A geopolítica da fome

O aumento do poder aquisitivo das populações pobres corresponde a valores tão pequenos que qualquer pico no preço dos alimentos pode gerar crises humanitárias, como a que houve em 2009, quando o número de...

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O aumento do poder aquisitivo das populações pobres corresponde a valores tão pequenos que qualquer pico no preço dos alimentos pode gerar crises humanitárias, como a que houve em 2009, quando o número de pessoas sub-alimentadas registrou forte alta.

Por Miguel do Rosário

No dia 7 de setembro do ano 2000, durante um dos debates realizados na Conferência do Milênio, na sede das Nações Unidas, Nova Iorque, o então presidente do Conselho de Estado da República de Cuba, Fidel Alejandro Castro Ruz, fez o discurso mais contundente daquele dia. O que impressionou o mundo, no entanto, não foi a voz possante, nem a conhecida oratória desenvolta do velho comunista, e sim a informação que ele martelou no ouvido dos milhões que o acompanhavam, via rádio ou TV, em todo o planeta. “820 milhões de pessoas passam fome no mundo, 790 milhões delas vivem no Terceiro Mundo”, disse Fidel

Passaram-se dez anos, e as coisas não mudaram muito. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a quantidade de pessoas consideradas sub-alimentadas no planeta em 2010 era de 925 milhões, o que até poderíamos considerar como notícia positiva, visto que em 2009 (em função da crise financeira que assolou as economias centrais) o número havia atingido a marca de 1,023 bilhão de seres humanos.

O relatório da FAO para 2010 traz, contudo, uma informação genuinamente boa: o percentual de sub-alimentados na população total das regiões em desenvolvimento, que chegava a quase 35% em 1970, atingiu 16% em 2010, depois de uma queda brusca em 2008 e 2009. O número ainda está longe, todavia, da meta de 10% que as Nações Unidas haviam estimado para o período entre 1990 e 2015.

Na edição de maio/junho deste ano, a revista Foreign Policy publicou longo artigo de um de seus mais prestigiados colunistas, Lester Russel Brown. Nascido em 1934, autor e co-autor de mais de 50 livros sobre meio ambiente, fundador de várias organizações e institutos ligados ao tema, Brown foi considerado, pelo Washington Post, um dos maiores pensadores do mundo. Intitulado “A nova geopolítica dos alimentos”, o artigo de Brown tornou-se viral e foi reproduzido em toda parte (o Google registra 374 mil links), incluindo aí as páginas na internet das principais revistas do mundo, como a alemã Der Spiegel.

É um texto assustador. Lança-nos ao rosto verdades duras e dolorosas, mas que teremos de enfrentar de alguma forma. Segundo Brown, o mundo entrou na “era de escassez”. Até poucos anos, falava-se que o mundo produzia muito mais do que consumia, e mesmo assim havia fome. Agora, não se pode mais falar isso. O aumento da população, somado ao crescimento do poder aquisitivo de um número imenso de pessoas, fez a demanda registrar um forte aumento nos últimos anos.

Na verdade, agora está claro – hoje temos acesso a muito mais estatísticas – que nunca houve realmente excesso de comida. O que havia era uma parcela da população alijada do mercado de consumo. Como é natural, os pobres usam o aumento de seu poder aquisitivo para se alimentar melhor, de maneira que mesmo um crescimento ínfimo em sua renda per capita gera um forte aumento na demanda global. A população mundial quase dobrou dos anos 1970 para cá, e até a metade do século deve chegar a 9 bilhões, todos ambicionando comer várias vezes ao dia. Brown alerta para o problema mais grave entre os países pobres: a elevação do preço dos alimentos. O aumento do poder aquisitivo das populações pobres corresponde a valores tão pequenos que qualquer pico no preço dos alimentos gera crises humanitárias, como a que houve em 2009, quando o número de pessoas sub-alimentadas registrou forte alta.

O pessimismo e a indignação de Brown, no entanto, não chegam ao ponto de fazê-lo denunciar com muita energia o que ele mesmo aponta em seu artigo como um problema grave: o uso de milho e soja, nos EUA, para produção de biodiesel. Segundo ele, os EUA colheram em 2010 quase 400 milhões de toneladas de grãos, das quais 126 milhões foram destinadas a destilarias de biocombustível, contra apenas 16 milhões em 2000. Com isso, amarra-se o preço dos grãos às variações da cotação do petróleo nas bolsas, pois, a cada vez que o barril sobe, fica mais lucrativo substituir o fóssil pela chamada “gasolina verde”. O Brasil, outro grande produtor de biocombustíveis, usa a cana-de-açúcar, que tem uma produtividade muito superior à do milho ou soja, além de impactar bem menos no preço mundial dos alimentos.

Fome e instabilidade política

Brown alerta que os reservatórios subterrâneos de água estão se exaurindo em vários países, sobretudo em virtude de processos de irrigação que os sobrecarregam. Esse tipo de irrigação produz uma espécie de “bolha dos alimentos”, que estaria prestes a explodir, assim que os lençóis hídricos utilizados esgotarem-se. Na Arábia Saudita, a irrigação permitiu que este país desértico se tornasse autossuficiente em trigo por mais de vinte anos; agora, porém, a produção local de trigo vem declinando rapidamente, pois foram usados lençóis d’água não-renováveis. Em breve, os sauditas estarão importando a totalidade de seu consumo de grãos. As maiores “bolhas”, segundo ele, estão na Índia e na China. Cerca de 130 milhões de chineses alimentam-se hoje de produtos cultivados com um processo de irrigação que sobrecarrega as reservas subterrâneas de água. Na Índia, há 175 milhões nessa condição, segundo relatórios do Banco Mundial. O que acontecerá quando essas reservas se exaurirem?

