A revolução na encruzilhada do mundo

O Egito, país mais populoso e avançado em termos de tecnologia do norte da África, respondeu da única forma que a ditadura lhe permitia: o florescimento de uma blogosfera política militante, um fator fundamental para explicar a força dos protestos recentes.

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O Egito, país mais populoso e avançado em termos de tecnologia do norte da África, respondeu da única forma que a ditadura lhe permitia: o florescimento de uma blogosfera política militante, um fator fundamental para explicar a força dos protestos recentes.

Por Miguel do Rosário, de Paris

“Quis o destino que estivéssemos na encruzilhada do mundo”, escreveu Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito de 1954 a 1970, num opúsculo publicado em 1955, intitulado Filosofia da Revolução. De fato, o Egito é um ponto de ligação entre o mundo árabe, a África, a Ásia, a Europa; e, embora distante geograficamente, pode-se considerá-lo também – por seu cosmopolitismo e sistema político republicano e secular – um elo importante entre os EUA e os regimes islâmicos, que controlam as maiores jazidas de petróleo do planeta.

Eis que o Egito, responsável pela invenção da escrita ocidental, volta aos livros de História. Marquem essa data: no dia 11 de fevereiro de 2011, após dezoito dias de protestos populares, Hosni Mubarak, à frente de mal disfarçada ditadura, renunciou, ou antes, foi apeado do poder por uma junta militar, por sua vez apoiada por milhões de egípcios que se insurgiram contra o governo e não aceitaram outra saída que não incluísse a demissão do presidente, a dissolução dos dois parlamentos e a revisão de capítulos constitucionais que, segundo os manifestantes, bloqueavam a democracia.

O entusiasmo visto na praça Tahrir, epicentro da revolução, é algo que estávamos acostumados a ver apenas em finais de Copas do Mundo. Desta vez, claro, é um entusiasmo muito mais nobre e duradouro. Vários analistas interpretaram os acontecimentos como um desses fatos que mudam a história do mundo. Todos os que têm acompanhado de perto as reviravoltas do Oriente Médio e norte da África nos últimos cinquenta anos sentiram, nos gritos de liberdade dos jovens (e velhos) egípcios, que havia ali algo bem maior do que um protesto corriqueiro contra um regime autoritário.

Naturalmente, como é o exército que conduzirá o processo de transição, tendo havido uma espécie de golpe de Estado, parte da opinião pública internacional (e particularmente a brasileira) encarou os acontecimentos com desconfiança. Alguns brandiram teorias sobre participação dos serviços de inteligência dos EUA no processo que derrubou o ditador e entregou o controle da situação ao Supremo Tribunal Militar. Teses assim germinam facilmente, quase sempre com um fundo de verdade, naquela região do mundo. Entretanto, dada a importância estratégica do Egito no tabuleiro geopolítico, os EUA ligar-se-iam de qualquer maneira tanto às peças brancas como às pretas. É tradição da CIA apostar nos dois lados. Apoiaram Mubarak até onde podiam; depois passaram a pedir sua cabeça; chancelaram a transferência de poder para seu vice, o “doutor tortura” Mubarak Omar Suleiman; por fim, é possível que tenham igualmente apoiado a junta militar que assumiu as rédeas da nação.

Para os ianques, perplexos ao ver as peças de seu tabuleiro se mexendo sozinhas, qualquer coisa é melhor do que o caos, que significaria o risco de assunção ao poder da Fraternidade Muçulmana, a força política mais bem organizada da oposição anti-Mubarak. Não devemos, porém, atribuir aos EUA um poder maior do que eles efetivamente possuem. Nem ser ingênuos: revoluções nunca o são. Simon Bolívar teve apoio do império inglês para libertar a América Hispânica, mas isso não o transformou num pupilo da Inglaterra. Da mesma forma, se a junta militar que assumiu o poder recebeu a chancela ou não da Casa Branca, isso não a converte, necessariamente, num pião do Pentágono. Muito pelo contrário. O Egito, agora mais que nunca, esconde cartas sob a manga.

