A inclusão digital e a construção do e-cidadão

Para incluir as pessoas digitalmente, é necessário pensar além do simples acesso ou conhecimento técnico, e entender como são construídas as relações dos incluídos com a rede e com seus pares dentro do ecossistema...

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Para incluir as pessoas digitalmente, é necessário pensar além do simples acesso ou conhecimento técnico, e entender como são construídas as relações dos incluídos com a rede e com seus pares dentro do ecossistema social

Por João Carlos Rebello Caribé

 

A internet há muito deixou de ser apenas uma rede de computadores: ubiquamente ela permeia o tecido social, tornando-se invisível. Vai sendo incorporada ao nosso ecossistema social de modo tão eficiente que, hoje, muitos de nós não saberíamos mais viver sem ela. A dicotomia real versus virtual já não faz mais sentido, ela é apenas um instrumento metafórico que nós, imigrantes digitais, usamos para fazer a ponte com os “analógicos” e para que possamos entender a revolução que vai se desenrolando a passos largos. Para os nativos digitais, essa dicotomia simplesmente não existe, assim como muitos outros dogmas e valores do século XX, que começam a ser questionados no novo choque de gerações.

Este novo ecossistema social deu voz aos excluídos, permitiu conectar ideias e ideais, mudou radicalmente o modelo de comunicação de massa. Democratizou o acesso ao conhecimento e à produção cultural e intelectual, e segue criando novas formas de relacionamentos. A facilidade e a velocidade de se produzir e consumir informação nesse espaço alavancou o conceito da instantaneidade e sublimou o romantismo do “furo jornalístico”, vários grandes fatos recentes noticiados pela mídia mainstream foram antes noticiados pela mídia mystream.

A teia global agora é uma colmeia global, onde a construção coletiva e cognitiva do conhecimento está formando a Inteligência Coletiva, são os prosumers que trabalham em crowdsourcing para isto. Os fatores geo­gráficos e sociais não são mais os únicos a delinear os grupos de interesse, pessoas se agrupam por afinidade ideológica com grande facilidade – e sem necessariamente estarem geograficamente próximas ou serem da mesma classe ou grupo social. Essas inovações também estão mudando as formas de articulação da sociedade e da política.

O mundo real é plural: além dos nativos e imigrantes digitais, temos os excluídos digitais, que justamente por não estarem participando dessa revolução, estão involuntariamente aumentando o gap de sua própria exclusão social.

O Brasil é o quinto país com o maior número de usuários de internet, ficando atrás apenas da China, Estados Unidos, Japão e Índia. Se levarmos em conta a penetração da internet, o Brasil não se posiciona nem entre os 50 primeiros. Chegando a 43% da população, o país fica acima da média da América Latina, que é de 34,8%, e da média mundial, de 28,7%, e acima da média de penetração dos Brics, 22,5%; nesse bloco, o Brasil é o país que melhor se posiciona.

Em relação ao G8, onde a internet chega a 70,2% da população, o Brasil está muito distante. Se levarmos em conta o crescimento de 13% registrado no período entre 2008 e 2009, somente em 2014 teremos a média atual do G8. Manter ou aumentar esta taxa não é tarefa fácil, já que se trata de um país enorme, tanto em tamanho como em diversidade, sendo que a penetração do acesso nos centros urbanos é de 47% enquanto nas áreas rurais é de 21%. Existem ainda grandes diferenças entre as regiões Sul, Sudeste, Norte e Nordeste, e de faixa etária, classe social, dentre outras, assim como nas formas e locais de acesso.

O governo federal tem atualmente 23 programas de inclusão digital, incluindo o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), distribuídos em cinco áreas de atuação específica, que identifico como: Monitoramento, Infraestrutura, Fomento de negócios, Acesso, Educação e capacitação.

