A Barca – Uma aventura brasileira

Grupo paulista percorre o Brasil registrando e recriando as mais diversas manifestações culturais do país Por Julhinho Bittencourt   O grupo A Barca foi formado em São...

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Grupo paulista percorre o Brasil registrando e recriando as mais diversas manifestações culturais do país

Por Julhinho Bittencourt

 

O grupo A Barca foi formado em São Paulo, em 1998, por amigos músicos entusiasmados e inspirados por Mário de Andrade, suas viagens e a cultura popular brasileira. Hoje, com pouco mais de dez anos, depois de quilômetros percorridos e vários discos, com uma aventura épica brasileira entre poucas precedentes, traz um legado incomensurável de registros das nossas manifestações populares em áudio e vídeo. Trata-se de arquivos coletados ao longo de milhares de quilômetros Brasil adentro, e que nós, habitantes dos grandes centros e reféns da indústria cultural, nem suspeitamos. Há também as versões feitas pelo próprio grupo para várias das obras que coletaram; são inventivas as recriações executadas com maestria por esses músicos.
Quanto mais circulam pelo Brasil, mais percebem o tão pouco que foram capazes de conhecer e documentar. De acordo com o percussionista e produtor musical André Magalhães, o que coletaram é uma ínfima parte do que existe no Brasil. “Apesar de termos registrado um importante acervo, ele está muito distante ainda de representar o todo. Existem muitas rotas culturais em nossos estados, muitas manifestações que ocorrem simultaneamente”. Para ele, quem estiver acompanhando o Batizado do Boi de Maracanã, em São Luís, por exemplo, vai perder outros tantos batizados em vários lugares. “Imagina só no dia seis de janeiro, quantos lindos Reis e Reisados que não caminham pelo Brasil ?”
Acompanhar e registrar as festas populares brasileiras, ou pelo menos alguma parte delas, é uma empreitada cara. Junto com os integrantes do grupo, viajam técnicos, instrumentos e equipamentos. É necessário que haja algum tipo de financiamento. Desde a primeira viagem em 1999 – pelo Maranhão e Pará, que deu no disco O Turista Aprendiz –, muita coisa mudou, de acordo com o pianista e cantor Lincoln Antônio. “Quando começamos, em 1998, havia pouca documentação sobre o assunto e pouca circulação de grupos ou experiências. Mas tudo isso vem se multiplicando desde então.” Para ele, as culturas tradicionais brasileiras tiveram um grande incremento por parte de políticas públicas, através de editais de patrocínio a projetos culturais. Estes projetos acabaram contemplando muitos outros de documentação e circulação, como os que A Barca realizou posteriormente, entre 2004 e 2008. “A Barca amadureceu neste momento de crescida, de renovado interesse”, completou.
Todos os projetos do grupo financiados pela Lei Rouanet captaram recursos através de editais públicos. Tiveram que passar por seleção pública. Mas, mesmo com todos os avanços, ele acredita que ainda há muito o que mudar. “Todas as atividades dos nossos projetos têm entrada franca. Não é admissível captar centenas de milhares de reais de dinheiro público para realizar um espetáculo cuja entrada custa centenas de reais”, desabafa.