O ambientalista estadunidense faz ainda uma descrição sombria dos esforços de alguns países para garantirem o suprimento de comida para seu povo. China e Coreia do Sul, por exemplo, vêm realizando enormes aquisições na África, para cultivar sobretudo soja e milho, os principais itens que compõem a alimentação de seus bois, porcos e frangos. Governos do Sudão e Etiópia têm cedido grandes extensões de terra a estrangeiros, sem atentar para a presença de cidadãos nativos naquelas paragens, os quais são expulsos sumariamente. Brown adverte que processos assim produzem forte instabilidade política, como já aconteceu nas Filipinas, onde o governo foi obrigado a cancelar o acordo feito com a China para ceder 2,5 milhões de acres; no Madagascar, onde o governo alugou 3 milhões de acres para uma firma sul-coreana, a revolta foi tão grande que derrubou os dirigentes do país. Segundo um estudo do Banco Mundial, essas aquisições de terra em países estrangeiros já alcançaram 140 milhões de hectares, uma área que supera o total plantado com trigo e milho nos Estados Unidos.

Citando o aquecimento global, que pode vir a afetar gravemente a produção agrícola no planeta, Brown conclui seu artigo em tom apocalíptico. Haverá caos, fome, revolta, destruição, queda de governos, revoluções. O americano, aliás, diz que as revoluções árabes aconteceram, dentre outras razões, também por causa do aumento no preço dos alimentos.

Para fugir um pouco da visão apocalíptica de Brown, podemos analisar um outro documento da FAO, o Relatório Mundial de Recursos do Solo, que faz um levantamento sobre a área disponível para agricultura e a área já usada, em todo mundo. É preciso observar que boa parte das áreas “disponíveis” para agricultura, no entanto, estão ocupadas por florestas, que não devem ser tocadas, por questões ambientais. Segundo o relatório, as únicas regiões que possuem área agricultável significativa ainda não utilizada são a África sub-saariana e a América do Sul (leia-se Brasil). A primeira tem 1,1 bilhão de hectares agricultáveis, e apenas 14% deles usados. Grande parte dessas áreas é ocupada por biomas importantes e que não podem ser tocados.

Já na América do Sul também temos 1 bilhão de hectares agriculturáveis (só 14% em uso), sendo 549 milhões apenas no Brasil, onde apenas 9% são usados. Um estudo relativamente recente divulgado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) diz que, excluindo-se os biomas Amazônia e Pantanal, o potencial de área para agropecuária no Brasil varia entre 303 milhões e 366 milhões de hectares. Lembremos que o país se consolidou como potência econômica, pelo menos até a 2ª Guerra, por meio da exportação de produtos agrícolas. Na década de 1960, respondia por quase 90% das exportações mundiais de milho e soja, um fator que o governo nunca hesitou em usar para forçar acordos comerciais favoráveis com outras nações.

Hoje, os Estados Unidos têm 354 milhões de hectares agricultáveis, mas 53% já usados. A produção agrícola estadunidense ainda apresenta números colossais. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, o país deve produzir este ano (safra 2011/12) 89,40 milhões de toneladas de soja em grão. Já o Brasil, no mesmo período, produzirá 72,50 milhões de toneladas de soja. Informação importante: no ano passado, a produtividade da soja brasileira superou a norte-americana: 3,01 toneladas por hectare no Brasil contra 2,92 nos EUA. Mencionamos a soja em particular porque dentre as principais commodities é a mais importante para alimentar os rebanhos de bois, porcos, frangos e perus de todo planeta.

O Brasil também é grande produtor de carnes. No segmento dos bovinos, produziremos em 2011 9,4 milhões de toneladas, mais que toda a União Europeia (7,85 milhões), e atrás somente dos EUA (11,5 milhões). Na exportação, o Brasil figura em primeiro lugar no mundo, com previsão de embarcar 1,8 milhão de toneladas de carne bovina em 2011 (a maior parte da produção brasileira é consumida internamente). Em relação à carne de porco, porém, o Brasil está num distante quarto lugar, com 3,26 milhões de toneladas produzidas, na estimativa para 2011, contra 51,5 milhões de toneladas na China, 22,12 milhões na Europa e 10,20 milhões nos EUA. Mas o país é bastante forte em aves, com uma produção de 11,75 milhões de toneladas, superado somente pela China, que deve produzir 13 milhões de toneladas este ano. Na exportação de aves, a liderança brasileira é absoluta: 3,45 milhões de toneladas, contra 3,0 milhões dos EUA e 840 mil toneladas da União Europeia.

O balanço geral, portanto, da oferta e demanda de alimentos no mundo, aponta para um quadro muito delicado, com preços em alta e permanente risco de desabastecimento em países importadores. Com estoques extremamente baixos, qualquer acidente climático poderá provocar picos inflacionários insuportáveis para as populações mais pobres. Nesse contexto, o Brasil tem uma situação realmente privilegiada, embora seja um tanto estranho que possamos lucrar com as dificuldades do resto do mundo em encontrar alimentos. Para o país, não há, porém, alternativas. Mesmo que não precisássemos disso economicamente (mas precisamos, e muito), seria obrigação humanitária nossa ampliar a produção agrícola para trazer maior segurança alimentar ao mundo. Não será pecado nenhum, todavia, se usarmos nossa riqueza para aprimorarmos nossas relações políticas com outros países. Afinal, como dizia Aristófanes, o comediante grego: “a fome não conhece melhor amigo do que aquele que a sacia”.

Miguel do Rosário escreve para o blog Óleo do Diabo.



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