A sonoridade única do Quinteto Violado

A música popular regional sem caricatura ou descaracterização: há 40 anos essa é a proposta do grupo pernambucano que continua em busca das raízes do país Por Pedro Alexandre Sanches   Reproduzindo um embate que já havia...

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A música popular regional sem caricatura ou descaracterização: há 40 anos essa é a proposta do grupo pernambucano que continua em busca das raízes do país

Por Pedro Alexandre Sanches

 

Reproduzindo um embate que já havia ocorrido um ano antes nos Estados Unidos, com Bob Dylan, o Brasil sediou em 1967 uma épica guerra pop entre o violão e a guitarra. Elis Regina comandou algo gestado pela TV Record, que ficaria conhecido como a passeata contra a guitarra elétrica – a MPB contra a Jovem Guarda, Geraldo Vandré contra Roberto Carlos.
Edu Lobo venceu o festival de música brasileira da Record daquele ano, empunhando um violão enquanto cantava “quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar Ponteio” ao lado de Marília Medalha. Munida de guitarras elétricas, a Tropicália de Caetano Veloso e Gilberto Gil conquistou colocações inferiores, mas pareceu ter vencido definitivamente a batalha quando Sérgio Ricardo, egresso da Bossa Nova e engajado na MPB de protesto, exasperou-se diante da vaia e quebrou seu próprio violão em pleno palco. A guitarra havia vencido a peleja.
Havia mesmo? Quatro anos depois do canto de cisne de “Ponteio”, e exatos 40 anos atrás, um grupo de Pernambuco estreou nos ringues musicais brasileiros autobatizando-se Quinteto Violado, porque munido de violas e violões. Chegava apadrinhado pelo mesmo Gilberto Gil que quatro anos (e um exílio) antes havia trocado a passeata de Elis pelo rock de guitarra dos Mutantes.
“Nossa primeira apresentação para o público foi em 20 de outubro de 1971, em Nova Jerusalém, onde acontece a Paixão de Cristo, num festival que acontecia num espaço muito bonito, um teatro ao ar livre, feito de pedras”, lembra o violonista e compositor Marcelo Melo, integrante remanescente do Quinteto Violado original, que já teve várias formações, mas não cessou as atividades em nenhum momento nos últimos 40 anos. “Quando descemos do palco, viemos com nossos violões e violas, e tinha umas crianças lá embaixo que gritaram: ‘Lá vem os violados’. Eu e Toinho Alves ouvimos, pronto, aqui está o nome”.
Já naquela primeira aparição, o grupo mostrou os arranjos particularíssimos que caracterizariam seu som, para clássicos do repertório do também pernambucano Luiz Gonzaga como “Asa Branca” (1947), “Acauã” (1952) e “Vozes da Seca” (1953). Três décadas antes, Gonzagão havia imposto a música nordestina ao Brasil, consagrando o formato hoje clássico do trio de sanfona, triângulo e zabumba.
A Bossa Nova do baiano João Gilberto atirara a sanfona no ostracismo a partir de 1958, substituindo a estilização cangaceira de Gonzagão pelo figurino de iatinhos e sapatinhos de salto alto de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e patota. Os baianos Caetano, Gil e Gal Costa ensaiavam com a Tropicália uma reabilitação de Luiz Gonzaga, mas naqueles tempos de partida estavam mais interessados no “som universal” que no orgulho baiano ou, de modo mais amplo, nordestino.
Os Violados se puseram a reler o cancioneiro gonzaguiano, substituindo o trio pelo quinteto e a base sanfona-triângulo-zabumba por violão, viola, flauta, contrabaixo e bateria. “Através da flauta, a gente traduzia a música dos pífanos dos índios”, descreve Marcelo. “O violão fazia a harmonia, e procurávamos fazer um trabalho com a viola que desenhava melodias, não era simplesmente aquele instrumento de batida rítmica para os poetas, cantadores, improvisadores nordestinos. Toinho chamava seu contrabaixo de zabumba harmônica. E Luciano Pimentel começou a usar a bateira com uma só baqueta, embora fosse uma bateria normal de jazz. Na outra mão ele tinha um ganzá, e conseguia sintetizar maracatu, caboclinho, frevo, xote, baião, xaxado, tudo ali naquele instrumento”.
Tratava-se de um passo além na evolução da música brasileira praticada longe das garras do eixo Rio-São Paulo. “Era uma proposta cultural, com música popular regional, sem caricaturar, descaracterizar, vulgarizar nem empobrecer. A gente apenas estava dando dignidade àquela música”, define Marcelo. O advento do Quinteto abriria alas para que o Brasil dos anos 1970 fosse além do rock baiano de Raul Seixas e assumisse sua nordestinidade também pelo canto áspero dos cearenses Fagner, Belchior, Ednardo e Amelinha, dos pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo, dos paraibanos Zé Ramalho e Elba Ramalho. “Precisávamos de uma atriz cantante para o espetáculo do disco A Feira (1974), fui buscar Elba Ramalho em Campina Grande. Descobrimos e trouxemos Elba pro sul, depois da temporada ela ficou no Rio, não voltou mais e seguiu a carreira dela”, orgulha-se Marcelo.
