1968, 40 anos depois

A história contada e analisada por quem participou de forma intensa da luta dos estudantes no Brasil Por Glauco Faria e Pedro Venceslau   Depois daquele ano,...

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A história contada e analisada por quem participou de forma intensa da luta dos estudantes no Brasil

Por Glauco Faria e Pedro Venceslau

 

Depois daquele ano, o mundo não foi mais o mesmo, embora o que a compulsão simplificadora da mídia relembre hoje como 68 tenha sido, na verdade, uma rebelião plural e diversificada. Isto é, vários 68 coincidindo, com as suas peculiaridades locais, em diversos países. O nosso, por exemplo, foi deflagrado quando a Polícia Militar do Rio, então sob o comando do Exército, matou, no restaurante estudantil do Calabouço, em 28 de março, o estudante Edson Luís, que participava com colegas de manifestação pela melhoria da comida e da higiene; a francesa começou quando os universitários de Nanterre resolveram exigir o fim das barreiras que separavam os dormitórios masculino e feminino no campus. Não deixa de ser interessante distinção entre as aflições do terceiro e do primeiro mundos”.
O depoimento acima é de Arthur Poerner, à época com 28 anos e quintanista da Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ), e dá uma mostra do que foi aquele ano histórico no país. Ao mesmo tempo em que a ditadura militar começava a endurecer a repressão, que chegaria no auge com o advento do AI-5 em dezembro, o movimento estudantil tomou corpo e passou a ter uma importância fundamental na resistência contra o regime autoritário. Ao mesmo tempo, novas concepções estéticas e comportamentais promoveram uma verdadeira revolução no modo de agir e de pensar do brasileiro, influenciando de forma decisiva a ação política de esquerda.
O estudante citado por Poerner, Edson Luís de Lima Souto, 18 anos, não era exatamente o padrão “classe média” que alguns historiadores dizem ser o tipo do estudante que participava das manifestações célebres de 1968. Nascido em Belém, mudou-se para o Rio de Janeiro e continuou seus estudos secundários no Instituto Cooperativo de Ensino, que funcionava no restaurante Calabouço. E nesse refeitório, ocupado por estudantes, que o paraense foi alvejado pela repressão policial e acabou morrendo antes de receber socorro médico. Era 28 de março de 1968 e outras seis pessoas ficaram feridas na ocasião, sendo atendidas no Hospital Souza Aguiar.
Morto, Edson tornou-se um símbolo. Foi levado para a Assembléia Legislativa por estudantes e velado ali mesmo, em cima de uma mesa, onde também foi feita a necrópsia. O enterro, no cemitério São João Batista, foi precedido por uma passeata que levou o seu corpo até o local. Aproximadamente 50 mil pessoas gritavam “mataram um estudante. E se fosse seu filho?” e faixas questionavam: “Bala mata fome?” e “Os velhos no poder, os jovens no caixão”.
Era o início de uma série de manifestações estudantis que daria uma outra forma à luta política e à resistência contra a ditadura. Naquele ano, oficialmente outras nove pessoas seriam mortas na repressão aos protestos liderados, em sua maioria, por estudantes. No dia 1o de abril seguinte, nova onda de protestos em função do aniversário daquilo que os militares chamavam de “revolução”. No Rio de Janeiro, um confronto entre policiais e estudantes deixou 56 feridos, sendo 30policiais. Mas um funcionário da Companhia de Navegação Costeira, David de Souza Meira, e o estudante de Medicina Jorge Aprígio de Paula foram mortos por policiais que tentavam dispersar manifestantes desarmados. Cogita-se até que David não fazia parte passeata.
Na manhã do dia seguinte, 2 de abril, foi celebrada na Candelária uma missa em homenagem a Edson Luís, celebrada pelo bispo auxiliar da cidade e mais quinze padres. Já no transcorrer da cerimônia, policiais, fuzileiros navais e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) cercaram a saída da igreja. Um esquadrão da cavalaria da polícia, armado de sabres, bloqueia os portões. Os padres formam um cinturão de mãos dadas protegendo aproximadamente 2,5 mil pessoas. Conseguem convencer os soldados de que não haveria passeata. Ainda assim, houve perseguição a pequenos grupos de estudantes após a dispersão, mas o pior é evitado.
