A crise não chegou a esses bancos

Experiências descentralizadas e comunitárias estão distantes do centro da turbulência econômica mundial e são formas de superar a pobreza. Hoje, no Brasil, chamam a atenção do Banco Central Por Anselmo Massad  ...

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Experiências descentralizadas e comunitárias estão distantes do centro da turbulência econômica mundial e são formas de superar a pobreza. Hoje, no Brasil, chamam a atenção do Banco Central

Por Anselmo Massad

 

Os bancos foram os alvos principais dos pacotes de socorro preparados por governos de diferentes países para fazer frente à crise econômica. Afinal, foi nas instituições financeiras que se desenvolveram formas de negociar créditos sem garantias, produzindo a bolha que repercutiu em toda a economia. Longe desse cenário e com bases muito diferentes, um tipo de iniciativa com capacidade de transformação social vem ganhando espaço no Brasil. São os bancos comunitários, que usam moedas sociais e conseguem manter o dinheiro na comunidade, tornando-se motores do desenvolvimento. E o principal: estão livres da crise financeira.
“Os bancos comunitários e cooperativas de crédito estão imunes porque os depositantes são donos do banco e têm interesse em saber o que acontece com o dinheiro”, analisa Paul Singer, titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes). Para ele, enquanto os bancos convencionais não estão emprestando diante das incertezas do mercado, os comunitários desempenham essa função, porque é crédito mútuo, para empresas locais ou para o vizinho. “Mesmo sem garantia real, o crédito é religiosamente pago, ainda que gente pobre também sofra acidentes, doenças e outros percalços. A diferença é que se pode emprestar mais caso se acredite que, com isso, o credor poderá devolver o valor. Já o banco capitalista tem regras rígidas que o impedem de dar novos créditos.”
Mundialmente, a experiência de microcrédito solidário mais ampla e bem sucedida é a do Grameen Bank, idealizado pelo benegalês Muhamad Yunnus, prêmio Nobel da Paz de 2006 por este trabalho. No Brasil, 33 comunidades localizadas principalmente na região Nordeste já possuem bancos comunitários que operam com uma estratégia diferente, que envolve moedas alternativas, empréstimos voltados à produção e mecanismos para reter o dinheiro na comunidade.
O pioneiro é o Banco Palmas, formado em 1998 no Conjunto Palmeira, bairro da região Sul de Fortaleza (CE). Em um modelo parecido com os clubes de troca criados na década de 90 na Argentina, a associação de moradores começou a promover feiras em que circulava a palma, uma moeda alternativa, restrita a esses encontros. A idéia progrediu e se transformou em uma metodologia que pode ser reaplicada – vencedora do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social de 2005 na categoria Região Nordeste –, o que vem sendo feito com apoio da Senaes.
“A experiência do Banco Palmas favorece as empresas e o comércio localizados na região, pois a moeda só é aceita ali e com desconto”, lembra Paul Singer. “Eles perceberam, em um processo de inteligência coletiva notável, que poderiam usar a moeda social para criar mercado protegido, uma idéia que se faz no mundo inteiro, foi reinventada e bem realizada no Palmeira, porque é feita de modo democrático e com muita confiança mútua”, comemora.

Pilares
Para Joaquim Melo, diretor do Banco Palmas, são três as diferenças que asseguram essas instituições: o controle social, os critérios solidários de concessão de crédito e o consumo consciente. “A experiência tem elementos que podem orientar os sistemas financeiros oficiais, porque bancos centralizados não funcionam, enquanto os pequenos conseguem atingir e oportunizar quem está fora do sistema nas periferias, quilombos etc.”, defende.
Em vez de utilizar os conselhos fiscais e de administração das instituições financeiras convencionais, o controle social nos bancos comunitários é feito em geral por uma associação de moradores ou organização com legitimidade local que encampe a função. Além de fiscalizar o trabalho e os empréstimos efetuados, essa instância ajuda a definir as linhas de ação e fomento. É isso que garante que os critérios de concessão de crédito levem em conta as necessidades da região, a partir da confiança e do conhecimento mútuos na comunidade.
A adoção de uma moeda social busca manter o dinheiro na região em vez de repassá-lo a empresas instaladas em outros lugares. No caso do Conjunto Palmeira, a partir de empréstimos do banco, foram montados empreendimentos de confecção (Palma Fashion), material de limpeza (Palma Limp) e cosméticos (Palma Natus). Na divulgação do produto, o principal argumento é o fato de que, ao consumir localmente, fomenta-se a geração de emprego e renda ali. Nesse sentido, o supermercado do bairro e o trabalho de autônomos também são valorizados.
Há outro detalhe. Toda moeda social precisa ter lastro, ou seja, no caso brasileiro, é necessário haver o equivalente em reais. O crédito concedido em Palmas, porém, apresenta a vantagem de ter taxa de juros mais baixa ou até zero, já que a organização não visa lucro na intermediação financeira, mesmo que esses bancos tenham evoluído para correspondentes bancários do Banco Popular do Brasil, podendo receber pagamentos de contas e repassar recursos.
“A essência do modelo dos bancos comunitários é equilibrar produção e consumo locais”, explica Joaquim. Por isso, a primeira etapa da implantação de cada um dos bancos comunitários é um mapeamento das fontes de renda – aposentadorias, auxílios do Bolsa Família e recursos de trabalhadores do mercado informal – e das demandas por produtos variados. Essa conscientização sobre o consumo é especialmente relevante em casos em que há desvantagens comparativas entre os produtos locais e as marcas de multinacionais, como o detergente da Palma Limp, cuja embalagem não tem um bico dosador.
Na hora do convencimento, a concorrência não é simples. “Os locais onde circulam moedas alternativas estão muito próximos do restante da economia”, pondera Gilmar Carneiro, diretor da Ecosol, central de cooperativas de crédito ligada à CUT. Ele se refere tanto aos estímulos vindos da publicidade nos meios de comunicação quanto à proximidade de padrões de consumo convencionais e das elites, algo acentuado em grandes cidades em que as áreas de concentração de pobreza e de riqueza contrastam.
Na visão do sindicalista, ampliar os correspondentes bancários para que integrem a rede do Banco do Brasil pode representar uma forma de atingir públicos não acessíveis a partir de agências – tanto assim que 30% dos municípios nordestinos não possuem uma delas sequer. Ele considera que isso pode ser positivo para instituições comunitárias e cooperativas e defende formas de se massificar o crédito alternativo, seja por meio de moedas comunitárias, seja por cooperativas e fundos rotativos (consórcios em que um grupo se cotiza para fornecer empréstimos rotativos a seus membros).
Se a questão é expansão, a opção da Senaes para difusão do modelo do Palmas é pela ampliação da diversidade de experiências. A Rede de Bancos Comunitários, formada atualmente por 33 organizações, acredita que seja possível atingir a meta de mil organizações em todo o país até 2010. Se o número soa ambicioso, a análise é que, até 2005, só havia um. Passados três anos, é possível acelerar a reaplicação.

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