Ele se lembra que A Feira gerou desconfiança e hostilidade quando saiu. Exemplar antológico e esquecido da mais profunda música popular nordestina, o disco profetizava, com vinte anos de antecedência, o grito tradicionalista-modernizador do manguebeat pernambucano de Chico Science e Fred Zero Quatro, colocando lado a lado, em versões pungentes, populares-eruditas, o “Assum Preto” (1950) e o “Pau de Arara” (1952) de Luiz Gonzaga, a “Disparada” (1966) de Geraldo Vandré, a “Procissão” (1967) de Gil e a “Ave Maria” (1968) de Caetano.
A guitarra não tinha vez entre os Violados, mas o músico que se encarregava da viola, Fernando Filizola, era guitarrista de origem. “Ele tinha um grupo de rock chamado Silver Jets. Hoje mora em Natal, está fazendo doutorado em música, é professor na universidade”, conta Marcelo. Fernando e Luciano (já falecido) saíram do grupo em 1983.
O contrabaixista e compositor Toinho morreu em 2007, mas legou ao Quinteto seu filho Dudu, introdutor dos teclados no grupo, e seus sobrinhos Ciano, flautista, e Roberto, percussionista, também integrantes da formação que aniversaria as quatro décadas. O precoce e virtuoso Sando Johnson, primeiro flautista dos Violados, apareceu só nos dois primeiros discos do grupo, Quinteto Violado (1972) e Berra-Boi (1973). “Era um menino de uma família de músicos eruditos. Tinha o domínio da flauta a partir do exercício da musicalidade de Debussy, Vivaldi, Bach. Saiu porque a família acabou influenciando pra ele voltar pra música erudita”, diz Marcelo.
No caminho, Vandré
Embora a música do Quinteto emanasse do povo, seus integrantes estavam mais próximos da MPB de extração universitária que das raízes marginalizadas. Marcelo começou a fermentar o ideário do grupo na Europa, onde foi morar na virada dos anos 1960 para 1970, para se pós-graduar engenheiro agrônomo. Lá, deu aulas de violão para uma estrela nascente da música pop francesa, Françoise Hardy (que, a propósito, lançaria em 1971 um álbum todo feito de parcerias com a compositora paulista Tuca). Lá, o caminho de Marcelo cruzou também com o de um exilado brasileiro, paraibano, que causara comoção no festival da Rede Globo de 1968, com “Pra não dizer que não falei das flores” (“caminhando e cantando e seguindo a canção/ somos todos iguais, braços dados ou não”): Geraldo Vandré.
Ainda amador, Marcelo gravou o derradeiro disco de Vandré antes do abandono total da música comercial (ambiguidade na frase: o abandono parece ser da parte de Marcelo conforme se lê no parag. seguinte; porém, assim escrita, pode-se entender que é de Vandré. “… antes de abandonar totalmente a música…”, confere?), Das terras de Benvirá, que só seria lançado em 1973. “Ele tinha recebido uma ajuda do [maestro francês] Paul Mauriat, mas, muito desestruturado emocionalmente, não conseguia ordenar um trabalho. Mesmo assim, conseguimos ir pra um estúdio, e gravamos o disco”, evoca Marcelo. “Aí fomos fazer um show na Bélgica, e na fronteira encontraram no porta-luvas do carro cinco gramas de haxixe. Vandré não assumiu que era dele, eu estava dirigindo o carro. Enfim, todo mundo foi expulso da França.”
Marcelo perdeu a chance de obter a bolsa de estudos que pleiteava ou mesmo de permanecer na Europa. Voltou para o Brasil e abandonou a agronomia em favor da música. Em parte graças ao episódio com Vandré existe o Quinteto Violado, que em 1997 conseguiria o feito inédito de gravar um Quinteto canta Vandré, só com temas do para sempre indecifrável herói das esquerdas brasileiras ortodoxas dos anos 1960.
“Tivemos momentos de sentar com Vandré num palco, num teatro, ele no banquinho e no violão, a gente com um gravadorzinho, ele cantando músicas inéditas. Foi de onde surgiu ‘República Brasileira’, uma versão que meu pai cantava, meio espanhol, meio português”, orgulha-se Dudu Alves.
Os Violados devem mais que isso a Vandré. É evidente em sua música a impressão digital do Quarteto Novo, grupo formado em 1966 para acompanhar Jair Rodrigues no festival da Record, enviesando para veredas sertanejas a “Disparada” de Vandré e Théo de Barros. Munida de instrumentos como uma queixada de burro, a toada acabaria empatada com a infanto-juvenil “A Banda”, de Chico Buarque, defendida por uma futura entusiasta do Quinteto Violado, Nara Leão.