Na estrada
Tudo para A Barca começa na estrada. André não escondeu a frustração quando se deparou com o Brasil real. “As populações são completamente abandonadas pelo poder público. Temos vilarejos no meio de lindos alagados que não possuem água na torneira, dentistas ou médicos especialistas. As pessoas não têm recursos para tratamento nas grandes cidades e então assimilam o trauma como um destino de vida.” De acordo com ele, é no meio de tanta desolação, no cruzamento da religião com a força das pessoas que se dá a magia, o ponto exato onde as tradições surgem e são mantidas. “São lugares com pouco ou nenhum recurso público, em regiões onde a maioria da população não tem dinheiro para o sustento, que nos deparamos com a força dos mestres. São pessoas que ensinaram a vida inteira e não recebem nada em troca, a não ser a persistência da própria obra, que é de todos.”
Lincoln acredita que esta força está na integridade entre vida e fazer artístico. “Tocar caixa, dançar caboclinho ou tirar versos é parte intrínseca da vida, da mesma forma que as atividades essenciais do ser humano”, explica. Ele acredita que a música, a arte, o rito recriam e reafirmam o ser dessas pessoas. “Para se ter cultura popular deve-se ter comunidade. Quando a comunidade enfraquece, a cultura pode ser enfraquecida. Fica represada nos mais velhos, que muitas vezes não conseguem reorganizar o grupo e tornar fluente esse saber”, conclui.
Muitas manifestações desaparecem. Outras, no entanto, a partir de uma pequena fagulha renascem. Há vários exemplos disso, citados pelo próprio grupo. No Ceará, Mestra Margarida, uma antiga mestra de Guerreiro, alagoana radicada em Juazeiro do Norte, passa hoje em dia por dificuldades. Seu grupo está desorganizado, mesmo sendo ela uma mestra tradicional reconhecida pelo governo do estado. Na mesma cidade, no entanto, outro reisado se organiza e cria uma cooperativa que realiza ensaios, oficinas de música e dança, aulas de bordado e reforço escolar.
A Barca da Paraíba, uma das danças dramáticas registradas por Mário de Andrade, era considerada extinta. A partir de um convite de um grupo universitário, um antigo mestre passou a reensinar as pessoas. A brincadeira foi reerguida, e hoje voltou a acontecer. No estado de São Paulo, o batuque de umbigada, muito difundido há décadas, estava reduzido a um pequeno grupo de sexagenários de três cidades, e era preciso reuni-los para fazer a brincadeira. Hoje em dia, alguns jovens já tomam parte, e o batuque então começou a se renovar. “Sabemos de mais casos de extinção por relatos, mas, ultimamente, o que mais presenciamos são grupos que se renovam e se organizam”, comemora Lincoln.
Este nascer, viver, morrer e, algumas vezes, renascer é explicado pela contrabaixista Renata Amaral. Para ela, a cultura popular não para nunca. O que a mantém viva é sua incrível mobilidade e capacidade de adaptação. É viva e contemporânea e as pessoas fazem porque querem e não porque são obrigadas a manter a tradição. As manifestações acabam quando deixam de fazer sentido ou ter função, não refletem mais o modo de vida de quem as faz. Mário de Andrade, por exemplo, gravou cantos de carregadores de piano que se acabaram, pois as pessoas deixaram de carregar pianos na cabeça. “Muitos cantos de trabalho ligados à lavoura também deixaram de ser ouvidos, porque vivemos em uma outra estrutura agrícola. É natural que gêneros acabem e outros sejam criados. As músicas não se perderam. Seguramente seus versos e melodias migraram para outras manifestações das comunidades, e essa é outra maravilha da cultura popular: o quanto ela se amalgama e particulariza a partir das características de cada região, grupo, pessoa, época”, conta. Para ela, até TV, internet, religiões evangélicas, mudanças climáticas, políticas públicas e outras interferências afetam, positiva ou negativamente, essas manifestações – mas isso não se configura como um perigo ou afronta à sua produção.

Atenção, gravando!

