A água e a vida

O cotidiano de mulheres da África Subsaariana mostra a importância de se investir no acesso à água e ao saneamento básico para garantir um mínimo de dignidade a milhões de pessoas Por Eliza Capai...

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O cotidiano de mulheres da África Subsaariana mostra a importância de se investir no acesso à água e ao saneamento básico para garantir um mínimo de dignidade a milhões de pessoas

Por Eliza Capai

 

Chamava-se Inferno, o local. E estava situado sobre a terra, numa periferia da Cidade de Praia, capital do arquipélago de Cabo Verde. Cercado pelo mar, todo o país sofre com a falta de água potável. E ali caminhavam pelas ruas de barro seco – árido como toda a paisagem – mulheres e meninas munidas de baldes. O mesmo cenário que eu veria mais tarde no Mali e na Etiópia, e que reflete a realidade da África Subsaariana onde, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, vive 40% da população mundial que sofre com a falta de água limpa, aproximadamente 2,6 milhões de pessoas. Uma delas se chama Windia, de 12 anos. Segui a pequena pelas ruas do Inferno.

A garota acorda todos os dias às 6 horas da manhã, arruma a irmã para ir à escola e sai de casa para pegar água. Não contou a que horas fazia suas refeições quando perguntei, mas pela pequena casa de um cômodo, sem banheiro, onde vive com a irmã e a mãe, imaginei que não são muitas vezes e não insisti no assunto. Antes de ir para a escola, sai novamente para buscar mais água. “Mas não é pesado?”, não resisti à pergunta quando a vi com o braço estendido segurando a boca do balde em cima da cabeça, a outra mão segurando o vestido para que não levantasse com o vento. “Estou acostumada”, respondeu com doçura.

Enquanto caminhávamos, cruzamos uma praça, na verdade, um vazio em meio a casas de chão de barro em que mulheres entre 10 e 40 anos com outros tantos baldes se aglomeravam à espera do caminhão-pipa. Nas regiões do continente africano onde não há água encanada, a responsabilidade de abastecer a família recai sobre as mulheres: em 71% das famílias são elas que têm de trazer esse precioso bem para casa, enquanto em 14% dos lares a tarefa cabe aos homens, em 9% as responsáveis são meninas menores de 18 anos e em 5% são os meninos.

Disparidades

Levando-se em conta todas as atividades que envolvem a água, como alimentar-se, cuidar da higiene pessoal, cozinhar, lavar roupa, entre outras, estima-se que o consumo mínimo de água por pessoa seja de 50 litros. Porém, em alguns países usa-se menos de 10 litros de água por pessoa por dia. No Mali, a média é de 8 litros diários, o mesmo que boa parte das pessoas nos países ricos usa somente para escovar os dentes. No nosso lado do mundo gastamos entre 10 e 35 litros para nivelar a descarga, e entre 100 e 200 para tomar banho. Nos Estados Unidos, o campeão em uso de água, gastam-se 500 litros por dia em média, mais de 110 vezes o consumo per capita de Gâmbia.

Ainda no Cabo Verde, em um bairro ao lado de Inferno, Kobon, é a tímida Dílza, de 14 anos, que busca água para a família – um irmão, a mãe e o pai. Mas ela ressalta que nem sempre é bem sucedida em sua busca: “Depende o dia que vou, às vezes tem água, às vezes não”, explica, sussurrando um português com um sotaque que mescla o caboverdiano com a pronúncia brasileira das telenovelas que são sucesso no país. “E quando não tem, como é que faz?”, tento entender. “A gente espera lá no chafariz (locais onde os caminhões-pipa enchem tanques) e, se não chegar água, gasta pouco até chegar”, diz, com naturalidade.

O tempo na África, explica Ryszard Kapuscinsky no livro Ébano, não é algo em si, este outro que nos engole nas Américas e Europa. Aqui, o tempo é algo junto do homem, e as situações acontecem. Assim, por exemplo, não se pergunta a que horas sai o ônibus – o veículo sai quando está cheio, e portanto o tempo é inerente e está atrelado a uma determinada situação, não é um terceiro autoritário a ditar ordens. E quando fazia a pré-entrevista com Dílza e tentava marcar um horário para acompanhá-la no caminho em que iria buscar água, minha urgência e planejamento pareciam absolutamente descolados daquele mundo. Ainda assim, meu tempo ditava que teria somente mais cinco dias na capital e eu servia a ele de cabeça baixa e ombros arqueados à frente. E ali, no olhar calmo e amendoado de Dílza, dois mundos se chocaram. Resolvi marcar o dia e horário: sexta-feira, 11 da manhã, me despeço e volto a me embrenhar nas ruas sem nome e sem asfalto do Kobon.

No dia marcado, retorno à casa e me deparo com o quarto que, assim como da primeira vez, estava impecavelmente arrumado: uma cama de casal bem feita, uma mesa de quatro lugares, uma televisão, um aparelho de DVD, alguns bibelôs. Dílza pega o balde e seguimos em uma caminhada de uns cinco minutos até o chafariz. Casinhas, ruas de pedra, de barro, alguns terrenos baldio com lixo. Chegando ao tanque, os portões estavam fechados e a prática comprovou que de nada adiantava tentar impor o meu tempo ali. “Acabou a água”, disse a menina tranquilamente e voltamos para sua casa e seu quarto.