Até porque não se trata de um evento exclusivamente político. Tantos tabus foram rompidos que a intelectualidade europeia encarou a situação com perplexidade e mesmo uma ponta de inveja. Há muito tempo não se via, em nenhuma parte do mundo, cenas tão chocantes de… fraternité, igualité e liberté.

A ditadura, desesperada, esvaziou seu cartucho de sujeiras. Tirou a polícia das ruas, prevendo que dali adviriam caos, terror e refluxo dos protestos. Ocorreu o contrário: os próprios cidadãos organizaram rondas e garantiram a segurança na capital. Os vândalos tentaram invadir o museu do Cairo: os cidadãos fizeram um cordão de isolamento ao redor do museu e, para grande emoção de historiadores e arqueólogos do mundo inteiro, protegeram-no. Os policiais machucaram as pessoas, e os feridos que chegavam aos hospitais eram presos: os cidadãos armaram clínicas de pronto-socorro na praça, e os médicos e estudantes de medicina cuidaram das pessoas.

A força das ruas. E da internet

Conhecida mundialmente pela sujeira interminável espalhada por suas ruas, a cidade do Cairo assistiu a uma novidade surpreendente: os cidadãos organizaram um impecável sistema de limpeza na praça. O repórter do Le Monde, ao ver um cidadão varrendo a calçada, perguntou-lhe por que fazia aquilo: ele respondeu que não sabia, apenas achava que era o certo a fazer. A terrível polícia política de Mubarak infiltrou espiões e arruaceiros na praça: os cidadãos os prendiam, faziam interrogatórios e os expulsavam do local.

O Cairo é famoso pelo desrespeito às mulheres. Turistas ocidentais que desavisadamente usam saias ou andam de ombros descobertos são perseguidas pelas ruas por multidões de homens agressivos e lúbricos. Na praça Tahrir, chegavam mulheres sem seus maridos, de cabelos ao vento, e não eram incomodadas.

A capital do Egito se notabiliza pelo abismo social, com pouquíssimos quarteirões ricos ilhados em meio a uma gigantesca miséria. Na praça Tahrir, a comida, a água e a diversão eram gratuitas. Os egípcios mostraram o poder infinito da solidariedade e deram uma lição a si mesmos, a todos os árabes e ao mundo inteiro.

De onde tiraram tanta força, sabedoria, coragem? Em política, nada cai do céu. No livro de Nasser mencionado no início do artigo, ele observa que os cientistas poderão sempre encontrar explicações e antecedentes para qualquer acontecimento político, por mais incrível que seja. Não é de hoje que os egípcios protestam contra as arbitrariedades do governo, embora o que houve tenha sido algo inédito.

Nasser assumiu o poder em 1954, dois anos após o golpe que um grupo de militares nacionalistas aplicou no rei Farouk, aliado dos britânicos e franceses. Nacionalizou o canal de Suez, investiu na criação de um importante polo industrial no país, criou universidades públicas que davam bolsas a estudantes pobres do mundo árabe e da África negra. Fez uma profunda reforma agrária, limitando a propriedade de terra a 200 acres. Foi um dos primeiros governos a aceitar a legitimidade do governo de Mao Tsé Tung. Fez acordos com a União Soviética em pleno auge da Guerra Fria. Empreendeu uma série de programas nacionalistas, estatizantes e de cunho social-progressista. Foi uma espécie de Vargas das arábias, inclusive com os mesmos defeitos: perseguiu opositores, especialmente comunistas e muçulmanos, praticou um governo paternalista, populista, excessivamente estatista, e deixou muito a desejar nos quesitos democracia e direitos humanos.

Quando morreu, em 1970, foi sucedido por Anwar Sadat, que apesar de cultuar a memória de Nasser, adotou uma linha conservadora, sendo assassinado por um muçulmano radical em 1981. Mubarak assumiu o poder e o governo eliminou os últimos resquícios de nasserismo no país.

