A periferia e sua Primavera de Praga

As periferias do Brasil são hoje marcadamente diferentes do que eram há dez anos e, em muitos sentidos, para melhor. Por Pedro Alexandre Sanches “O brasileiro...

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As periferias do Brasil são hoje marcadamente diferentes do que eram há dez anos e, em muitos sentidos, para melhor.

Por Pedro Alexandre Sanches

“O brasileiro não confia muito no Brasil, não confia na melhora, não confia no vizinho. Não há sentimento de união”, afirmava Mano Brown na Fórum número 1, dez anos atrás. “Qual das violências? A do revólver? Há vários lados a analisar. Um, é o do desemprego. A tendência é só piorar”, perguntava e respondia, noutro trecho, o líder dos Racionais MC’s e de todo o rap brasileiro.

Não é possível dizer que Brown estava errado em seus conceitos, até porque, sabendo disto ou não, ele era um dos homens que trabalhavam, em 2001 e desde muito tempo antes, para modificar a realidade que suas palavras expunham e denunciavam. Ainda que o desemprego tenha diminuído de lá para cá, tampouco é possível dizer que vivamos num mar de rosas no Brasil de 2011. Mas que as previsões do rapper estavam erradas até certo ponto, ah, elas estavam.

As periferias do Brasil são hoje marcadamente diferentes do que eram naquele tempo e, em muitos sentidos, para melhor. E há inúmeros depoimentos a corroborar essa evidência. “Vou fazer um filme agora, O Jeito Favela de Ser Feliz. É sobre como a favela é feliz no seu cotidiano”, conta Preto Zezé, um ex-lavador de carros, que hoje é presidente nacional da Cufa, a Central Única das Favelas. Cearense de Fortaleza, ele mora na cidade natal, e isso por si só é um sinal de mudança: a Cufa não acredita que seu presidente precise residir numa das capitais antes fatídicas do Brasil, Rio de Janeiro ou São Paulo.

Zezé desenvolve sua tese: “A felicidade aumentou muito na favela, Ave Maria! Eu estava conversando com um amigão do Psol aqui de Fortaleza, que foi candidato a prefeito. Ele dizia: ‘As pessoas estão mais tristes, deprimidas’. Eu falei: ‘Só se for no seu condomínio, cara!’.” Zezé, que também é rapper e prepara estreias como cineasta e escritor, é uma das várias personalidades egressas das periferias que apontam a importância crucial do hip-hop – logo, do trabalho de Mano Brown e correlatos – como marco de partida para essa mudança de sintonia.

Outro é o poeta Sérgio Vaz, que há dez anos ajuda a modificar o estado de espírito de comunidades como a Chácara Santana, na zona sul paulistana, com os saraus da Cooperifa, que também há exatos dez anos fazem circular poesia produzida para e pelos cidadãos periféricos de São Paulo. “No começo, eu escrevia poesia de protesto. Com a abertura política, os caras falaram que esse negócio de escrever poesia falando do governo estava fora de moda. Falei: ‘Porra, me fodi, porque só sei escrever sobre isso’”, ele lembra. “E aí veio o hip-hop. Pô, então, as coisas não melhoraram tanto quanto o jornal e a novela dizem. Eu, que pensava em escrever como Chico Buarque, pensei: ‘Pô, minha turma não é o Chico Buarque. Eu estava vendo a banda passar quando o fim de semana no Parque Santo Antônio me pegou à toa na vida’.”

A referência aqui é ao rap “Fim de semana no parque”, lançado em 1993 pelos Racionais. “A gente nunca imaginou que o nosso bairro ia estar numa música”, Sérgio evoca, rindo. “A gente está acostumado a ouvir falar de Ipanema, Leblon, ‘dia de luz, festa de sol, e o barquinho a deslizar no macio azul do mar’, que é a realidade da classe média. De repente, você ouve alguém falando do seu bairro. O RZO fala de Pirituba, vem o Sabotage e fala do Brooklin. Peraí, a gente mora aqui. E aí começou todo mundo a falar dos seus bairros, e começou a dar um ar de pertencimento. Quem tem que sentir vergonha da favela é o governo, não é?”