Além do contexto político brasileiro, o panorama internacional favorecia e inspirava a ação dos estudantes no país. “É fato que as lutas no Brasil uniram-se ao furacão que atravessou o mundo naquele ano: maio em Paris, revoltas estudantis na Alemanha, na Itália e na Inglaterra, movimentos contra a guerra do Vietnã e o racismo nos Estados Unidos, protestos de rua em Tóquio. Também o bloco socialista foi abalado com a invasão da Tchecoslováquia, onde o Partido Comunista local tentava conciliar socialismo com liberdade. E a ofensiva do Tet, o ano novo budista, contra as tropas americanas no Vietnã, mostrou que o triunfo do Vietcong era uma questão de tempo”, avalia o ministro da Comunicação Social Franklin Martins, que estudava Economia e era ligado à Dissidência, uma organização política com base universitária que havia rompido com o Partido Comunista.
Contudo, Martins, que participou ativamente das movimentações à época, assegura que a ação estudantil no país não era uma mera extensão do que ocorria em outros países. “Esse turbilhão internacional produziu um caldo de cultura propício para o surgimento e o crescimento do movimento estudantil no Brasil. Mas, nem de longe, a luta por aqui foi um reflexo do que se passava lá fora, tanto que as primeiras grandes manifestações no Rio ocorreram em fins de março, bem antes, portanto, do Maio francês ou da Primavera de Praga”, esclarece. “Pessoalmente, creio que bem maior, no coração e na mente dos jovens brasileiros, foi o impacto da ofensiva do Tet [ataque lançado pelos norte-vietnamitas contra as forças estadunidenses e sul-vietnamitas em 31 de janeiro de 1968, na Guerra do Vietnã]. A sensação foi de que, se os vietnamitas podiam vencer a mais poderosa máquina de guerra do mundo, por que o povo brasileiro não poderia derrubar a ditadura?.”
Um dos líderes das manifestações de 1968 no Rio de Janeiro era o então presidente da União Metropolitana dos Estudantes (UME) e graduando em Direito na Universidade do Brasil, Vladimir Palmeira. À época, também era “foca” do jornal Última Hora. “Eu era – e continuo sendo – socialista. Achava que a revolução era a saída para o Brasil, mas não era militarista, defendia a insurreição urbana e a guerrilha rural. No movimento estudantil nós só usamos a violência, em 1968, para mostrar que queríamos dialogar”, pontua.
Palmeira fazia parte de uma vertente do movimento estudantil que via a necessidade de se trabalhar a base nas próprias escolas, tendo como foco temas como a discussão do currículo, as condições do professor, as verbas para a universidade pública. Mas a mobilização e a força do movimento faziam dos estudantes personagens centrais na resistência, alcançando uma visibilidade maior do que as articulações que eram feitas no plano institucional. “Hoje, avalio que as ações estudantis do Rio foram corretas. Nós defendíamos, nas entidades, a luta contra a política educacional do governo, e não contra a ditadura. Queríamos mais verbas para a universidade. Foi a ditadura que se encarregou de politizar nosso movimento”, recorda.
“O agito parisiense de 1968 teve reflexos em todos os cantos do mundo, mas aqui havia peculiaridades próprias porque vivíamos numa ditadura. A repressão aos sindicatos era mais violenta e fora o MDB, único partido de oposição ‘permitido’, foram os estudantes que orientaram a grande reação”, relembra outro importante líder estudantil da década de 60, o ex-ministro José Dirceu. “O movimento estudantil começou com bandeiras próprias, buscando ensino superior gratuito e de qualidade para o jovem brasileiro e, lógico, mais liberdade, menos autoritarismo. Depois, a repressão crescente foi um fator a mais para que conquistasse as ruas. Essa militância mais política legitimou o movimento como uma reação de massa àquela situação terrível.”
O historiador Daniel Aarão Reis, presidente da UME que antecedeu Palmeira, argumenta que o ano de 1968 se tornou especial para todos aqueles que se interessavam de perto pela política com uma concepção de esquerda, abrindo um leque de expectativas que duraria até a promulgação do Ato Institucional número 5. Segundo ele, é preciso ressaltar uma importante diferença entre os movimentos sociais e as organizações revolucionárias que participavam e, até então, em parte dirigiam politicamente o processo de lutas. “Trata-se de uma distinção formulada há anos pelo Vladimir Palmeira, amigo pessoal, e maior líder do movimento estudantil em 1968, e que nem sempre é percebida com a devida acuidade”, explica. “Os movimentos sociais, entre eles o movimento estudantil, se pautavam por um programa fundamentalmente sindical, com reivindicações precisas, concretas, graças a isso inclusive os movimentos cresceram tanto na época. Politicamente, o que a ampla maioria queria era a restauração da democracia, das liberdades democráticas”, sustenta. “As organizações revolucionárias, embora empenhadas nas lutas sociais, tinham outras perspectivas, articuladas em torno de um projeto revolucionário, de derrubada violenta da ditadura para instauração de uma sociedade revolucionária, surgindo aí muitas divergências entre os grupos revolucionários que se inspiravam – sem copiar – nas grandes experiências revolucionárias do século XX: Rússia, China e Cuba.”