Além desses, temos de contabilizar o trabalho de inclusão digital proporcionado pelos centros pagos de acesso público, as lan houses, que concentram 45% dos acessos à internet no País, e com grande penetração justamente nas áreas mais carentes. Organizações como a ABCID, CDI, Cufa, Raio e Sebrae desenvolvem excelentes programas para a inclusão digital e o fomento de negócios pela internet. E, para sermos justos, temos ainda de adicionar na conta os milhares de programas de inclusão digital nas esferas estaduais e municipais, além de milhões de iniciativas voluntárias.

A criação da nova Secretaria de Inclusão Digital Interministerial, envolvendo pelo menos 13 ministérios, é uma sinalização clara de que o governo deseja intensificar a inclusão digital no País. Este é o momento mais propício para avaliar os programas existentes de forma estratégica, mensurar seus resultados e pensar nos principais objetivos da inclusão digital para o futuro da nação. Mas para que a inclusão digital? E com que objetivo?

No Plano Brasil 2022, uma projeção bem interessante desenvolvida pela Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo federal mostra que existem objetivos claros que apontam a necessidade de uma inclusão digital intensa. São eles: a necessidade de aprofundar políticas públicas de redução da desigualdade, redução da assimetria dos estados, maior participação da sociedade nos temas do Executivo e do Legislativo, questões ambientais, e tudo isso baseado em um moderno sistema de comunicações que permita a participação da sociedade no sistema econômico e social.

Segundo Manuel Castells, o desenvolvimento sem internet na era da participação seria o equivalente à industrialização sem eletricidade na era industrial. Ele reforça, ainda, que sem uma economia e gestão baseadas na internet, qualquer país tem pouca chance de gerar os recursos necessários para cobrir suas necessidades de desenvolvimento num terreno sustentável, sob todos os aspectos.

Em pesquisa recente, identifiquei nove objetivos da inclusão digital, que são o acesso à informação e ao conhecimento, produção cultural, produção científica e acadêmica, empreendedorismo, e-gov, educação, negócios, questões ambientais e construção coletiva (construção da inteligência coletiva). Por fim, enquanto a inclusão social tem como meta principal a construção do cidadão, podemos afirmar que a inclusão digital tem como meta principal a construção do e-cidadão.

A construção do e-cidadão

Para atingir os objetivos da inclusão digital, é necessário pensar muito além do simples acesso ou conhecimento técnico – é preciso entender como são construídas as relações dos incluídos (nativos e imigrantes digitais) com a rede e com seus pares no ecossistema social. Em 2008, publiquei em meu blogue a Pirâmide das Necessidades em Mídias Sociais, baseada na Hierarquia das Necessidades de Maslow. Esta pirâmide apresenta as etapas das relações dos usuários com a rede e seus pares, desde o acesso inicial até se tornar uma cibercelebridade. A mesma pirâmide pode ser aplicada perfeitamente às etapas a serem percorridas no processo de inclusão digital e construção do e-cidadão:

Conhecimento tecnológico – O conhecimento técnico mínimo necessário para permitir ao usuário a utilização de um dispositivo computacional.

Conexão, acesso – Esta segunda etapa está nos objetivos de infraestrutura e acesso.
Interação, participação – É o momento em que o usuário começa a interagir em mídias sociais, é o momento das descobertas que, em geral, são feitas com pares próximos – laços fortes.

Estima, reconhecimento – O usuário já transita com facilidade no novo espaço e tornou-se de fato um interagente, um prosumer, que produz e compartilha em busca de estima e reconhecimento.

Autorrealização – O usuário conseguiu produzir relevância com seus pares e, no seu nicho de atuação, é uma cibercelebridade, conquistou respeito e admiração.

A quebra de barreiras geográficas e culturais proporcionada pela internet permite ao indivíduo agrupar-se por interesses e ideologias, cada grupo desse é um cluster. Indivíduos pertencem a tantos clusters quantos forem seus interesses e ideologias, sendo que em cada um ele pode ter um nível de envolvimento e importância diferente. Dessa forma, ele pode estar no topo da pirâmide em um cluster ou no terceiro degrau em outro. Mas qual a proporção atual de usuários em cada um dos degraus?

