A psiquiatria em crise na China

Em cinco anos, os episódios de distúrbios mentais aumentaram mais de 50% no país, mas, em 2005, havia apenas um terapeuta para cada dez mil chineses. Por Mitch Moxley  ...

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Em cinco anos, os episódios de distúrbios mentais aumentaram mais de 50% no país, mas, em 2005, havia apenas um terapeuta para cada dez mil chineses.

Por Mitch Moxley

 

Cada vez mais pessoas se mostram dispostas a consultar um psiquiatra na China, mas o alto custo e a precária formação dos profissionais dificultam o tratamento. Isso ocorre apesar de o país estar à beira de uma crise de saúde mental, na medida em que a população enfrenta uma grande agitação social e fantasmas do passado. O setor sofre uma carência crônica de recursos econômicos e muitos terapeutas não contam com uma formação adequada, o que deixa os que precisam de tratamento com opções limitadas.

Embora as estatísticas oficiais indiquem que 7% dos chineses sofrem de alguma desordem mental, outros estudos apontam para uma tendência muito mais prevalente. Segundo a revista médica britânica The Lancet, um em cada cinco adultos na China sofre de um distúrbio mental. A pesquisa concluiu que apenas um, em cada 12 chineses que necessitam de ajuda psiquiátrica, consulta alguma vez um profissional.

Um estudo do Ministério da Saúde mostra que, entre 2003 e 2008, os episódios de desordens mentais aumentaram mais de 50%, e os médicos afirmam que a depressão e a ansiedade estão aumentando. Durante boa parte da história chinesa, o tratamento das doenças mentais ficou em mãos de quem exercia a medicina tradicional. Na época da Revolução Comunista, a China tinha apenas 60 psiquiatras para 500 milhões de pessoas.

Apesar do trauma causado pelo Grande Salto Adiante e pela Revolução Cultural, a ideia de que uma pessoa falasse sobre seus problemas ficou estigmatizada muito depois de Mao Tsé-Tung (1893-1976). Muitos chineses nunca abordaram adequadamente esses traumas, e, embora o auge econômico do país tenha melhorado a vida de milhões de pessoas, também deu lugar a realidades novas e complexas, cujas pressões se tornam cada vez mais evidentes.

O suicídio é a principal causa de morte entre os jovens e os trabalhadores migrantes. No ano passado, uma série de suicídios com grande repercussão aconteceu no Foxconn Technology Group, que fabrica produtos para a Apple Computers. No verão passado, homens de meia idade cometeram uma série de ataques mortais contra crianças. A pressão sobre os homens solteiros – exacerbada por uma brecha de gênero cada vez maior – foi identificada como uma das principais causas.

Mas o país sofre uma grave escassez de institutos de controle e prevenção, bem como de terapeutas, disse Fan Li, vice-presidente do Hospital Geral do Exército Chinês de Libertação Popular, em entrevista à agência de notícias da China. Segundo Fan, a proporção de crianças pequenas que sofrem problemas mentais chegou a estar entre 15% e 20%, muito mais do que no plano internacional.

Fan observou que, em 2005, havia apenas 572 institutos dedicados à saúde mental, com 16.383 terapeutas – cerca de um para cada dez mil pessoas –, bem longe do objetivo do governo de um terapeuta para cada mil pessoas. Apesar da falta de opções de tratamento, a ideia de fazer terapia se tornou muito mais dominante. A televisão chinesa transmite regularmente programas nos quais diferentes convidados falam de seus problemas com um especialista.

Zhong Jie, professor-adjunto de Psicologia na Universidade de Pequim, pratica psicoterapia com cinco a sete pacientes por semana em seu consultório do norte da capital. “Eles vêm me visitar para que eu os ajude com seus problemas de ansiedade, depressão, saúde, relacionamentos”, disse Zhong à IPS.

“Os chineses estudam um novo sistema para tratar a saúde mental. Não sei qual resultado terá, mas esta é uma oportunidade para que nossa sociedade e nosso governo ajudem a população chinesa e organizem um sistema de saúde mental novo e moderno”, acrescentou. O governo se comprometeu a investir mais em saúde mental, destinando milhões de dólares a novos hospitais psiquiátricos. Entre 2003 e 2008, o país somou 50 mil leitos nesses centros.

Chen Xi, terapeuta certificado e membro da Sociedade de Psicologia Chinesa e da Associação de Saúde Mental da China, disse que o governo reconhece o aumento dos problemas mentais e os está abordando, criando um serviço telefônico para atender potenciais suicidas, exigindo que os hospitais tenham departamentos psiquiátricos e criando programas de orientação psicológica nas escolas. No entanto, o país nunca adotou uma lei nacional sobre saúde mental, e poucas pessoas contam com um seguro que cubra esse tratamento.

Apesar dos compromissos para melhorar essa situação, um funcionário do Ministério da Saúde disse que, no ano passado, apenas 45 mil pessoas possuíam cobertura para tratamentos externos e apenas sete mil para hospitalizações. Também faltam camas para os pacientes que devem ser internados, os profissionais credenciados são pouquíssimos e praticamente não existe essa atenção médica em áreas rurais.

Como há tão poucas opções de tratamento, frequentemente os hospitais psiquiátricos cobram valores exorbitantes. Segundo um informe publicado em 2010 no Shenzhen Special Daily, os preços chegam a US$ 46 a hora com um terapeuta registrado. E quem pode pagar esta quantia costuma ter expectativas pouco realistas em relação ao tratamento. Alguns profissionais foram vítimas de abusos verbais e físicos por parte de pacientes que não obtiveram os resultados que esperavam.

Chen disse que o governo precisa criar melhores instituições, melhorar a capacitação dos profissionais e baixar o preço dos tratamentos. Para ele, embora haja mais chineses dispostos a falar de seus problemas, o alto custo e a precária formação dos terapeutas desestimulam muitas pessoas. “Muitos terapeutas não podem aconselhar seus pacientes simplesmente por não saberem como fazê-lo”, disse Chen.



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