Segundo o historiador, muitas das organizações revolucionárias ficaram surpresas com a “explosão” social de 68, e tiveram uma certa dificuldade de avaliar aqueles movimentos sob a perspectiva revolucionária. “[A visão deles] passava muito mais pelo enfrentamento armado –guerrilhas urbanas e rurais – do que por uma articulação complexa entre movimentos sociais e lutas políticas e militares”, pontua.

O endurecimento
Estudantes, trabalhadores, artistas, padres e parlamentares. Eram eles e milhares de outras pessoas que davam um colorido especial à Cinelândia, Rio de Janeiro, naquele 26 de junho de 1968. Calcula-se que 100 mil pessoas tenham participado do evento que não foi apenas contra a ditadura, tinha diversos outros focos. Fazia oposição à política educacional do governo e questionava o capitalismo estadunidense.
Em São Paulo, os estudantes também se mobilizavam (ver página 14). Uma reunião da direção da União Nacional dos Estudantes (UNE) no mês de julho decidiu que a realização do 30º Congresso da UNE seria em São Paulo e a União Estadual dos Estudantes (UEE) seria a responsável pela organização. “O local não poderia ser um convento de religiosos como nos congressos anteriores porque a repressão poderia localizá-lo com facilidade”, conta Paulo de Tarso Venceslau, que estudava Economia na USP e foi um dos organizadores do Congresso, que se realizou em Ibiúna e terminou com a prisão de mais de 800 estudantes.
Às vésperas do início do Congresso, em 2 de outubro, eclodiu um episódio até hoje conhecido como a batalha da rua Maria Antônia. “O conflito foi resultado de provocações articuladas pelo chamado Comando de Caça aos Comunistas (CCC) – que tinha na universidade Mackenzie sua principal base de operações”, recorda Venceslau. “Lá se embaralhavam agentes como Raul Careca, um delegado do Dops [Departamento de Ordem Política e Social], até capitão Maurício, que no DOI-Codi, no ano seguinte, seria chefe de uma equipe de torturadores. Foram eles que plantaram, no meio dos estudantes da USP, um agente provocador, Brasil de Oliveira, um dos responsáveis pelo começo do confronto. Para nós, não havia o menor interesse em chamar atenção sobre o movimento estudantil porque o 30º Congresso da UNE estava agendado para a segunda semana de outubro e estava sendo encaminhado desde agosto
em todos os estados do Brasil”, relata.
Naquele dia, estudantes da Filosofia da USP recolhiam fundos para a realização do Congresso quando foram atacados por pessoas identificadas com a universidade Mackenzie. Venceslau contesta a versão de que o conflito se deu simplesmente entre mackenzistas e uspianos. “Até porque nossos aliados detinham o controle das entidades estudantis do Mackenzie, inclusive o DCE [Diretório Central de Estudantes]. Todos nós vimos e testemunhamos viaturas do Exército brasileiro descarregando rojões e armas de fogo, sob o comando do capitão Maurício, na entrada lateral do Mackenzie, na rua Itambé”. Um dos tristes resultados do conflito foi o assassinato do secundarista José Guimarães.
Outro ponto importante na mobilização dos estudantes e que se tornou fundamental para o endurecimento do regime militar acontecera no dia 1o de setembro. A Universidade de Brasília foi invadida por um grupo de agentes à paisana sob o pretexto de procurar o estudante Honestino Guimarães, que seria morto mais tarde. O resultado foi uma série de espancamentos, tumultos e tiros disparados pela repressão.
Em vista da situação, o deputado Márcio Moreira Alves fez dois discursos na Câmara nos dias 2 e 3. Por conta desses proncunciamentos, o então procurador-geral da República, Délio Miranda, entrou com uma representação no Supremo Tribunal Federal (STF), acusando o deputado de “abusar dos direitos individuais e políticos, praticando atentado contra a ordem democrática, vilipendiando as Forças Armadas”. Um dos trechos pinçados pelo procurador no primeiro discurso de Moreira Alves dizia: “Quando poderemos ter confiança naqueles que devem executar e cumprir as leis? Quando não será a polícia um bando de facínoras? Quando não será o Exército um valhacouto de torturadores?”. A palavra “valhacouto” equivale a asilo, refúgio.
