A esperança vem da América Latina

Para Susan George, experiências de governos da região são animadoras, mas não se pode incorrer no erro de imitar o modelo de desenvolvimento do Norte Por Renato Rovai  ...

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Para Susan George, experiências de governos da região são animadoras, mas não se pode incorrer no erro de imitar o modelo de desenvolvimento do Norte

Por Renato Rovai

 

Uma das figuras mais destacadas desde a primeira edição do Fórum Social Mundial, a filósofa Susan George, doutora em política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris) e dirigente da ATTAC-França (Associação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos), foi encarregada de abrir o Fórum Social Temático da Bahia e esteve também presente na edição do FSM na Grande Porto Alegre. Em suas falas, advertiu para o perigo que o neoliberalismo ainda representa para o mundo e pregou uma inversão de prioridades na qual o meio ambiente passe a ocupar um lugar central.

Em entrevista concedida à parceria entre a revista Fórum e a organização do seminário Crises e Oportunidades, ela explicou como os neoliberais entenderam Gramsci e o conceito de hegemonia, e investiram pesadamente para impor sua “verdade” ao mundo. Também explica sua tese sobre a disposição do mundo em círculos concêntricos, em que as finanças predominam e ditam as regras, fazendo com que outros valores pareçam menores. Para ela, as experiências de alguns governos da América Latina são promissoras, mas não podem incorrer no erro de imitar o modelo do Norte. Confira abaixo trechos da conversa.

“Eles” e as crises

Certamente, as pessoas que costumo chamar de “eles” em minhas palestras são responsáveis não só por algumas crises como a recente crise financeira, mas também pelo aumento da pobreza e da desigualdade. Tivemos um enorme aumento da desigualdade e isso não apenas em um país, mas em vários, além de uma grande crise de necessidades básicas, de água e de comida, por causa da especulação. Não posso dizer que “eles” sejam completamente responsáveis pela crise ambiental, mas seu modelo de desenvolvimento levou ao desencadeamento dessa crise.

Mas, então, quem são “eles”? São todas as pessoas que inventaram e propagaram o neoliberalismo. Fizeram isso muito conscientemente há mais ou menos 40 anos, no início dos anos 70, ou seja, há um bom tempo… Nos Estados Unidos, àquela época, parte da sociedade decidiu que era hora de dar um basta naquele modelo, com a eclosão de movimentos pelos direitos civis, ligados ao feminismo, de direitos e ativismo homossexuais, e muitos estavam cansados da guerra do Vietnã. Os jovens não acreditavam mais na possibilidade de sucesso do livre mercado, nas universidades, menos da metade dos estudantes com quem você conversava dizia: “Sim, eu quero ser um empreendedor nessa economia, quero entrar nesse mercado, é isso que funciona e é justo”. Toda a estrutura estava ruindo ao redor dos adeptos do livre mercado e eles não conseguiam mudar a situação por meio do uso de força. Mas compreenderam o pensador marxista, o italiano Antonio Gramsci e sua noção de hegemonia cultural, e entenderam que se você quiser controlar uma sociedade, não consegue pela via da força e da violência, precisa entrar em suas mentes, fazendo o senso comum acreditar no que você acredita – você, no caso, o neoliberal.

A propagação das ideias neoliberais
Assim, eles miraram especificamente nas instituições onde as ideias eram produzidas e difundidas: investiram na mídia, nas universidades, nas igrejas, nos locais onde advogados eram formados. Como Gramsci dizia, fizeram uma grande marcha pelas instituições, investiram uma grande quantia de dinheiro (para nós; para eles não era muito), e também enviavam recursos para entidades no exterior. Enquanto isso, a esquerda mal sabia o que estava acontecendo. Quando se depararam com a questão, tentaram resolver os sintomas, se concentrando em resolver os problemas das pessoas hipossuficientes, combatendo o racismo, protegendo mulheres violentadas. Bem, isso estava correto, mas se o contexto em que você está tentando trabalhar está contra você, se o seu projeto é por pessoas pobres num bairro violento, por exemplo, não vai ter sucesso se não conseguir financiamento, porque ele não vai ser sustentado pelo resto da sociedade.

Resumidamente foi isso que eles fizeram: eles fizeram tudo isso por meio de mídia, dinheiro, gestão, persistência e compreensão de que ideias têm consequências. E as consequências para todos nós são: conseguiram impulsionar a privatização no mundo todo, diminuíram tributos que incidiam sobre os ricos e conseguiram fazer do mercado um deus absoluto que podia realizar qualquer coisa, se autorregulava, era algo em que você podia confiar e de onde sempre sairiam as decisões certas. Isso vem como consequência direta da linha de um pensador econômico chamado Friedrich Von Hayek, exilado da Áustria nos anos 30, e que foi para a Universidade de Chicago. Ele formou pessoas como Milton Friedman e toda a Escola de Chicago, os Chicago Boys. Eles tiveram muito sucesso porque se começou a acreditar que era natural deixar o mercado dirigir tudo, privatizar, desregular, e esperar que as pessoas ricas cuidassem de toda a sociedade e não de si mesmas.

