A arte que integra

Projeto aproxima periferia paulistana de diversas manifestações artísticas e culturais que transformam a vida da comunidade Por Leonardo Fuhrmann   Francisco Estanislav tinha dez anos quando viu...

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Projeto aproxima periferia paulistana de diversas manifestações artísticas e culturais que transformam a vida da comunidade

Por Leonardo Fuhrmann

 

Francisco Estanislav tinha dez anos quando viu pela janela do apartamento em que mora – na Cidade Tiradentes, extremo leste da capital paulista – a van do Instituto Pombas Urbanas encostar ao lado do galpão que pertence à Cohab e estava abandonado havia uma década. Foi lá verificar o que era e não deixou mais de freqüentar o Centro Cultural Arte em Construção, nome dado ao espaço que o garoto observava. “Costumo falar que moro aqui, pois só vou para casa dormir mesmo”, diz Francisco, que cursa o 1º ano do ensino médio em uma escola da região.
Nascido no Peru e morador da Cidade Tiradentes desde os três anos de idade, Francisco fez, além do curso de teatro, oficinas de canto, circo, grafite, violão e danças africanas. “Você precisa que eu liste todos?”, pergunta. Além dele, sua avó faz um curso de artesanato e outros cinco primos também freqüentam o espaço.
O exemplo de Francisco mostra um pouco do trabalho desenvolvido pelo Pombas Urbanas, cujo centro cultural, só no primeiro semestre deste ano, oferece 17 cursos. Entre eles, o de webdesign e o de encenador, que ensina atores de teatro como administrar e manter a sua própria companhia. No espaço também são apresentados filmes e peças, funcionando ali também um telecentro e uma biblioteca comunitária.
Quem acompanha hoje o sucesso do projeto não imagina como eram as condições iniciais. O centro cultural não tinha piso, portas e telhado, ou seja, não passava de quatro paredes. Sem luz elétrica, as aulas noturnas eram iluminadas pelos faróis da van do Pombas Urbanas, a companhia de teatro que então já havia virado um instituto. Mesmo assim, 800 jovens se inscreveram para participar das aulas de teatro, primeira atividade oferecida pelo centro cultural. Desta turma, apenas dez continuaram, que hoje formam o grupo Filhos da Dita, que deve estrear seu primeiro espetáculo no segundo semestre deste ano.
Em menos de cinco anos, mais do que a recuperação do galpão, o centro cultural ganhou incentivos dos governos municipal e federal, o prêmio Itaú/Unicef do ano passado por seu projeto de leitura e o apoio do Instituto Votorantim. Uma padaria, uma loja de autopeças e uma pizzaria do bairro também estão entre os colaboradores.

Interação com a comunidade
A dona-de-casa Inês Lucas, de 34 anos, conta que graças à biblioteca do centro cultural adquiriu o hábito de ler um livro por mês. Neste semestre, ela vai fazer as oficinas de artes plásticas e artesanato em cerâmica. “Fiz pintura em tecidos no ano passado e a venda de panos de prato já me garante pelo menos o dinheiro da feira semanal”, diz. A filha Letícia, de 14 anos, faz as oficinas de circo e artesanato, e o filho Henrique, de dez, letramento, circo e jogos on-line. “Comecei a freqüentar aqui para trazer as crianças ao cinema”, afirma.
O centro cultural tem um projeto de expansão, atualmente é formado apenas pelo teatro, o telecentro e a biblioteca. Nos padrões dos espaços culturais das regiões mais ricas de uma cidade como São Paulo, pode parecer pouco. Mas os moradores daquele bairro estão a 35 quilômetros do Centro, uma distância que é percorrida em cerca de duas horas por quem depende de transporte coletivo.
A idéia de apresentar as peças em quatro praças do bairro nas tardes de sábado tem como objetivos a divulgação do centro cultural e ajudar a integração dos moradores, tanto que os organizadores explicam que a escolha obedeceu a um critério geográfico, com quatro regiões mais distantes do galpão do Pombas Urbanas, nos 15 quilômetros quadrados do bairro.
A organização das matrículas nos cursos do primeiro semestre deste ano ficou sob a responsabilidade de Nicole Catanhede de Abreu, de 23 anos, que começou a participar das atividades do grupo em setembro de 2004. Ela é estagiária de administração de empresas. Segundo ela, foram 390 matrículas, para dois cursos para crianças, três para a terceira idade e 11 para jovens.
Apesar de ter um material de divulgação específico, Nicole diz que o boca-a-boca é fundamental para que as pessoas procurem o centro cultural. Para ajudar na estratégia e ficarem mais próximos de seu público, os integrantes do Pombas Urbanas decidiram morar na Cidade Tiradentes. Assim, podem discutir arte nas feiras, supermercados, farmácias e lotações do bairro.

A casa do Pombas Urbanas
A periferia já era o hábitat natural do Pombas Urbanas. A companhia teatral surgiu em 1989, depois de uma oficina do diretor peruano Lino Rojas na Casa de Cultura Luiz Gonzaga, em São Miguel Paulista, também no extremo leste da cidade. Adriano Mauriz, então com 13 anos, participou da criação do grupo, dirigido até 2005 por Rojas. O adolescente ficou encantado com a maneira com que o diretor usava a bagagem de cultura popular dos integrantes do grupo. “Todos nós trabalhávamos na época para ajudar em casa, a maioria era office-boy. O Lino nos chamava de ‘jagunços de tênis Nike’, porque éramos do tipo que comprava os tênis de marcas famosas em várias prestações”, recorda-se.
Mauriz conta que o grupo passou a fazer apresentações em espaços do bairro, mas a dificuldade de conseguir um espaço para ensaios levou o Pombas Urbanas a participar da invasão do Tendal da Lapa, na zona Oeste paulistana. “Foi a época em que decidimos viver de teatro. Fazíamos a viagem de São Miguel para Lapa juntos, de trem. Muitas vezes, por falta de grana, entrávamos na estação pelos trilhos para não ter de pagar passagem”, narra.
No final dos anos 90, o grupo passou a atuar como entidade cultural do terceiro setor e a fazer projetos e pesquisas para o poder público. Nesta fase, segundo Mauriz, a companhia passa a alimentar o sonho de ter sua sede na periferia da cidade. “Quando a Cohab falou deste galpão, o Lino ficou maravilhado e nós não entendíamos nada. Nós víamos as ruínas e parece que ele já sabia o que isso podia virar”, opina.
Em fevereiro de 2005, o Pombas Urbanas perdeu seu criador e diretor. Lino Rojas morreu, vítima de um latrocínio. Um dos acusados, que aguarda preso a julgamento, havia sido aluno do diretor. “O triste é que o Lino confiava nele. Mas também sabia dos riscos, sua arte buscava canalizar essa força que pode ser destrutiva para a cultura.”
Nas duas semanas após o crime, o centro cultural permaneceu fechado. Mauriz conta que eles não sabiam se deviam manter o trabalho nem como. “As pessoas da comunidade vinham aqui e diziam que o centro cultural não poderia ficar fechado. Até hoje, eles não fazem idéia de o quanto eles nos carregaram para frente naquele período”, admite. Certamente, sabem. F



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