Se em setores do chamado “centro” o hip-hop era e é visto com reservas e desdém, Sérgio dá a exata dimensão de como as letras e batidas do rap caíam nos ouvidos das comunidades, que passaram a produzi-las: “Muitos caras foram ouvir falar de Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Malcolm X ou Steve Biko pela primeira vez através de uma música de rap, não na escola. A partir daí, a bússola se inverteu um pouco, um lugar que tinha tudo pra dar errado começa a dar certo… Hoje, há moleques frequentando a universidade, fazendo cursos de cinema, fotografia, noites do sarau da Cooperifa com 300 pessoas pra ouvir e falar poesia. E tudo isso aconteceu por causa do desprezo da classe dominante, que nem sabe o que a gente está fazendo.”

O rap é vetor notável desse fenômeno, mas não é o único. Na década que passou, esse modelo de orgulho e autonomia proliferou por diversas periferias do Brasil. A paraense Gaby Amarantos, cantora e compositora de tecnobrega, fala em alto e bom som de sua origem indígena, paraense e, mais especificamente, de filha de Jurunas, bairro pobre de Belém. Em diversos estados do Nordeste, pedreiros, motoristas, empregadas domésticas e zeladores de edifícios de classes média ou alta abandonam seus empregos para cantar e/ou trabalhar na movimentada indústria do novo forró. No Rio, funkeiras inventam um feminismo de características próprias e originais, e a Cidade de Deus vira sede disseminadora de literatura, funk carioca, cinema, hip-hop e ativismo social – pelo rap e pela militância na Cufa, MV Bill vira herói de sua comunidade, invertendo paradigmas negativos seculares.

“Quando eu morava na Piraporinha, nos anos 1970, a gente tinha que mentir que morava no Socorro ou em Santo Amaro pra conseguir emprego. Na TV, era época do Gil Gomes, esses caras que a cada semana pegavam um bairro pra satanizar, e esse bairro ficava judiado”, lembra Sérgio. “Hoje tem Datena, eles continuam lá, só que o alcance que têm é muito menor. Hoje, a juventude não para pra assistir Datena. O vício da TV é uma coisa dos mais velhos. A geração nova, da internet, sabe que tem coisa muito mais interessante acontecendo no YouTube.”

O orgulho do artista-cidadão

Outro caso exemplar é o de Heliópolis, na zona sul paulistana, hoje mais citada na mídia por conta de sua orquestra sinfônica que por relatos de violência nas páginas policiais. Numa noite em que o bairro é visitado pelo repórter, há oito festas ocorrendo simultaneamente, todas elas gratuitas, incluindo festas de funk e forró ao ar livre, show do sambista Almir Guineto e a Balada Black, assim definida por seu organizador e DJ, Reginaldo Gonçalves: “Cerca de 800 jovens participam e seguem à risca algumas regras, como não consumir qualquer tipo de bebida alcoólica ou drogas. A balada é produzida e fiscalizada pelos próprios jovens, que, além de mostrar que têm como se divertir de cara limpa, promovem a valorização da comunidade e o respeito às diversas tribos, através dos diferentes estilos musicais que tocamos.”