Além disso, ficou célebre a segunda ocasião, ocorrida em um horário das sessões reservado para pequenos pronunciamentos, onde ele disse: “Vem aí o 7 de Setembro. As cúpulas militaristas procuram explorar o sentimento profundo de patriotismo do povo e pedirão aos colégios que desfilem junto com os algozes dos estudantes. Seria necessário que cada pai, cada mãe, se compenetrasse que a presença de seus filhos nesse desfile é um auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas. Portanto, que cada um boicotasse esse desfile. Esse boicote pode passar também – sempre falando de mulheres – às moças que dançam com os cadetes e namoram os jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje no Brasil com que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de suas casas àqueles que vilipendiam a Nação, recusassem aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam. Discordar em silêncio pouco adianta”.
No dia 12 de dezembro, a maioria da Câmara dos Deputados votou contra o pedido para processar Marcio Moreira Alves. Esse foi o pretexto para que a linha dura do governo vencesse a disputa interna resultando no AI-5, promulgado em 13 de dezembro e que dava poderes absolutos ao regime, fechando o Congresso Nacional por quase um ano, conferindo poderes ao presidente da República para decretar estado de sítio e suspendendo a admissibilidade do habeas corpus para “crimes políticos”. Os movimentos populares tiveram seu golpe de morte àquela altura. A repressão os empurrou para a clandestinidade.

O legado de 1968
Passados 40 anos de uma luta que mudou não apenas os rumos do regime autoritário que vigorava no Brasil, mas também a própria forma de luta política, como avaliar a importância dos acontecimentos de 1968? Para Aarão Reis, é preciso destacar as múltiplas dimensões dos atores que se organizavam a partir dali, como os chamados novos movimentos sociais, mulheres, negros, homossexuais, índios e outros que não queriam acompanhar o discurso tradicional das organizações revolucionárias de “vanguarda”, de tradição marxista-leninista. “Não aceitavam mais a dogmática marxista-leninista, esta poderosa religião laica, nem estavam dispostos a esperar os ‘amanhãs que cantam’ para verem seus propósitos e reivindicações realizados”, aponta Reis. “Queriam o que queriam aqui e agora, e isto despedaçou a constelação das esquerdas em 1001 pedaços. As esquerdas tradicionais nunca perdoaram o ano de 68 por ter sido o ‘revelador’ destes novos movimentos que se situariam, mais tarde, e na seqüência, como grandes atores na cena política. Eles, a rigor, foram e são até hoje o grande legado positivo e construtivo daquele ano.”
Frei Betto, que estudava Antropologia na USP e militava na Ação Libertadora Nacional (ALN), comandada por Carlos Marighella, acredita que uma das grandes conquistas foi justamente o desenvolvimento de formas de organização dos estudantes, algo que influencia ainda hoje o meio universitário. “O maior legado é a capacidade de mobilização do movimento estudantil, como recentemente se viu na Universidade de Brasília, com a deposição do reitor e do vice-reitor”, fazendo uma comparação com o episódio da ocupação da reitoria da UnB. “Pena que, hoje, os fatores de desmobilização sejam mais fortes que os de mobilização. Mas ficou a certeza de que é na juventude que nos impregnamos de valores éticos, revolucionários, solidários, na busca de um ‘outro mundo (e Brasil) possível’.”
De acordo com Venceslau, o grande feito dos movimentos estudantis está associado ao enfrentamento contra uma sociedade autoritária. “Sem aquele tipo de contestação, a ordem das coisas não muda. A repressão aos estudantes, em 1968, no Brasil, deveu-se muito mais à contestação da ordem e dos costumes do que às propostas políticas revolucionárias de pequenas organizações clandestinas”, analisa.
“Naquela situação, não havia muitas alternativas. Era tudo ou nada porque veio o AI-5 e não dava para fazer movimento de massa. Os caminhos eram muito restritos. O golpe dentro do golpe (o AI-5) foi duríssimo”, pondera José Dirceu, que atribui a ação dos estudantes à imposição daquele momento histórico. “Não era escolha, não era opção. O movimento estudantil é, injustamente, responsabilizado pelo endurecimento da ditadura. Na verdade, basta olhar aquele passado, buscar a verdade para perceber que ele viria de qualquer jeito. Pagamos o preço, fomos às últimas conseqüências, reviramos nossas vidas, mas somos vitoriosos.”
