Wando (1945-2012): adeus a um gigante pioneiro e sedutor

Capa do primeiro LP de Wando, de 1973 Morreu hoje, aos 66 anos, na CTI do Biocor de Nova Lima, Minas...

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Capa do primeiro LP de Wando, de 1973

Morreu hoje, aos 66 anos, na CTI do Biocor de Nova Lima, Minas Gerais, um gigante da música brasileira: Wando, compositor de algumas pérolas conhecidas por uma legião de brasileiros, cantor de extraordinários recursos técnicos, exímio violonista, pioneiro no desbravamento de uma série de temas tabu durante a ditadura – como a homossexualidade ou a organização popular nas favelas –, Wando foi conhecido, sobretudo, como um artista de palco. Quem viu ao vivo, não se esquece. A partir do final dos anos 70, quando dá a guinada melosa-romântica com a qual ficaria conhecido, Wando desenvolve uma persona inconfundível. Galã e sedutor, ele passava longe da figura do machão. Era pura delicadeza. Levava o público feminino à loucura, mas não provocava nos homens temor ou desconforto. Tinha um jeito suave de desarmá-los. Associado ao “cafona” ou ao “brega”, era reconhecido – por qualquer um que tivesse prestado um mínimo de atenção – como um artista no nível dos grandes da música brasileira popular.

Natural do arraial de Bom Jardim, em Minas Gerais, e registrado em Cajuri, ao lado da velha ferrovia Leopoldina, Wanderley Alves dos Santos cursou o ensino fundamental em Juiz de Fora e daí foi para Volta Redonda. Trabalhou como leiteiro, feirante, motorista de caminhão. Estudou violão clássico, mas abandonou-o quando viu que o queria mesmo era “tocar para as moças”. Começou a fazer canções românticas e passou por uma etapa comum na época, os conjuntos de baile. Quando a música passou a “atrapalhar” na feira, Wando se mudou para Congonhas do Campo, em Minas Gerais, onde ficou durante cinco anos e pela primeira vez ganhou dinheiro com música, num grupo chamado “Escaravelhos”. Ainda em Congonhas, ele compôs o seu primeiro sucesso, que depois seria gravado por Jair Rodrigues: “O importante é ser fevereiro”, e logo depois se mudou para o Rio de Janeiro, levando emprestado, sem avisar, o violão de um amigo.

A passagem rápida pelo Rio não deu certo, e o começo mesmo viria em São Paulo. Hospedado num hotel popular na Rua Timbiras, ele conheceu um dentista que o apresentaria a Jair Rodrigues. Jair se apaixona por “O importante é ser fevereiro” e trinta dias depois, Wando era sucesso nacional como compositor, na voz de Jair, e logo em seguida sucesso também como intérprete, com o compacto “Maria, Mariá”. Seu primeiro LP, de 1973, “Glória a Deus e samba na terra”, mostrava Wando de camiseta sem manga, cabelão black power e pose intimista com o violão. É uma das capas antológicas da época. Sucesso no carnaval de 1974, Wando já pôde comprar seu primeiro carro, um Opala vermelho. Voltou a Congonhas para a devolver o violão do amigo, enquanto emplacava mais um sucesso como compositor, “Vá mas volte”, na voz de Ângela Maria.

Em 1975, Wando chegava ao ápice: “Moça”, tema da novela Pecado Capital, de Janete Clair, vendia nada menos que 1,2 milhão de cópias. Magnífica pérola pop, com uma linha melódica e um arranjo que deixavam entrever a formação clássica de Wando, mas que mostravam seu total domínio da forma canção, uma letra que timidamente anunciava o jeito Wando de lidar com temas difíceis, relacionados aos espinhos do amor (sei que já não és pura / teu passado é tão forte / pode até machucar), “Moça” foi desprezada como “cafona” pelos emepebistas da época, mas 37 anos depois ela ainda é cantada não só no Brasil, mas em outras latitudes, como se vê neste show de Wando em Maputo, Moçambique.