Em seu livro The Open Brand, Kelly Mooney apresentou o estudo E-citizens, de 2007, que, se conectado com a nossa pirâmide, dividiria o degrau “interação e participação” em dois, que seriam o que ela chama de “competência e coletivismo” e que incluiriam 90% dos usuários de internet. Um dos objetivos da construção do e-cidadão é levá-los para a fase da mudança cultural, na qual consequentemente serão construídas novas e-celebridades. Nessas duas fases ou nos dois últimos degraus da pirâmide, encontramos o que podemos chamar de e-cidadão.

Podemos observar, na construção do e–cidadão, que ele transita de um espaço de colaboração intensa com laços fortes (pessoas com quem nos relacionamos on-line e também off-line) para um espaço de colaboração com laços fracos (pessoas com quem nos relacionamos apenas on-line). Ainda nesse processo, temos claramente a percepção da troca de uma relação de colaboratividade para uma relação de individualismo. Temos também outro elemento a ser percebido, decorrente da inclusão digital, que é a redução do Índice de Distância do Poder (IDP), isso porque a internet facilita o contato entre as pessoas e dispensa intermediários. Assim nos tornamos próximos de políticos, celebridades e empresários. Geert Hofstede desenvolveu o estudo das dimensões culturais da sociedade em mais de 70 países, onde sistematizou cinco dimensões culturais. Em nossa análise, utilizaremos apenas duas delas, o IDP e o Índice de Individualismo (IDV).

Ao cruzar os dados dos índices de Geert com os dados de penetração da internet, percebemos que, nos países com maior penetração, há a redução do IDP e o aumento do IDV. O IDP médio do G8 é de 52 e o IDV de 70, sendo os Estados Unidos o país mais individualista do bloco, com um IDP de 40 e um IDV de 91. A América do Sul possui um IDP médio de 66 e um IDV de 26, e o Brasil possui respectivamente 69 e 38. Estes números nos fazem crer que a construção do e-cidadão leva ao crescimento do individualismo dentro da cultura nacional, o que, segundo Norberto Bobbio, é interessante para o desenvolvimento da democracia, uma vez que o individualismo faz com que as massas não fiquem estagnadas. A questão é que, se o individualismo for a regra, e não a exceção, poderemos perder um ponto forte dentro do nosso ecossistema social.

Clay Shirky, no documentário Us Now, apresenta um novo olhar sobre a sociedade atual. Shirky afirma que o comportamento da sociedade no século XX foi, na verdade, uma anomalia, e hoje estamos vendo uma reversão a um padrão humano natural de solidariedade e colaboração, de coletivismo em detrimento do individualismo. É o que nos aponta a pesquisa Sonho Brasileiro, segundo a qual mais da metade dos jovens pensam e agem em coletivismo, e mais de 70% deles consideram a internet como ferramenta para fazer política.

A emergência do quinto poder

Promovendo uma adequada inclusão digital, com fomento de oportunidades e letramento digital, no espaço da cidadania, estaremos reforçando o novo elemento da matriz de força que constitui os poderes da democracia. Não podemos mais nos restringir apenas aos três poderes do Estado e às corporações como o quarto poder. Hoje, temos claramente a construção de um quinto poder, que é a sociedade organizada e conectada (e-cidadania), ou seja, os e-cidadãos. Estamos vendo a Global Revolution, Marcha da Liberdade e outros movimentos, e-cidadãos estão articulando e agindo politicamente como nunca na história da humanidade, estão clamando por um mundo melhor para todos, estão construindo o quinto poder, equilibrando a matriz de poderes para o aprimoramento do estado democrático no século XXI.

João Carlos Rebello Caribé é publicitário, consultor de inovação e ciberativista e escreve no blogue Entropia http://entropia.blog.br. Este texto é uma adaptação do artigo publicado no e-book Para entender as mídias sociais, disponível em http://va.mu/ECJ.



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