A discussão sobre se as estratégias adotadas eram as mais corretas ou se tudo poderia ser feito de outra forma sempre vai existir e até hoje causa dissenso entre quem participou daquele momento histórico. Mas, sem dúvida, o legado de 1968 vai muito além. “Acho curiosa a preocupação com eventuais ações equivocadas. Porque, no fundo, equivocado era apoiar a ditadura, ou não lutar contra ela e ficar em casa esperando o carnaval chegar. Quem luta, acerta e erra; quem não luta, só erra”, aponta Franklin Martins. “Penso sempre com respeito e carinho nos que lutaram quando era tão difícil lutar. Dou muito pouca importância aos seus erros. Até porque os que lutavam, errando ou acertando, pagaram um preço muito alto por não se conformarem com a repressão e a injustiça: prisão, tortura e muitas vezes assassinato. A geração de 1968 poderá ser acusada de muitos erros, mas dela ninguém poderá tirar o maior de seus méritos: ter se entregado de corpo e alma àquilo que ela achava melhor para o Brasil e para o mundo. Foi bom ter vivido aquele tempo, foi fantástico conviver com tanta gente extraordinária.” F
Daniel Aarão Reis
Para uma melhor compreensão
do ano, penso que deveriam também ser analisadas as forças que apostaram na contra-corrente dos movimentos sociais, as forças frias, cinzentas, reacionárias ou simplesmente indiferentes. Elas ganharam a parada em 68. Sem estudar as tradições que estas forças vitoriosas representam, corremos o risco de apenas celebrar os derrotados, o que é sempre estimulante, mas nem sempre ajuda a compreender os fundamentos sociais e históricos das derrotas.
Paulo de Tarso Venceslau
Hoje, muitas análises abstraem a força, a intensidade, a velocidade e a dimensão planetária daquele contexto. Portanto, apesar de falhas e desvios, não há do que se arrepender, desde que se entenda o clima daquele ano. Não há dúvida que a inexperiência, o voluntarismo, os excessos decorrentes da pouca idade marcaram nossa atuação. Mas eram os poucos recursos que dispúnhamos para encontrar coragem para enfrentar o aparato repressivo do Estado controlado pelos militares e políticos golpistas.
Franklin Martins
O movimento estudantil também deixou um legado de mudanças em hábitos, comportamentos, cultura, relações familiares, relações entre casais, sexo, que nos fizeram ser hoje um país menos careta do que éramos no final dos anos 60. E isso é bom. Além de tudo, 1968 ajudou que nos abríssemos para o mundo e para a novidade. Deixou o país mais antenado e menos provinciano, sem que com isso ele deixasse de valorizar o que é seu. E isso também é bom.
José Dirceu
Os movimentos de 68 foram responsáveis por uma verdadeira revolução cultural por meio da música, do feminismo, do amor livre, da arquitetura, literatura e as artes de uma forma geral. Também faço parte da primeira geração que estuda e trabalha fora. Meu maior sonho era entrar na faculdade e, quando consegui, vi aquele cemitério, tudo vazio. Foi o maior choque da minha vida. Essa sensação me fez entrar na militância política. Foi um período de criatividade intensa que trouxe ótimos frutos para as gerações de hoje. Graças aos questionamentos que fizemos lá, hoje vivemos uma liberdade incrível.
Vladimir Palmeira
Como militantes estudantis agimos corretamente, mas como quadros partidários falhamos todos.
A esquerda não tinha preparo para traçar uma estratégia. E se fracionou. As teses, como a de “foco guerrilheiro”, ou movimento de massas, como eu defendia, eram simplistas ou eram vagas. O ano de 1968 despertou no mundo inteiro a crítica para aquele tipo de socialismo russo, que não era a saída. Rompemos com o dogmatismo generalizado. Criou-se uma nova teoria socialista.
Frei Betto
Nosso maior equívoco foi não saber fazer trabalho político junto aos mais pobres. Queríamos fazer revolução pelo povo e para o povo, não com o povo. Era elitista nossa forma de luta. Tínhamos quase tudo: coragem (muitos morreram torturados ou baleados, deram a vida por aqueles ideais); dinheiro (das expropriações bancárias); armas (tomadas de policiais e militares); ideologia. Mas nos faltou o essencial: apoio popular.
Arthur Poerner
No Brasil, a ditadura se viu obrigada a tirar o que lhe restava de máscara democrática, o que contribuiria para o seu inglório final; na França, as mulheres casadas se livraram da até então obrigatória autorização dos maridos para abrir contas bancárias, e as relações entre professores e alunos se tornaram menos autoritárias (já podem até se tratar por “tu”). Pelo mundo afora, México, Alemanha, Tchecoslováquia etc., um alento libertário sacudiu relações anacrônicas de poder e ridicularizou a caretice, reforçando os movimentos ecológicos, feministas, das minorias raciais e sexuais; enfim, fortalecendo a luta mundial pela igualdade e pelos direitos humanos.



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