Em 1977, Wando desbravou novo território, com a composição “Presidente da favela”. Ela rendia homenagem ao líder comunitário Dalvino de Freitas, que impressionou Wando durante uma de suas participações no programa de Aírton Rodrigues, na TV Tupi: que sirva de exemplo / a todas as favelas brasileiras / arranjem um presidente / de boas maneiras / que a vida lá no morro será bem melhor. A letra jogava com um duplo sentido: homenageava o “presidente da favela”, mas subrrepticiamente mostrava a ausência de um presidente como aquele – da favela – no país. Quando se fala de protesto político na música dos anos 70, em geral pensamos na MPB intelectualizada. Mas nenhuma canção de Chico ou Caetano teve, sobre as formas de organização das comunidades urbanas mais pobres, o impacto que teve “Presidente da favela”, de Wando.

Mais pioneirismo viria em 1978. Wando ainda não era conhecido como “obsceno”, mas a canção “Emoções” foi uma das primeiras da época a falar abertamente de homossexualidade masculina, logo depois do desbravamento do tema realizado por outro artista considerado “cafona”, Agnaldo Timóteo. A letra de “Emoções” (a lua iluminou teu corpo / moreno bonito pra me provocar) não deixava dúvidas, era explícita quanto ao homoerotismo, e a canção por pouco não foi censurada. O pioneirismo de Wando no tratamento tanto da organização popular na favela como da homossexualidade masculina passaram completamente desapercebidos pelos estudiosos de música brasileira, sempre dispostos a privilegiar a MPB intelectualizada, até ser notado por Paulo César de Araújo, no seu grande livro Eu não sou cachorro, não: Música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002).

Capa do disco de Wando de 1988

Nos anos 80, quando começaram a associá-lo ao rótulo de “obsceno”, Wando fez o que faz todo grande artista: apropriou-se do rótulo redutor e reinventou-o, trazendo-o para o seu terreno e conferindo-lhe mil outros sentidos. Compôs e gravou seu grande sucesso, “Fogo e Paixão”, e percebeu, segundo suas palavras, que se você virar uma calcinha de cabeça para baixo ela se transforma uma tenda. O disco Tenda dos Prazeres faz enorme sucesso e os shows de Wando se converteram em verdadeiras apoteoses de liberação simbólica feminina. É um fenômeno único na música popular. Nas palavras do próprio Wando: Na verdade, quem fez a minha coleção de calcinhas, nem fui eu, foram as mulheres que faziam questão de jogar suas calcinhas no palco durante meus shows… Os homens acabam percebendo que sou um aliado deles e não um inimigo. Acabam aprendendo com as dicas que dou. Mulher adora ser chamada de gostosa. Sempre. Já para chamar de safada você tem que saber o momento certo.

Folclorize-se o quanto se quiser as histórias com calcinhas, mulheres infláveis, sorteios de entradas para motéis e receitas de sedução. Wando não se importaria – ele jogava com isso. Mas não se esqueça também de que morreu hoje um gigantesco artista, uma enorme figura daquela forma de arte que é o nome do nosso ser, nosso único e verdadeiro passaporte para a eternidade: a música brasileira popular.

Vai na fé, Wando. Obrigado por tudo.



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22 comments

  1. Tiago Mesquita Responder

    Idelber, ficou linda a homenagem. Estou muito sentido. Fiquei chateado mesmo com a morte do Wando. Ele faz parte de um filão vindo do samba que tem outros grandes artistas, como o Benito de Paula e o Luiz Ayrão. Chegou a influenciar artistas que apareceram antes dele, como o Roberto ribeiro.

    A suavidade vocal do Wando tinha algo de conversa ao pé no ouvido que nos lembra muito da forma literária que se desenvolveu com mais fluência no país: o bate-papo.

    Outra coisa interessante da música do Wando é que ele incorporou muitas influências, desde os boleros às harmonias a la Chico Buarque. As usou de maneira muito pessoal e contava intimidades como ninguém. Esse lado do que é incofessável, portanto obsceno, era a sua maior originalidade.

    Serve de consolo o fato dele ter tido uma vida feliz. Foi muito querido, fez muito sucesso e transou adoidado.

    A indiferença de meios mais intelectualizados parece não ter feito o menor efeito na vida do ídolo. Isso é um problema para os intelectuais, não para os cantores. Acho que ele não dava bola pra isso. O Lauro o entrevistou dois anos atrás e disse que ele era completamente desprovido de ressentimentos.

