A herança de Chico Mendes

Confira a entrevista com Jorge Viana, ex-governador do Acre (1998-2006) Por Marco Piva   No mês de dezembro, completam-se 20 anos da morte do visionário seringueiro, líder...

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Confira a entrevista com Jorge Viana, ex-governador do Acre (1998-2006)

Por Marco Piva

 

No mês de dezembro, completam-se 20 anos da morte do visionário seringueiro, líder sindical e ambientalista Chico Mendes. Sua trajetória política inspirou em seu estado, o Acre, o surgimento de novas lideranças, como a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o atual governador do Acre, Binho Marques, e os irmãos Jorge e Tião Viana, todos do PT. Junto com os movimentos sociais e os povos da floresta, eles enfrentaram a violência dos grupos que haviam se apoderado do estado e iniciaram a construção de um modo peculiar de fazer política. A herança do líder dos seringueiros é tema desta entrevista concedida pelo ex-governador do Acre (1998-2006), Jorge Viana.

Fórum – Qual foi a última vez que você falou com Chico Mendes?
Jorge Viana –
Eu estive com ele em Rio Branco, três dias antes de seu assassinato. Sua morte estraçalhou nosso coração. Todos nós, que hoje governamos o Acre, ficamos arrasados quando soubemos da notícia. A verdade é que o Brasil não conhecia Chico Mendes. Sua morte explodiu na imprensa brasileira dois dias depois de ter sido divulgada no exterior. Foi o The New York Times e o Le Monde que informaram aos brasileiros que Chico Mendes tinha sido assassinado. Depois disso, foi uma comoção geral.

Fórum – Como foram os últimos dias de Chico Mendes?
Viana –
Dava para sentir que estava um ambiente diferente, com as manchetes dos jornais locais bem carregadas, com informações de ameaças e tudo mais. O Chico tinha chegado do Rio de Janeiro e foi ao meu trabalho na Fundação Tecnológica do Acre (Funtac), pois tínhamos um projeto com o meu chefe, o Gilberto Siqueira. O projeto era financiado pelo Bndes e foi o primeiro que destinou recursos ao movimento dos seringueiros. O dinheiro era pouco, mas deu para comprar o primeiro caminhão do movimento. E aqui vale lembrar que, nessa época, o grande ausente na Amazônia era o capital nacional.

Fórum – Qual foi o último grande ato dele?
Viana –
Por minha insistência, Chico ficou mais um dia esperando o caminhão ser liberado. Ele queria voltar logo para Xapuri e ver a família porque era época de Natal. Estava feliz. Quando chegou lá, encheu a caçamba do caminhão de crianças e desfilou pela cidade, fazendo uma grande festa. Este foi o último ato do Chico. No dia seguinte, à noite, ele foi morto na porta da cozinha de sua casa. Aquilo foi um tiro que atingiu o coração dele, mas não suas idéias. Estas idéias eram tão fortes que não morreram e se multiplicaram.

Fórum – Qual foi a primeira vez que você conversou com Chico Mendes?
Viana –
Conheci Chico no I Congresso dos Povos da Floresta, realizado em Brasília, em meados da década de 80. Eu estudava Engenharia Florestal na Universidade de Brasília, o que era raro na época. Fazia parte do movimento estudantil, mas ainda não era filiado ao PT. Apresentei-me para o Chico e falei que eu tinha muito orgulho por ser do Acre.
Nós estávamos tentando sair daquele esquerdismo muito ortodoxo. E eu já me formei pensando que deveríamos fazer algo pela Amazônia. E o Chico era radical na política, indomável e indisciplinado, queria casar duas coisas: defender a floresta e, conseqüentemente, os trabalhadores. Para mim, esta é a chave que ele conseguiu ver, defender a floresta, o que não combinava nem com o PT e nem com a esquerda da época. O meio ambiente não era discutido no Congresso. Ele podia não ser ouvido no Brasil, mas era fiel a sua idéia e chegou a ser ouvido por muitos congressistas norte-americanos.
O PT nos aproximou dos movimentos. Nós queríamos que os governos aceitassem isso e, no fim, nossas idéias eram tão boas que acabamos indo para os governos. Marina como ministra, Lula na presidência, eu e o Binho como governadores, o Tião [Viana] no Senado.
O Binho foi o primeiro a morar em Xapuri na época. Junto com ele e a Mary Allegretti, o Chico Mendes criou o Projeto Seringueiros, que unia educação e meio ambiente. Acho que foi a educação que fez dele um ambientalista. Ele pensava: “primeiro, os seringueiros precisam ler e escrever para não serem enganados”. O Chico foi alfabetizado por um cara misterioso, que morava na floresta e tinha sido perseguido pelo regime militar e o projeto deles tinha mais escolas que a prefeitura. O Binho se formou em História e resolveu ir para lá dar aula e ajudar o Chico.