“O Quarteto Novo fez apenas um disco. Era integrado por Hermeto Pascoal, alagoano, Heraldo do Monte, pernambucano, Airto Moreira, carioca (na verdade, é catarinense), e Théo de Barros, carioca”, diz Marcelo. “Esse quarteto conseguiu trabalhar a música nordestina com uma dimensão bem grande, tanto que no começo diziam que o Quinteto Violado estava retomando o caminho do Quarteto Novo. Mas o Quarteto era muito jazzístico. O Quinteto tinha elementos mais rústicos, mais enraizados na temática e na ambiência sertaneja, da caatinga, do agreste, do litoral nordestino”.
O interesse primordial pelas raízes populares diferenciava a frente violada do movimento conduzido a mão de ferro pelo conterrâneo Ariano Suassuna, na Orquestra Armorial e no Quinteto Armorial. “Ariano achava que ia ‘lançar a viola’, era uma pretensão danada. Ficou meio incomodado porque o Quinteto fazia um sucesso nacional, as primeiras reações que teve foram de desqualificar a gente. Mas hoje ele reconhece a importância, tem se referido ao Quinteto com muito respeito”, afirma Marcelo.
A bênção de Gonzagão
O disco A Feira, mais uma vez, sintetiza com precisão as ambições estéticas dos Violados. “A capa é uma feira na cidade de Olinda, mas se reportava a Campina Grande, Caruaru, Limoeiro, Juazeiro, a qualquer feira livre do Nordeste. Ali tem o folheteiro, o homem de remédio de raiz, o cantador, a religiosidade, o povo do interior que vem pra feira trazer seus produtos e ali marcar seu casamento e seu batizado, os violeiros, os repentistas, os romances populares, a literatura de cordel”, enumera Marcelo.
“A música nordestina é muito dramática, e tem elementos cênicos muito ricos, dos autos populares, os pastoris, o reisado, o bumba-meu-boi, a chegança, a vaquejada, a nau catarineta”, lista elementos que apareceriam, um a um, nos discos do grupo. “Roda de Ciranda”, “Marcha Nativa dos Índios Quiriris” (1972), “Vaquejada”, “Cavalo Marinho” (1973) e “Folguedo” (1974) seriam os títulos de algumas das composições próprias do grupo.
Adiante, o conjunto ampliaria o arco de referências, como no álbum … Até a Amazônia?! (1978), na versão pop-nordestina de 1986 para a ópera O Guarani (1870), do paulista Carlos Gomes, ou, mais recentemente, na homenagem simultânea a um sambista paulista e a um coquista paraibano, em Quinteto Violado canta Adoniran Barbosa & Jackson do Pandeiro (2010). “Dentro da história do Quinteto, sempre tivemos essa preocupação de homenagear grandes ícones brasileiros, como Vandré e o próprio Luiz Gonzaga”, explica Dudu.
Além do livro biográfico Lá vêm os Violados, atualmente em preparo pelo jornalista pernambucano José Teles, os Violados preparam novas homenagens para o ano que vem, ao maranhense João do Vale e a Luiz Gonzaga, em seu centenário. Gonzagão é, disparado, o artista mais reverenciado pelo grupo, seja em discos ou na estrada. Logo no início, cumpriram os chamados circuitos universitários ao lado do mestre, de seu filho carioca Gonzaguinha e de seu afilhado pernambucano Dominguinhos. Deste, os Violados aprenderiam, naquela primeira turnê, o “Forró do Dominguinhos”, que gravariam no segundo LP e explodiria logo depois na voz de Gilberto Gil, em versão com letra e rebatizada “Eu só quero um xodó” (1973).
“Quando começo a falar de Luiz Gonzaga eu me emociono muito”, avisa Marcelo. “Uma vez levaram pra ele ouvir o primeiro arranjo que a gente fez de ‘Asa Branca’, e ele disse que era a leitura mais bonita que já tinha escutado da música.” Gonzagão acertara o alvo, como de costume: com seis épicos minutos de duração na abertura do primeiro LP do Quinteto, a versão violada de sua obra-prima com Humberto Teixeira é nada menos que colossal.
“Gonzaga criou a estrutura básica de sanfona, triângulo e zabumba e saiu mambembando pelo Brasil. Circulava este país todo, mas os locais onde tocava eram os redutos nordestinos. Saiu antes do Nordeste, e andava pelo Brasil matando a saudade dos nordestinos”, derrama-se Marcelo. “Trabalhava pra todo aquele exército de nordestinos que construíram Brasília e boa parte da urbanidade do Sudeste, e também para os nordestinos que se incorporaram ao exército da borracha, no Norte”.
O papel do “rei do baião”, aqui resumido pelo discípulo (mas não imitador) Marcelo Melo, explica em grande medida o DNA gonzaguiano do próprio Quinteto Violado – e, de quebra, o da música brasileira que vê e ouve além do umbigão carioca-paulista-baiano.


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