    1. Idelber Responder

      Salve, Tiago. É muito chave isso que você menciona — e que eu também havia notado, mesmo sem nunca ter entrevistado o Wando. Ele passava tranquilo, sem qualquer ressentimento, por essa cortina de indiferença da MPB sancionada. Na verdade há problemas dos dois lados: uma intelectualidade emepebista que despreza formas populares e gente que (sem ser necessariamente das classes populares, em geral são classe média também) que traz um trauma e um complexo de inferioridade com qualquer coisa que seja sancionada intelectualmente. Hoje, por exemplo, caiu na minha TL do Twitter uma coisa assim: “já vão intelectualizar o Wando, então agora eu vou deixar de gostar”.

      O Wando mesmo, claro, era alheio às duas bobagens. Passava impávido, tranquilo.

  2. Jair Fonseca Responder

    Wando é uma das grandes expressões do que chamo de música popular-popular brasileira, ou música existencial-popular brasileira. Estigmatizado como brega, por ele mesmo ter explorado o filão erótico-romântico que o manteve na boca do povo por décadas (calcinhas faziam parte de seu show), Wando, além do que o Idelber aponta aí, também gravou canções “trabalhistas”, como “O ferroviário” (sucesso de rádio), e de temática afro-brasileira (como “Nega do Obaluaê”, “Velho batuqueiro”) e até indígena (“Xavante, lágrimas e poesia”). Em dois de seus LPs dos 70, há ótimos sambalanços, com influência do soul (como “Benedito e Julieta”, “Se quiser chorar por mim”. Por falar em afro-samba-soul-pop, uma bela canção sua teve problemas na censura por louvar um Cristo negro do candomblé: “Jesus (Negro bonito dos olhos azuis)”.
    Um grande melodista e cancionista, figura carismática no palco, Wando ainda dizia não ser contra a pirataria; dizia que o que perdia como compositor, ganhava pela divulgação de sua obra. Todas os seus discos estão disponíveis em seu site: http://www.wando.com.br
    Quem quiser conhecer seus ótimos e raros LPs dos anos 70, vá lá ouvir.
    Adeus, velho batuqueiro!

    1. Idelber Responder

      Salve, Jair, te agradeço muito a lembrança dessas outras facetas que não mencionei — muito especialmente o “Nega de Obaluaiê” e “Xavantes, lágrimas e poesia”, que não poderiam ter faltado. Aquele abraço!

      1. Tiago Mesquita Responder

        Xavantes é a minha favorita

  3. Allan Responder

    Alguns músicos fazem parte da trilha sonora de cada um. Wando, assim como o mais internacional dos bregas, Mr. Elton John, faz parte da minha trilha sonora pessoal. Um dia eles se vão e só então descobrimos o que representaram nas nossas vidas.

    Bela homenagem.

  4. dilmão-campeão de tudo Responder

    Tinha um enorme respeito pelo Wando, mesmo não gostando de suas músicas. Você fez uma descrição tão próxima do que eu pensava sobre ele, mas não tinha palavras ou espaço para descrever, que eu poderia bater palmas em reverência a ele e a você. A história de sua vida e obra, é muito mais abrangente do que “pseudo-intelectuais”, como eu, inclusive, poderiam supor. Linda história, homenagem comovente. Deixou seu legado e saudade nos corações dos fãs. Vá em paz Wando.

  5. Bruno Ribeiro Responder

    Idelber, vale citar ainda a preocupação social manifesta por Wando em seus primeiros discos. Considero a faixa “O Ferroviário” (que integra o LP de estreia) de antologia. Não só a letra é muito interessante, mas principalmente o arranjo dado à faixa. Simples, mas não simplista. Se Wando mudou “para pior” sua linha de canção (é o que diz amiúde o senso comum), isso deve-se ao fato de ele ter sido “colocado para escanteio” muitas vezes ao longo da carreira pela crítica elitista e pelas rádios FM. Não é qualquer artista que consegue se reinventar constantemente e ainda assim demarcar seu território no coração do povo. Wando foi, no sentido profundo do termo, o popular brasileiro.

  6. Mariana Watanabe Responder

    Eu chorei com o seu texto. Acho que foi o mais bonito e intenso que li sobre o Wando no dia de hoje.
    Acho que música “brega” faz sucesso e mexe com a gente justamente pela simplicidade que, mesmo que seja erótica e cafajeste, beira a inocência.
    Estou chateada de verdade com a morte do Wando. Ele era bem mais do que o cara das calcinhas e de “Fogo e Paixão”, tão querida nos karaokês. E você, nesse texto, conseguiu expressar essas outras facetas e a importância tamanha dele na música. Parabéns!

