A saúde em risco

Desaparecimento de espécies animais e vegetais constitui uma ameaça igual ou maior que as mudanças climáticas, já que a produção e pesquisa de inúmeros fármacos depende da biodiversidade Por Sthephen Leahy  ...

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Desaparecimento de espécies animais e vegetais constitui uma ameaça igual ou maior que as mudanças climáticas, já que a produção e pesquisa de inúmeros fármacos depende da biodiversidade

Por Sthephen Leahy

 

“Quando danificamos a natureza, prejudicamos a nós mesmos. Poucos se dão conta de que nossa saúde está diretamente ligada à saúde do mundo natural.” Isso é o que assegura o médico Aaron Bernstein, da Universidade de Harvard e um dos autores de Sustaining life: how human health depends on biodiversity (Sustentar a vida: como a saúde humana depende da biodiversidade), em fase de lançamento. Ele e seu colega Eric Chivian escreveram e editaram contribuições de uma centena de destacados cientistas para criar a publicação, lançada no dia 23 de abril pela Oxford University Press e disponível a partir de maio.
Escrito para todos os públicos, o livro recorre às últimas evidências científicas para afirmar que o desaparecimento diário de espécies animais e vegetais constitui para a humanidade uma ameaça igual ou maior que as mudanças climáticas. Os remédios, as pesquisas biomédicas, o surgimento e a propagação de doenças infecciosas e a produção de alimentos na terra e nos oceanos dependem da biodiversidade. O livro menciona sete grupos de espécies ameaçadas, entre elas tubarões, ursos, primatas e anfíbios, que possuem “um inestimável valor para a medicina e a ciência”.
Entre eles estão caracóis cônicos, da família Conidae, espécies tropicais cujo veneno possui dezenas de milhares de poderosas substâncias chamadas peptídeos – breves cadeias de aminoácidos – usados em pesquisas médicas. “Utilizando peptídeos de caracóis cônicos aprendemos muito sobre como funcionam nossos cérebros”, disse Bernstein. Além disso, o primeiro avanço em anos na luta contra a dor procede destes moluscos. Cerca de 33% dos pacientes com câncer terminal e HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da Aids), com os quais não funcionam nem os opiáceos mais fortes, deixaram de sofrer graças a um peptídeo bloqueador da dor extraído do veneno desses caracóis.
“Outros peptídeos são usados em testes clínicos muito promissores, para tratar a diabete, entre várias doenças”, acrescenta o médico. Os caracóis cônicos vivem apenas em recifes de coral, mas entre um terço e a metade dos recifes do mundo corre risco de morte por doenças, contaminação e mudanças climáticas. Os caranguejos-ferradura (Limulus polyphemus) proporcionaram a base para detectar se medicamentos injetáveis estão contaminados. Também são cruciais para compreender a visão humana, afirmou Bernstein. Mas seu hábitat limitado e sua necessidade de praias onde desovar, os tornam vulneráveis à contaminação e às alterações geradas pelos humanos.
Os anfíbios são fonte de novos tratamentos para a pressão arterial alta, e poderiam fornecer substâncias para combater a dor e impedir que as bactérias fiquem resistentes aos antibióticos, o que constitui uma séria preocupação em todo o mundo. Os anfíbios são os organismos mais ameaçados do planeta: quase um terço das 6 mil espécies conhecidas está em risco de extinção e mais de 120 desapareceram nas últimas décadas.

Os medicamentos constituem apenas uma pequena parte do papel que a biodiversidade desempenha no bem-estar humano. Sem os insetos, “a maioria dos ecossistemas terrestres do mundo entrará em colapso e boa parte da humanidade perecerá com eles”, escreve Edward O. Wilson, famoso especialista de Harvard no prefácio do livro. Wilson também observa que 4 milhões de espécies de bactérias podem ser encontradas em uma tonelada de solo fértil e que a maioria de nossas células “não são humanas, mas bacterianas: 700 espécies vivem apenas dentro de nossas bocas”.
Os cientistas estimam que há entre 3 milhões e 30 milhões de espécies de plantas, animais, fungos, bactérias etc., e apenas 1,4 milhão estão identificadas. Até 30% de todas as espécies do planeta podem desaparecer até 2050 devido a atividades humanas insustentáveis (desmatamento, destruição de hábitat e mudanças climáticas), segundo a Avaliação de Ecossistemas do Milênio 2006, um esforço de pesquisa internacional de quatro anos de duração.
“Pode-se chegar à extinção de metade de todas as espécies até 2050”, diz o ecologista Stuart Pimm, da Universidade de Duke, Estados Unidos, que participou da pesquisa. Embora os humanos possam adaptar-se ao aquecimento global, a natureza não pode quando a mudança é rápida. E é improvável que consigamos substituir os serviços que a natureza nos proporciona. “A maioria das pessoas não está consciente deste perigo”, disse Pimm ao Terramérica. As soluções para as mudanças climáticas deveriam preservar e potencializar a biodiversidade, não prejudicá-la.
Como muitas regiões do mundo, entre elas a América Latina, grandes áreas da costa oriental da África do Sul perderam sua vegetação nativa ao cultivarem eucalipto estrangeiro. Embora essas árvores absorvam carbono da atmosfera, ajudando a combater as mudanças climáticas, a perda do ecossistema original tem conseqüências muito mais graves. “É preciso plantar dezenas de milhões de árvores, mas têm de ser espécies nativas para potencializar a biodiversidade”, disse Pimm. Desmatar para plantar vegetais destinados a biocombustiveis é outra forma muito ruim de solução das mudanças climáticas; é preciso pagar aos países para que parem o desmatamento, disse. “Quando informadas sobre a crise, as pessoas se mostram ansiosas para agir, mas não sabem o que fazer”, acrescentou.
O livro tem um capítulo sobre ações, incluindo uma lista de dez pontos principais. Os três primeiros são: usar transporte público, bicicleta ou caminhar para ir ao trabalho uma vez por semana; comprar alimentos orgânicos locais ou cultivá-los; evitar comer camarões ou salmões de criadouros. Muitas recomendações buscam evitar as emissões de carbono, mas, mesmo cultivar espécies nativas nos jardins e reduzir o uso de água, são passos importantes para preservar a biodiversidade, diz Bernstein. Claro, “também precisamos de políticas governamentais para proteger os sistemas naturais; muitos fazem exatamente o contrário”, acrescenta. “Finalmente, necessitamos de uma nova cultura que valorize, conserve e proteja a biodiversidade. Essa cultura já existe quando se trata de nossa saúde. Agora, cabe a nós compreendermos que essa saúde depende da saúde do mundo natural”, concluiu. F



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