A gestão de Mubarak caracterizou-se pela adoção entusiástica de princípios neoliberais. Importantes empresas públicas foram privatizadas. Reduziu-se o tamanho do Estado. Desregulamentou-se o mercado de trabalho. Enfim, todas as fórmulas que os latino-americanos bem conhecem, e que os levaram a ingressar numa espiral sem fim de retrocesso econômico e social, foram aplicadas no Egito. Com um agravante: tudo conduzido por uma ditadura cruel e opressora, que não permitia aos cidadãos se expressarem. O Egito se tornou um circo dos horrores em termos de criatividade na ciência da tortura. Pepe Escobar, colunista do Asia Times, diz que a polícia egípcia fazia coisas como enfaixar a pessoa inteiramente com fita tape, como uma múmia, e deixá-la apodrecer; ou trancá-la por dias num pequeno caixão, dentre outras barbaridades.

Enquanto isso, a mídia ocidental – cuja opinião pública era atiçada apenas contra o que acontecia no Irã ou Iraque – venerava o “moderado” Mubarak. O Egito era um país estável, um aliado estratégico. Os EUA, ao mesmo tempo em que patrocinavam o esmagamento da economia iraquiana com um embargo econômico que incluía antibióticos e analgésicos, premiavam o bom comportamento do governo egípcio com 2 bilhões de dólares anuais, que naturalmente não eram usados para ajudar nenhum pobre na periferia do Cairo, mas para comprar armamento americano.

Tudo parecia correr às mil maravilhas (para o Ocidente rico), até que uns árabes malucos – entre eles alguns egípcios mal agradecidos – resolveram explodir dois edifícios em Nova York. “Há momentos”, escreve o poeta egípcio Yahia Lababidi, em que “tudo estala, as cadeiras esticam seus braços, as mesas, suas pernas, e os armários alongam suas costas, imprudentemente”. Ou seja, tudo que parece estático e imóvel “subitamente agita-se em suas pernas de madeira, tão rápido como um cavalo fugindo do estábulo”.

Quando viram, aterrorizados, que os EUA deflagrariam uma guerra devastadora no vizinho Iraque, e, pior, que seu governo seria um aliado na destruição de um país irmão, centenas de milhares de egípcios saíram às ruas para protestar. Inutilmente. O governo do Egito reprimiu os protestos, prendeu e torturou uma porção de gente. E os EUA invadiram o Iraque, mataram quase um milhão de iraquianos, feriram, mutilaram e humilharam a população inteira.

Neste momento, emerge a blogosfera iraquiana, pequena, quase a se contar nos dedos das mãos, mas combativa, talentosa e muito lida pela intelligentsia egípcia.

Não é difícil (e também não é fácil) imaginar o impacto profundo que a guerra no Iraque, com todo seu arsenal de imagens sangrentas exibidas pela Al Jazeera, textos pungentes lidos na internet, relatos diretos dos milhares de iraquianos que migraram para o Egito, produziu no imaginário deste país. O Egito, o mais populoso e moderno em termos de tecnologia do norte da África, respondeu da única forma que a ditadura lhe permitia: o florescimento de uma blogosfera política militante e engajada, um fator fundamental para explicar a força e a aparente “falta de liderança” dos protestos recentes.

Outro poema de Lababidi resume onde estamos: “Diga-me, encontraste um mar… profundo o suficiente para mergulharmos, profundo o suficiente para nos afogar, águas que nos arrastem, que nos distraiam, que nos impeçam de cruzar até a outra margem?”.

Sim, encontraste, esse mar é a internet.

A luta pela democracia ainda será árdua no Egito. Como diz Khalil Gibran, o escritor mais famoso do mundo árabe, “o ontem é a memória de hoje, e o amanhã o sonho que temos agora”. O Egito hoje vive a esperança de reviver princípios nacionalistas e socialistas do nasserismo, mas atualizados à luz da consciência dos defeitos que levaram à sua derrocada: o déficit democrático, o personalismo e a debilidade das instituições.

O tempo e o espaço egípcio

Na terceira e última parte de seu livro, Nasser discorre sobre o fator “tempo e espaço” na história do Egito, e afirma, quatro décadas antes do termo “globalização” se tornar moda, que “a era do isolamento acabou”.

“Qual o nosso papel nesse mundo conturbado e em qual palco estamos atuando?”, pergunta-se Nasser, concluindo que o povo egípcio está dentro de um conjunto de círculos que vem a ser o teatro de suas atividades, e dentro dos quais eles tentam se mover como podem.