  7. Bruno Responder

    Gostaria de ver um texto do Idelber a respeito do Van Halen.

  8. igorbica Responder

    Faço das palavras da Mariana as minhas, comovente texto, lembrança oportuna e necessária, querido por todos , um artista completo e carismático, competente e talentoso .
    Parabéns ao texto , minha homenagem aos seus amigos e familiares !

  9. Júlia Responder

    Caramba rapaz! Seu texto me deixou emocionada, também nao era para menos, está maravilhoso.Parabéns!

  10. Lucas ceccato Responder

    Eu gostaria de completar a informação, a primeira música composta pelo wando foi em parceria com o Nilo Amaro do grupo cantores de ébano, que inclusive foi quem o apresentou ao Jair rodrigues e o levou na Beverly a sua primeira gravadora.
    Lucas Ceccato

    1. Idelber Responder

      Grande Lucas, valeu! Importante acréscimo.

  11. Fábio Carvalho Responder

    Eu tinha uns 20 anos quando alguém da galera fez uma versão em inglês para Fogo e Paixão. Era sucesso garantido no violão das festinhas ou da cantina da faculdade. Acho que o Wando se foi sem ouvir essa gema:

    You are light
    Is flash, star and the moon
    Sunny day
    My iaia, my ioio
    You are yes
    And never my no
    When very crazy
    Me kiss in the mouth
    Me love on the floor

    You call me carmim
    Put in my mouth the honey
    So love crazy
    You call me the sky
    And when you leave me
    Take my hart away
    You are the fire
    I’m the passion.

    1. Idelber Responder

      Gênio!

  12. Gabrielle burcci Responder

    Idelber,
    Quero lhe agradecer imensamente pelo deslumbrante texto que escreveu ao meu pai.O que o Lucas comentou e verdadeiro e aproveito para fazer apenas um comentario; fogo e paixao na verdade foi escrita por Rose Marie, a unica mulher que realmente foi casada no papel com ele e que por um acaso do destino e minha mae.Eu admiro muito o lindo trajeto de vida que o meu pai conseguiu trilhar, mantevesse 40 anos no mercado e na boca do povo, com Mais de 50 sucessos gravados.Quanto ao queridissimo Alexandre…Sao pessoas como voce mestre do comentario vazio e absurdo que fazem de icones como o meu pai e outros que lhe incomodam tanto, mais famosos e mais aplaudidos ainda pelas multidoes.Acredito que quando o seu corpo for jogado nas ruas do suburbia, vamos apenas escutar:um silencio profundo…!!!!

    1. Idelber Responder

      Cara Gabrielle, que honra ter você aqui, e que felicidade saber que você gostou do texto que escrevi sobre seu pai. Ele me proporcionou, como a milhões de brasileiros, momentos muito especiais. Que você tenha um luto tranquilo e cheio de memórias boas. Um abração afetuoso!

  13. Gabrielle burcci Responder

    Amigo Idelber,
    Assim que der me mande o seu email… Pois acredito que temos muito a conversar em um futuro bem proximo…vc pode agregar muito a continuidade dos projetos em que meu pai tinha em mente e que se Deus quiser darei continuidade.Mais uma vez obrigado pela Linda homenagem!

  14. Danieli Responder

    Lindo texto! Parabéns!

  15. Idelber Responder

    Alexandre, eu só falo por mim mesmo. Sempre fui fã do Wando. Não virei fã anteontem. E dê uma conferida, por exemplo, no papel de “Emoções” e “Presidente da favela” nos anos 70 — questões que eu toco muito en passant neste texto. Uma ótima referência é o livro do Paulo César de Araújo, citado acima.

  16. Jair Fonseca Responder

    Alexandre, o Idelber e outros, eu inclusive, fundamentamos nossa opinião sobre a importância da obra de Wando. Se você não consegue perceber a diferença entre a obra dele e as dos artistas que você cita, é porque não a conhece. Aproveite as dicas que demos e ouça para depois fundamentar seu diagnóstico. Sinceramente, essa comparação final (“qualquer cadáver jogado nas ruas dos subúrbios do país seria “verdadeira MPB”, pelo simples fato de atrair multidões”) é estapafúrdia.


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