Ela então me apresenta o restante da casa. No quartinho ao lado, uma bicicleta e uma máquina de lavar. “A gente enche ela com o balde”, explica. “Mas onde é o banheiro?”, continuo. “Não tem”, fala baixinho, virando o rosto. “E como é que faz com as necessidades?”, pergunto quase tão baixo quanto ela. “A gente faz no balde e depois joga no lixo”, me diz com um sorriso envergonhado. Um sexto da população mundial defeca ao ar livre. Em 1990 aproximadamente 33% dos africanos eram obrigados a proceder dessa forma; em 2006, a proporção baixou para 24%. A melhora estatística, entretanto, significa um aumento de 20 milhões de pessoas em conta do crescimento absoluto da população.

Embora 74 milhões de pessoas na África Oriental e Austral tenham garantido acesso a fontes de água potável entre 1990 e 2004, o aumento na cobertura também não foi páreo para o crescimento da população: o número de pessoas sem acesso à água potável aumentou de 129 milhões para 154 milhões.

A falta de qualidade da água junto com a falta de saneamento básico é responsável, em nível global, por cerca de 88% das mortes causadas por doenças diarreicas, ou mais de 1,5 milhão do 1,9 milhão de crianças menores de cinco anos que perecem devido à diarreia anualmente. Num cálculo rápido, enquanto você lia este parágrafo, quatro crianças morreram em função de diarreia por falta de saneamento.

Idas e vindas da água

De volta ao continente, rumei para o Mali. O país está na África Subsaariana, onde um terço das pessoas não têm acesso à água limpa. A doze horas de ônibus da capital Bamaco está Pays Dogon. Ali, casas de adobe [hiperlink: forma rudimentar de alvenaria em que se utiliza a terra para moldar tijolos] com uma arquitetura única surgem entre falésias. Num dia, acompanhei uma mulher de seus 30 anos. Ela,cujo nome não sei, preparava o almoço do marido que trabalhava quebrando pedras. Com uma filha de poucos meses amarrada nas costas, junto com a outra filha de sete anos pilava grãos de cereais com os quais faria uma sopa, a dieta básica de almoço que vi em todas as casas de Dogon que visitei.

Com bacias espalhadas no pátio aberto da casa de adobe, onde o sol atingia seus 40 graus, elas lavavam a panela usando canecas e ao mesmo tempo misturavam a tal sopa. Coisas que em nossas cozinhas com pia e fogão seriam simplíssimas ali demoravam uma eternidade, e à custa de grande esforço físico. Ela então acabou o preparo da comida, colocou a panela na cabeça e desceu numa caminhada de quinze minutos pela falésia. Entregou a panela ao marido, foi até um poço, encheu o balde, pegou uma pedra no chão – que seria seu sabonete – e me pediu sem palavras para não acompanhá-la. Eu que não entendi que ela iria se banhar ainda segui um pouco e então as crianças em poucas palavras de francês e muitos gestos me pediram para parar. Parei. A mulher então voltou banhada, encheu o balde de novo e subiu a falésia com água para sua família.

Ela habita a região do planeta que, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), está mais distante de resolver a questão da universalização do serviço de fornecimento de água e saneamento proposta como uma das Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU, que evitaria 2 milhões de mortes na próxima década. A expectativa é que a África Subsaariana só atingirá a meta do acesso à água em 2040 e a de acesso ao esgoto em 2076. Ou seja, as filhas, netas e bisnetas desta mulher ainda viverão numa região sem as mínimas condições de saneamento básico.

No mundo são 1,197 bilhão de pessoas sem acesso à água potável, e 2,742 bilhões não contam com saneamento básico, segundo dados do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2004. Os investimentos necessários para mudar estes números e atingir as metas estabelecidas nos Objetivos do Milênio são de cerca de US$ 10 bilhões por ano até 2015 – o equivalente a entre cinco e oito dias de despesas bélicas no planeta. A falta de investimentos no setor reflete em grande parte a falta de prioridade política do tema. Atualmente, apenas 0,5% do Produto Interno Bruto mundial é aplicado em água e saneamento.

O relatório do PNUD explica que a Etiópia, por exemplo, o país com o 12º IDH mais baixo do mundo e detentora de um dos piores índices de saneamento básico e uma das mais altas taxas de mortalidade infantil por diarreia, gasta 10 vezes mais em guerra que em saneamento. O relatório salienta ainda que, embora o investimento nas forças armadas vise proteger a população, a falta de água e saneamento representa uma ameaça maior do que os conflitos armados. Se as metas fossem atingidas, o investimento traria um retorno financeiro estimado em US$ 38 bi em decorrência da redução de gastos com a saúde e com o aumento da produtividade. Assim, com dez dias a menos de guerra por ano, 203 mil crianças deixariam de morrer na próxima década de diarreia e doenças causadas por falta de saneamento.



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