O trabalho de A Barca, por várias vezes, reergueu e resgatou patrimônios imateriais inestimáveis. Lincoln conta que uma irmandade bicentenária de carimbó de Santarém Novo teve um grande fortalecimento nos últimos dez anos. O processo se deu a partir da realização, através deles, de um CD do grupo, que teve enorme repercussão na cidade. “Hoje, além de encabeçarem o projeto do Iphan de mapeamento do carimbó para registro de patrimônio imaterial, eles duplicaram o barracão e já viajaram Norte, Nordeste e Sudeste, com shows e oficinas.” A revitalização gerou fonte de renda para os músicos e artesãos da cidade. Desde então se ensaia carimbó nas escolas, o que estimula o surgimento de vários grupos mirins. “O mais inusitado é que, apesar das regras rígidas de ter que usar paletó e gravata, saias e blusas longas (naquele calorão equatorial), centenas de jovens lotam os bailes no barracão”, comemora Lincoln.
Para Renata, a importância dos registros que A Barca faz cumpre várias funções: permitem o acesso da informação a quem está longe; revela vínculos e particularidades entre os gêneros; preserva a memória de mestres mais velhos, detentores desse conhecimento e de procedimentos artísticos muito particulares que se vão; permite também uma avaliação crítica da própria comunidade acerca de seu trabalho. “Além disso, os registros ainda cumprem um forte papel mercadológico, pois a gravação de CDs e DVDs dá visibilidade ao trabalho desses grupos, os valoriza diante da comunidade do entorno e dos órgãos públicos, gera renda com a comercialização e é material de divulgação para a venda de apresentações”, conclui.
Quando estabelecem um paralelo entre a missão de Mário de Andrade, em 1938, e a que eles fizeram em 2005, várias diferenças são assinaladas. “Mário anotou a maior parte de seus registros de próprio punho, ouvindo e escrevendo as partituras. Sua expedição viajou mais de seis meses com um caminhão de equipamentos para gravar 26 horas de áudio. Nós, em dois meses, juntamos 300 horas. Além disso, com um estúdio móvel em duas maletas produzimos CDs de altíssima qualidade técnica”, conta Renata.

No palco

Há sempre a hora das apresentações e das oficinas. Para Renata, a resposta é sempre positiva, seja num teatro em Porto Alegre ou numa palhoça da minúscula Pirapemas, no Maranhão. “O som que tocamos está no consciente coletivo. As pessoas mais reconhecem do que conhecem. Por ter influenciado significativamente a formação de gêneros urbanos como o samba, o forró e inúmeros outros, é facilmente assimilado. Essa memória acessa referências nas quais as pessoas reconhecem sua identidade cultural”, revela.
Outro grande prazer do grupo é o de tocar para as comunidades cujo repertório executam, e ver como as pessoas reagem a este novo olhar. Essas trocas, idas e vindas e transformações de mão dupla revelam uma grande preocupação com a democratização cultural. Sempre estão em contato com todo tipo de pessoas, de classes sociais e visões diferentes de mundo. Funcionam, no final das contas, como uma ponte entre os vários brasis.
“Não à toa usamos tanto o nome ‘aprendiz’, e com isso temos conquistado a confiança e a admiração destes grupos. Em vez de analisar ritmos e escalas, queremos justamente entender esse outro jeito de a música ser composta, ensinada, ensaiada e elaborada; entender a função e o significado destas tradições na vida deles e na nossa. Também fomos transformados por estas manifestações ao longo desses dez anos de trabalho. É isso que nos move e nos legitima”, sustenta Renata.
Como explica o próprio Lincoln Antônio, as manifestações acontecem em toda parte, desde os lugares mais remotos até os grandes centros. Em São Paulo, por exemplo, local em que nada é permitido, onde não há batucada que não seja passiva de multa e proibições. Acontecem também no Nordeste brasileiro, onde tudo pode, a qualquer hora e lugar, de dia ou no meio da noite. E, quando se dá, tudo o que somos, toda a sabedoria que carregamos, se traduz e se mostra, acima das leis.
Quando A Barca, em trânsito permanente, registra e reinterpreta o que encontra, desafia a geografia e estabelece um diálogo que vai do cidadão mais simples à universidade. Com isso, ao mesmo tempo em que valoriza o discurso e viabiliza o ofício do artista popular, fornece elementos para a formação do pensamento no país. Um trabalho que, assim como o que documentam, será lembrado por muitos séculos pela frente. F



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