“O destino não é uma brincadeira. Os eventos não se produzem ao acaso. A existência não pode vir do nada. Não podemos olhar para o mapa do mundo sem identificar o lugar que ocupamos e o papel que desempenhamos”, continua.

O então presidente do Egito argumentava que, assim como não se podia ignorar a época histórica em que viviam – o fator tempo – , cujo estágio tecnológico e cultural influencia determinantemente tudo que acontece no mundo, da mesma forma deveriam atentar para o fator espaço: eram uma nação árabe, de religião predominantemente muçulmana, rodeada de nações árabes e muçulmanas cujos destinos mesclavam-se ao do Egito. Também não podiam ignorar que faziam parte do continente africano. Na época, a África negra enfrentava violentas lutas pela independência política, da mesma forma que hoje enfrenta experiências ainda mais dolorosas para se afirmar economicamente. Todos esses fatos, dizia Nasser, interferem em nosso destino: “seja o que for que fizermos, não podemos esquecê-los, nem fugir deles”.

Nasser cita o clássico de Luigi Pirandello Seis personagens à procura de um autor para lembrar que os anais da História estão cheios daqueles que moldaram para si mesmos papéis heroicos e os desempenharam com galhardia. Mas também sempre houve grandes papéis que não encontraram atores que os assumissem. “Eu não sei por que sempre imagino que, em nossa região, há um papel vagando sem rumo, sempre buscando um ator para desempenhá-lo. Eu não sei por que este papel, cansado de rodar por esta vasta região ao nosso redor, deveria por fim assentar-se, cansado, dentro de nossas fronteiras, obrigando-nos a nos mobilizar para assumi-lo, já que ninguém mais pode fazê-lo”.

Nasser admite que não se trata de um papel principal, e mesmo assim tinha potencial para fazer explodir a terrível energia latente ao redor deles, e na criação, naquela parte do mundo, de um tremendo poder capaz de mobilizar a região e desempenhar, com isso, um papel positivo na construção do futuro da humanidade.

Quando observamos os acontecimentos no Egito de hoje, a rebeldia, pacifismo e ânsia democrática dos milhões que protestaram corajosamente na praça Tahrir, não podemos deixar de pensar nas utopias de Nasser, que eram as utopias de seu tempo, e que encontraríamos nos jovens idealistas de todos os países. Não podemos deixar de pensar também na terrível e sombria reação que adveio de toda parte. Às esperanças de Nasser e dos jovens da época, sucederam ditaduras, conservadorismo, retrocesso social, em todo o chamado Terceiro Mundo. A partir dos EUA, assistiríamos à constituição de um aparato político, midiático e cultural de dimensões hobbesianas, que manipularia implacavelmente a opinião pública mundial, direcionando sua energia para onde lhe fosse mais conveniente.

Daí que só agora, após a onda de protestos no Egito e outros países, fomos devidamente informados que o norte da África e o Oriente Médio são dominados por ditaduras de direita, aliadas aos EUA. A exceção é o Irã, que não por outra razão é satanizado por essas mesmas mídias, de maneira que a presidenta do Brasil não pode sequer manter relações amistosas com o governo persa sem ser fustigada e condenada moralmente. Se no Irã há tortura e déficit democrático, nas plutocracias árabes vizinhas a situação é muito pior, porque além da tortura e ausência de liberdades democráticas, os governos adotaram políticas neoliberais que levaram suas sociedades a encarar como normal a desigualdade econômica e social; e a submissão colonial, que havia sido parcialmente superada através da independência política, retornou sub-repticiamente ao mundo árabe, junto com as privatizações e o desmantelamento do Estado.

Os potentados árabes, em vez de usar o enorme potencial financeiro com que Alá lhes presenteou para promover a industrialização de seus países, gerando empregos e mercado de consumo, preferem construir oásis turísticos de luxo nababesco, de sustentabilidade precária, instável, muitos dos quais, após os bilhões investidos, entraram em decadência com a última crise financeira, ou simplesmente “saíram da moda”.

Não vejo outra frase melhor para fechar este artigo do que uma atribuída a Cleópatra, rainha do Egito na época de Júlio César: “Fique registrado que nós, os grandes, cometemos um terrível erro”.



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