A construção da acessibilidade no FSM 2011

Apesar dos problemas logísticos, as pessoas com deficiência se fizeram presentes em diversos espaços e atividades em Dacar Por Damien Hazard   A acessibilidade sempre foi um...

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Apesar dos problemas logísticos, as pessoas com deficiência se fizeram presentes em diversos espaços e atividades em Dacar

Por Damien Hazard

 

A acessibilidade sempre foi um desafio no processo de construção do Fórum Social Mundial (FSM). No Brasil, já temos exemplos exitosos: no 1º Fórum Social Baiano, em 2004, e no 2º Fórum Social Nordestino, em 2007 – ambos em Salvador –, rampas, intérpretes em Língua Brasileira de Sinais (Libras), programações em Braile, sinalização e informação viabilizaram uma maior presença e participação de pessoas com mobilidade reduzida. Mas as edições mundiais dos Fóruns Sociais sempre deixaram a desejar, apesar de cada uma das cinco edições brasileiras, em Porto Alegre e em Belém, contar com pelo menos um evento sobre os direitos das pessoas com deficiência. De forma geral, as questões desse segmento, que representa 10% da população mundial, sempre foram tratadas de forma isolada, segregada.

Talvez por isso tenha acontecido desta vez, em Dacar, o evento mais inclusivo de todas as edições do Fórum Social Mundial. Não foi exatamente por causa da implementação de acessibilidade física na sede do evento – a Universidade Cheik Anta Diop – que não sofreu nenhuma intervenção adicional nesse sentido. Apesar de contar com uma imensa área plana, com prédios parcialmente acessíveis (dotados de rampas e passeios amplos de circulação), as pessoas com deficiência circulavam e encontravam-se em determinados pontos, mas com bastante dificuldade.

Uma cena foi significativa: uma senhora de idade avançada, negra, sem pernas, avançava sozinha na rua em sua cadeira de rodas. Sua presença era inesperada: ao contrário da maior parte das outras pessoas com deficiência presentes no FSM, não estava acompanhada, nem em grupo, não chegara de táxi, e era visivelmente pobre, sem muita força física e com bastante esforço para puxar suas rodas… Mas parecia decidida, no meio da multidão, indo em direção à UCAD II, uma área de concentração de atividades. Alcançou uma trombadinha alta e larga, que subiu com dificuldade. Na descida, muito inclinada, a cadeira pegou uma leve velocidade e as rodinhas da frente, ao tocar o asfalto da rua, travaram. A senhora foi projetada para frente e caiu de cara no chão! Ali, viu-se um misto de tristeza, dor e raiva.

De forma geral, o espaço da universidade permaneceu inacessível. A falta de sinalização e a troca dos espaços previstos nas salas dos edifícios por tendas precárias instaladas em terrenos acidentados também prejudicaram a participação de pessoas com mobilidade reduzida, dentre as quais as pessoas com deficiência e as idosas, limitando seu acesso a poucas áreas.

Mesmo assim, a edição do FSM em Dacar foi inclusiva porque as pessoas com deficiência se fizeram presentes em diversos espaços e atividades. Quebraram a invisibilidade, envolvendo-se não só no evento como também no processo de construção do Fórum. No final de novembro, organizações senegalesas de e para pessoas com deficiência formaram um comitê, o Handi-FSM (de handicap: deficiência, em francês), que coordenou as ações dos seus membros. Essas pessoas passaram a integrar as diversas comissões do comitê organizador, a debater e orientar para melhorar a acessibilidade do evento. Enquanto isso, uma articulação internacional de organizações de pessoas com deficiência estruturou-se de forma virtual, buscando formas de participação…

Esse envolvimento das pessoas com deficiência foi particularmente expressivo durante a marcha de abertura, no dia 6 de fevereiro, quando tomou uma dimensão popular. O comitê Handi-FSM ocupou as primeiras alas da multidão e soube dar visibilidade às suas reivindicações por meio de faixas e palavras de ordem. Eram muitos de cadeira de rodas, com muletas, pessoas surdas, cegas, com deficiência intelectual, com sequelas de hanseníase, com albinismo…

Nos dias seguintes, mesmo em proporção inferior, as pessoas com deficiência permaneceram presentes e ativas. Duas áreas concentravam esse segmento: de um lado o estande Handi-FSM, bem situado na entrada da UCAD II; do outro, duas tendas onde ocorreram oficinas e seminários autogestionados sobre temas ligados à inclusão e deficiência. É nesse contexto que foi realizado, no dia 9 de fevereiro, um seminário sobre acessibilidade e desenvolvimento inclusivo, com a presença, entre outros, de organizações do Senegal, do Oeste africano, do Brasil, da França e dos Estados Unidos. As conclusões do encontro foram levadas nos dias seguintes para as assembleias de convergência, dentre as quais a assembleia mundial dos habitantes, sobre o direito a comunicação e sobre a cultura.

Nem os movimentos sociais presentes nem os comitês internacional e organizador se mostraram “surdos” ou “cegos” diante dessa luta. A questão da acessibilidade foi debatida com uma verdadeira preocupação e permitiu, por exemplo, que voluntários fossem treinados e que um intérprete em Língua de Sinais fosse colocado ao lado dos diversos oradores, no palco da assembleia global de “convergência das convergências” e de encerramento do evento. De forma geral, as pessoas com deficiência souberam integrar e ocupar as articulações em torno das diversas problemáticas sociais, contribuindo para que sua luta seja incorporada a outras lutas. Honraram o seu lema, hoje reivindicado em todo mundo: “Nada sobre nós sem nós!”

Damien Hazard é coordenador da Associação Vida Brasil, co-diretor-executivo da Associação Brasileira de ONGs (Abong) e membro do Comitê internacional do FSM



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