Patrocinado mais ou menos invisivelmente pela cervejaria Ambev, o projeto desincentivador do consumo de álcool antes dos 18 anos se chama Jovens Alconscientes. É uma iniciativa da Unas, Associação de Moradores de Heliópolis, da qual Reginaldo é diretor. Ele também dirige a Rádio Comunitária Heliópolis, experiência bem-sucedida (e, de início, bastante perseguida pelos poderes oficiais) de mídia alternativa e cidadã, uma das muitas que têm ajudado habitantes das periferias a prescindir de informações tendenciosas oferecidas pela “grande” mídia – os locutores, moradores da comunidade, são estudantes universitários. O sistema todo foi alçado à condição de Ponto de Cultura, na gestão anterior do Ministério da Cultura.
As cotas nas universidades, por sinal, são outro elemento notável de transformação – mais uma vez, sob fortes resistências da sociedade dita de “centro”. “O cara da periferia faz uma faculdade inferior, e mesmo assim o outro cara está com raiva dele”, ironiza Sérgio. “É aquele que come três refeições e está incomodado com quem come uma. Agora os caras estão comendo! Se soubessem que o cara que come uma refeição não tem tanta vontade de morder o que come três… ‘Reacionário’ é mesmo a palavra, eu não consigo entender o ódio que o cara tem de alguém que faz uma coisa diferente da dele.”

Reginaldo avalia, de dentro, as mudanças em sua comunidade: “Vejo que Heliópolis avançou muito nesses dez anos. Na minha infância e adolescência, não tínhamos praticamente nenhuma opção de lazer ou cursos de formação ou de profissionalização. As nossas referências infelizmente vinham das ruas. Não tínhamos referências positivas. Os jovens de hoje têm muitas opções, o acesso à informação é fácil e temos vários exemplos de pessoas que moram em nossa comunidade e hoje são referências positivas para nossa juventude.”

A profusão de lan-houses, democratizando até certo ponto o cyber-espaço nas comunidades é citada indiretamente na ponderação de Reginaldo: “Hoje temos mais acesso à informação, por meio da internet e de outras mídias. Mas infelizmente, por outro lado, em alguns pontos ainda não tivemos muitos avanços, como a questão da educação de qualidade.”

Sérgio também faz o balanço entre o que melhorou e o que não: “Algumas coisas mudaram, algumas continuam as mesmas. Às vezes, muda-se alguma coisa pra não se mudar coisa alguma. A educação ainda é falha, não por culpa dos professores, mas porque a escola está a mil e os alunos estão a milhão. O sistema de saúde ainda é muito falho, a segurança é muito falha. O que mudou pras pessoas é a condição financeira, que melhorou um pouco, é inegável.”
Mais uma vez, o poeta da Cooperifa traça um paralelo entre épocas distintas: “Nos anos 1980, pra ir até o Bexiga assistir um cineclube ou dar um rolê, a gente atravessava a cidade. Pra voltar, tinha que esperar o primeiro ônibus passar às 5, 6 horas da manhã. Hoje, um jovem aqui da nossa quebrada não precisa ir pra lugar algum pra ir ao cinema. Nós temos Cinema na Laje, Cine Becos, Cine Escadão, Cine Viela, Cine Palmarino. Se ele quiser ouvir e falar poesia, tem 50 saraus espalhados por aí. Tem grupos de teatro se apresentando em espaços como praças, escolas. Estamos vivendo a nossa Primavera de Praga, a nossa bossa nova, a nossa tropicália. E o que está sendo bacana é que é a nossa primeira vez, e a primeira vez cê tá ligado como funciona, né?”

Como funciona, Sérgio? “É muito mais forte. A gente nunca teve uma literatura que nos representasse, uma música que nos representasse além do samba. No máximo o cara ia pro centro e voltava famoso pra quebrada. Hoje, não, o cara quer ser reconhecido na quebrada dele, é um artista-cidadão.” Chame-se bossa negra (como chamava Elza Soares, 50 anos atrás), pretropicália, Cooperifa ou o que for o fenômeno, ele bate às nossas portas em 2011 – e a cegueira da “grande” mídia em percebê-lo é mais um sinal a legitimar a primavera.

De volta ao começo, talvez as formulações de Mano Brown dez anos atrás fossem algo descrentes num futuro para os seus. Dez anos depois, o artista-cidadão Mano Brown continua em sua quebrada, mantém-se dentro de seus princípios. E assiste ao seu redor às transformações que suas palavras, mesmo eventualmente pessimistas, ajudaram bravamente a construir.

Esta matéria faz parte da revista Fórum 102.



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