conseguindo vários benefícios para as aldeias por meio da rede", conta.

“Extinção foi uma mentira”, afirma a líder indígena Yakuy 

A líder indígena Yakuy Tupinambá afirma que a extinção de tupinambás foi uma mentira. Ela conta que a comunidade em Ilhéus tornou-se aldeamento jesuítico em 1640 e com isso várias etnias indígenas foram reunidas para catequese. É quando os tupinambás foram declarados extintos, no século 18. Hoje, aldeias por todo o país lutam para ter a sua etnia novamente reconhecida. “Ainda no século 19, meu tataravô, Nonato do Amaral, filho de uma indígena com um português, protegia a Vila de Olivença contra os invasores, mas foi preso e morreu na cadeia depois de cometer suicídio”.
Yakuy conta que após a construção de uma ponte que ligou a Vila de Olivença à cidade de Ilhéus, durante a ascensão da plantação da lavoura cacaueira, começa uma das fases mais violentas para os tupinambás. “Os fazendeiros usavam os próprios indígenas como pistoleiros; se não aceitassem, também seriam mortos”. Durante todo o tempo em que o cacau foi responsável pelo PIB do país, negou-se aos tupinambás a identificação de sua etnia. “Tivemos que calar a nossa voz, esconder nossos rostos”, lamenta. Nessa época passaram a ser chamados de caboclos de Olivença. 

 A sorte não mudou nem mesmo durante o mandato do xavante Mario Juruna, primeiro deputado indígena brasileiro (1983-1987). Quatro tupinambás de Olivença foram a Brasília, reivindicar direitos, mas sequer conseguiram falar com o político. “Passaram até fome e quando retornaram à aldeia, dois deles tiveram as unhas arrancadas por fazendeiros”, recorda a indígena. Apenas depois da decadência cacaueira, o movimento Tupinambá ressurge, apoiado pela pastoral da criança e depois pelo CIMI (Conselho Indigenista Missionário). Em 2002, finalmente, sai o reconhecimento oficial por parte do governo brasileiro. “Um grupo de trabalho da Funai veio fazer o reconhecimento por meio de pesquisas e relatos dos mais velhos, foi quando começou a primeira fase do processo de demarcação da aldeia Itapoá”, conclui.



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2 comments

  1. samy

    os indíos sãos uma pequena demonstração de fé e corag em mas são muito importante para nossa cultura! ass:samy

  2. samy

    os indíos sãos uma pequena demonstração de fé e corag em mas são muito importante para nossa cultura! ass:samy

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