Fórum – Como ocorreu o processo para tentar eleger o Chico deputado?
Viana –
Na eleição de 1986, nós queríamos eleger o Chico para deputado estadual. Pensávamos que assim poderíamos mantê-lo vivo, atuante, mas nós fracassamos. Perdemos a eleição por algo próximo de cem votos, não alcançamos o coeficiente eleitoral. Eu e o Binho cobrávamos do Chico para que fosse a Rio Branco fazer campanha porque em Xapuri tinha poucos votos.
Marina nunca tinha sido candidata a nada. Então, tentamos colocá-la como deputada federal constituinte. Acredito que ela sempre esteve um patamar acima do senso comum, muito inteligente. Colocamos o tema do meio ambiente e ela se saiu muito melhor do que estava planejado, foi capa do principal diário da capital no dia da eleição. Obteve 3.600 votos e Chico não teve os mil e poucos votos que precisávamos para elegê-lo.

Fórum – Você acredita que o Chico era desprendido da política?
Viana –
Sim. Teve um almoço uma vez no famoso restaurante Casarão, bem no centro da cidade, um reduto de idealistas, gente de esquerda, artistas, intelectuais. Depois do almoço, fomos à rua para conversar com a população e pedir votos. Um cara chegou e disse: “Chico Mendes”. Vi que o cara era de Xapuri. O homem perguntou para o Chico: “Não diga que agora você vai entrar na política?”. O Chico respondeu: “Você vê! Estão querendo me colocar nesta fria”. Em resumo, ele era totalmente desprendido de política, o negócio dele era outro: o movimento social.

Fórum – O senhor disse que as idéias de Chico Mendes não pegavam, pois havia muita resistência?
Viana –
Isso. Não se dava valor. Parecia que aquelas idéias eram contra o progresso. Não tinham aliados e eram vistas como um atraso. O que era o contrário, pois eram as idéias que deveriam aglutinar e era a coisa mais moderna. Hoje, defender meio ambiente dá voto.

Fórum – Ainda existe hoje no Acre este tipo de pensamento que promoveu o assassinato do Chico Mendes?
Viana –
Não, derrotamos todos. Na época fomos defender o indefensável, a floresta. Hoje, esta idéia muda, quem tem oportunidade, tem que mexer no todo, pois sua parte está no todo. Nós temos esta idéia e Chico também tinha. As idéias precisam ser globais e acho que nesse sentido o Acre tem idéias fortes, enraizadas.

Fórum – Quem são os inimigos hoje, o contraponto desse projeto?
Viana –
Estamos em um momento em que temos que nos preocupar com nossos ideais. Os nossos adversários somos nós mesmos. O Acre está progredindo, estamos em um processo crescente. 20 anos depois, nós vencemos, a ponto de hoje o risco de que alguma coisa possa dar errado é apenas devido às nossas ações.

Fórum – O que vem na sua cabeça quando você pensa hoje na figura do Chico Mendes?
Viana –
Uma vez um jornalista me fez a mesma pergunta e chorei. Foi nos dez anos da morte do Chico. Mas hoje cheguei à conclusão de que aquele assassinato não era preciso. A eliminação física não se justifica nunca. As idéias estão mais vivas do que nunca. Chegamos mais longe, talvez, do que se ele estivesse vivo. E ele deixa muitas saudades.