A esperança vem do Sul

Os governos progressistas na América Latina são um sinal muito saudável e esperançoso. Nós que estamos fora vemos com muito entusiasmo e acho que a melhor coisa que esses governos podem fazer é continuar a buscar uma unidade, continuar a investir em um esforço unificado pelo comércio, contra a desigualdade entre ricos e pobres, pela reforma agrária, pelo plantio de alimentos o mais perto possível das pessoas que vão consumi-lo, ajudando os pequenos produtores. Se queremos viver por pelo menos mais duas gerações, vamos ter que contar com pequenos produtores rurais, não com o agrobusiness. Na Venezuela, por exemplo, 60% dos alimentos que o país consome vêm do exterior. Isso não é bom. Mesmo tendo muito dinheiro por causa do petróleo, é prudente investir em reservas de alimentos dentro do país. O Brasil também deveria distribuir mais renda entre as pequenas famílias de agricultores e parar de dar tanto lucro para os grandes produtores do agrobusiness, que são em sua maioria transnacionais. Elas vão trazer algo para o Brasil, claro, mas o lucro mesmo vai ser destinado a companhias como Cargill e outras.
Na área industrial deveria se investir numa economia verde, não me canso de ressaltar esse ponto, existe a oportunidade de se criar um tipo de desenvolvimento diferente do que nós tivemos. O que acho trágico é que muitos governantes ainda estão pensando em termos de imitar o Norte, por causa desse mito de que o Norte é rico, teve muito sucesso, e isso não é verdade. Tudo bem, muitas pessoas no Norte são ricas, temos belas cidades, mas e daí? Vocês também. Mas qual é a pobreza e qual o esforço das classes trabalhadoras que estão por trás disso? Não é um tipo de modelo para ser imitado, o Sul não deve planejar seu futuro desenvolvimento industrial a partir dos métodos que usamos, que são sujos, desperdiçam, e vão matar a todos. É simples assim, se continuarmos fazendo as coisas como fazemos, todos vamos morrer. Os chineses estão trabalhando seriamente nisso, não sei se conseguirão a tempo, mas estão pensando carros elétricos, infelizmente não estão readaptando suas construções, elas ainda usam uma quantidade absurda de energia.
O que estou dizendo é que os governos progressistas da América Latina, se começarem a pensar, têm uma tremenda oportunidade de esquecer o Norte, que não é solução para nada. Nossos métodos de agricultura são sofríveis, acabamos com praticamente todos os fazendeiros dos EUA, nosso modelo industrial é baseado no desperdício e produz gases nocivos ao ambiente. Nosso modelo de construção, que vem do século XIX, está completamente ultrapassado. Se o Brasil, a Índia e a China copiarem esse modelo, ficarei aliviada de morrer antes de ver os reais impactos chegarem, porque não vai ser nada bonito.

O mundo em círculos concêntricos
Estamos realmente em uma nova era da História. Deixe-me colocar desse modo: como estamos hoje, se olharmos o mundo disposto em círculos concêntricos, temos as finanças “comandando o show”, os neoliberais querem mais é acúmulo de capital, mais dinheiro, mais investimento no setor financeiro. Hoje, mais de 8% de todos os investimentos vão para o dinheiro, que vai para o dinheiro, para o dinheiro e assim por diante. Ou seja, produzindo um lucro que nunca vai para a economia real, nunca “desce” para a economia real. O segundo círculo é a economia, mas essa é uma economia de desperdício e improdutiva, que não satisfaz as necessidades de todos. Muitas pessoas não participam dessa economia, não produzem o suficiente e não consomem o suficiente. O capitalismo não está interessado nelas. E depois existe a sociedade, o terceiro círculo, que aspira ser capaz de tomar decisões, mas não é, porque é uma vítima das decisões tomadas pela economia e pelas finanças.
Finalmente, no círculo mais central, sem importância, temos o ambiente, que é o lugar de onde tiramos todos os nossos materiais e onde depositamos todo o nosso lixo. Ponto. Agora, como se muda isso? Fazendo exatamente o oposto, juntam-se as diferentes forças sociais para reconhecer que o modo real como o mundo está estruturado tem o ambiente no último círculo. Temos que viver de certa maneira ou podemos destruir o lugar em que vivemos, o que significa nos destruir porque o planeta pode continuar, mas nós não. A sociedade precisa decidir democraticamente o modo como organiza a produção, o consumo, a distribuição, como se desloca de um lugar para outro, educa seus filhos, cuida da saúde das pessoas, e daí por diante. A economia precisa servir aos interesses que a sociedade determinou para que todos tenham o básico: comida, roupas, saúde, medicina, educação. E, finalmente, temos as finanças, que poderiam ser completamente cooperativas.

As chances do planeta

Sinto que revoluções violentas sempre nos levaram a horrores. Mas hoje existe uma revolução real, e eu quero vê-la, mas nós temos que realizá-la rapidamente porque se não fizermos isso o clima vai acertar as contas conosco. Não me parece que as pessoas sentem essa urgência, mas elas vão sentir porque as consequências do aquecimento global virão muito mais rápido do que os cientistas acreditam. Tudo está se acelerando. Bangladesh, olha aquilo, é um pé acima do nível do mar. E se 50 milhões de pessoas ficarem embaixo d’água? Eles não vão se afogar sem sofrimento. Boa parte da África subsaariana não tem mais como cultivar comida por causa da seca. E se nas partes mais úmidas dos trópicos não parar mais de chover? Porque sabemos, pelos registros do IPCC, que haverá mais chuva onde é úmido, e haverá mais seca onde é seco. Essas pessoas serão refugiados climáticos, o suprimento alimentar irá diminuir, as doenças vão se espalhar mais rápido, o nível do mar vai subir etc. Ainda nem começamos a medir as consequências e, se tivermos uma aceleração real dos efeitos, com aumento de quatro ou cinco graus na temperatura, muitas espécies não conseguirão se adaptar.

Mas claro que eu acho que há uma chance, senão estaria em casa, lendo romances. Não sairia para tentar salvar o mundo, que é o que o meu trabalho me parece atualmente. É claro que acho que há chances, mas não sem que façamos com que uma massa de pessoas insista nisso com os governos. E a primeira tarefa hoje é conseguir colocar a ordem dos círculos no eixo: planeta, sociedade, economia real e finanças.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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