Fórum – Pelos indicadores dos últimos anos, o Acre cresceu muito dentro de uma perspectiva ambientalista, de respeito à natureza.
Viana –
Meio a meio. Introduzimos muitos avanços, mas é preciso mais. Resolvemos transformar a mudança em processo. Quem do PT resolveu fazer tudo em quatro anos, só ficou quatro anos. O processo de mudanças é de poder. O Judiciário, a Assembléia Legislativa, o Ministério Público, essas instituições vivem mudanças profundas que foram naturalmente acontecendo.
Qual o ponto do enfrentamento? Em São Paulo, tivemos o governo da Luiza Erundina. Exemplo: Paulo Freire, secretário municipal da Educação; Paul Singer, secretário do Planejamento; Marilena Chauí, secretária da Cultura. E por quê não deu certo depois de quatro anos? Será que erraram na dose? Enfim, eles conhecem sobre o assunto que trabalham, mas gestão é outra coisa. Fui um dos poucos que teve curso de gestão. A mudança não é só uma decisão pontual, é necessária continuação para ganhar força. A democracia que nós conquistamos é também contra nós em alguns casos. Marina foi a primeira a ser aceita sem antecedentes em cargos da área política. Foi vereadora, depois senadora, recentemente ministra.
A esquerda brasileira, mesmo nós hoje com Lula, temos que ceder muito. Precisamos fazer um processo de mudanças. Exemplo: o Congresso está em um descompasso muito grande com a agenda do país e do que o povo quer. Ele perde tempo em assuntos que não são do interesse geral da nação.
O Brasil está perdendo uma janela que o mundo abriu. Temos que entrar nela nas áreas do agronegócio, do meio ambiente. Temos que expandir a área de produção, aumentar a produtividade e conservar as florestas. Depois de 20 anos sem Chico, é isso o que o Brasil precisa viver: uma grande revolução.

Fórum – Você acha que os ambientalistas mudaram?
Viana –
Sim. Recentemente estive num congresso em São Paulo onde estavam juntos representantes de entidades ambientalistas, como o Greenpeace, e empreendedores da área do agronegócio. E todo mundo falando de sustentabilidade. Isto é um grande avanço que pode ser até considerado como uma homenagem ao Chico Mendes.

Fórum – Qual é o grande desafio atual do agronegócio?
Viana –
Acredito que o agronegócio ainda não chegou a ser sustentável, mas é um grande desafio. O Brasil consegue isso? Não sei. A vantagem comparativa é que o Brasil tem o agronegócio e produção de alimentos junto com o meio ambiente e a floresta amazônica. Lula tem esta capacidade e precisa fazer que isso avance, atropelando a legislação arcaica.

Fórum – Quais são as próximas metas na Amazônia?
Viana –
É preciso fazer um trabalho forte na floresta, mas que não a destrua. Transformar a floresta em um negócio sustentável e não o contrário. Não acho que a Amazônia vá acabar, mas é necessário um alerta, pois já houve um grande desastre. Na Europa só sobraram 4% de florestas nativas. Eu cito sempre a Finlândia e a Costa Rica como exemplos de países que preservaram as florestas e são referência no mundo porque fizeram a opção pelo meio ambiente.
Não podemos ser o país que mais possui área de floresta do mundo e participar só de 3% dos negócios. Esta vantagem comparativa, eu concordo que deva ser usada. Sou contra alguns ambientalistas e outros radicais, mas acredito que as áreas indígenas na Amazônia vão continuar demarcadas, que as unidades de conservação vão continuar e também que o comando e controle estão sendo eficientes e que o governo Lula conseguiu progressos.
Nós temos que destravar alguns temas. Qualquer casa que você vá tem um pedaço da Amazônia. Você dorme em um quarto com armário de mogno, mas quando alguém vê uma pessoa cortando árvore, acha que está destruindo. Nem sempre aquele corte é destruição. Pode ser feito aquele corte, desde que envolva manejo e certificação. Não são problemas, são soluções. Quem quer fazer as coisas direito, tem dificuldade. Quem quer fazer errado, obviamente despreza. É necessário reverter: dar facilidade para quem quer faz certo. F

Colaborou Flávia Fernandes



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