Angola pelas Artes

Famoso, de um lado, pelos petrodólares, e de outro, pela desigualdade social, o país exporta também a cultura, que conta seu passado e projeta o que pode vir a ser o seu futuro. Por Eliza...

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Famoso, de um lado, pelos petrodólares, e de outro, pela desigualdade social, o país exporta também a cultura, que conta seu passado e projeta o que pode vir a ser o seu futuro.

Por Eliza Capai

 

Fotos de construções e uma maquete dentro de um semiglobo de acrílico anunciam: a África vai enviar um foguete para o espaço, o Icarus 13. Na capital angolana, Luanda, já vemos a nave instalada. “A primeira ideia foi uma viagem lunar, mas a lua já havia sido visitada. Então lembrei de uma história sobre isto de Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique”, explica o angolano idealizador da “façanha espacial”, Kiluanji Kia Henda. Enquanto americanos e russos disputavam o espaço na Guerra Fria, Samora decidiu não ficar de fora da disputa e anunciou que os africanos também deveriam ir para o espaço: mas eles iriam para o sol. “As pessoas ficaram muito animadas com esta idéia”, continua Kiluanji, “mas um dos camaradas questionou Samora: `mas o sol é muito quente` e então Samora respondeu: `não se preocupe, camarada, eu já pensei nisto: nós vamos para o sol, mas vamos à noite”, diverte-se.

Nascido em Luanda, em 1979, o artista plástico Kiluanji criou a obra Icarus 13, exposta no 2º pavimento da Bienal, com fotos de construções iniciadas pelos estrangeiros no continente, mas abandonadas no caminho. O Mausoléu de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola, construído pelos russos no início dos anos 80, vira foto e modelo da maquete da obra. “Eu me apropriei deste monumento e por sua estética como nave espacial e decidi usá-lo para uma viagem”, explica Kiluanji. Marta Mestre, historiadora da arte e curadora, ao fazer a leitura da obra conclui: “ Icarus 13 fabrica uma perplexidade com gozo e ironia (…). (Ela) evoca de forma imediata o anti-herói grego que perde as asas no momento em que se aproxima do Sol, ao mesmo tempo que retoma inteligente as piadas ao jeito de Samora Machel. (…) Para lá do irrisório da imagem, estabelece-se, portanto, uma ponte entre o mito e o cômico.”

Talvez a sensação de deparar com o projeto de Icarus 13 na Bienal de São Paulo, antes de compreender que se trata de uma ironia, é semelhante à de defrontar-se com a proposta de 2008 de construção da Torre de Angola. Na capital, Luanda, 325 metros de altura inspirados no formato da letra “A” da Torre Eiffel se dividiriam em 70 andares. O projeto do prédio mais alto do continente prevê um hotel de luxo com 1.400 quartos e apartamentos no valor de R$ 11 mil o metro quadrado. Sem fazer ponte entre mito e cômico, a Torre de Angola pretende entrar no canteiro de obras que se tornou Luanda após o restabelecimento da paz. O capital do petróleo começou a alimentar a reconstrução do país que teve 70% de sua estrutura destruída com a guerra. De um lado, grandes empreendimentos e empresários que sonham em, assim como na irônica obra de Kiluanji, transformar Luanda numa cidade futurista à la Dubai, alargando-se a avenida beira-mar em direção à água, erguer edifícios avaliados em 2 milhões de dólares e construir uma nova capital administrativa desenhada por Oscar Niemeyer.

Por outro lado, Angola continua tendo um dos níveis de urbanização mais baixos da África e do mundo. Apesar da população de Luanda estar próxima de ultrapassar 5 milhões de pessoas, apenas 38,4% dos habitantes do país vivem em áreas urbanas. O país ocupa o 162º lugar entre os 177 países no Índice de Desenvolvimento Humano: entre os países com “baixo desenvolvimento humano” Angola tem 0,446 de pontuação. Atualmente 70,2% de sua população ganha menos que US$2 por dia (ONU, 2009), 49% da população não tem acesso a um sistema de água, o analfabetismo é a realidade de 32,6% dos jovens e adultos e a esperança de vida é de 41,7 anos. Terra de contrastes, Luanda é das capitais mais caras do mundo e uma viagem por lá não custará menos que uma feita em Paris.

O esvaziamento do país

Viagem ao passado. Icarus 13, além de pano de fundo da nova Luanda, dialoga com o recente passado colonial. “Este projeto é importante para mim porque ele trata da desapropriação de prédios, sobre este mito dos portugueses vivendo em Angola como se fosse sua metrópole”, explica Kiluanji. O Estatuto dos Indígenas das Províncias de Angola, Moçambique e Guiné separava os nativos de um pequeno grupo de elite `civilizada`, que tinha direitos similares aos portugueses. Somente com o início da luta armada, em 1961, o estatuto foi revogado e as consequências da política de discriminação racial e cultural permaneceram além da independência em 1975. Quatro anos depois de Angola se declarar livre, nascia Kiluanji. “A minha família era bem engajada na luta de libertação colonial, o meu pai era da clandestinidade, sempre apoiou a luta – não nos campos de batalha mas na universidade. No período da transição de Angola para a independência meu pai também esteve envolvido, não só meu pai como meus os tios estavam envolvidos”, explica o artista ao som de buzinas em Luanda.

Em 11 de novembro de 1975, o Movimento Popular para a Libertação de Angola proclamou a independência e declarou Agostinho Neto presidente. O MPLA já havia escutado, na véspera, a declaração da ex-metrópole dizendo que “Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar. (..) Deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se”.

“Os colonizadores portugueses deixaram o país, 40 mil pessoas em dois meses… então a gente teve o país vazio, as cidades vazias e tudo teve que começar de novo. Para mim, é um grande desafio ser um artista em Angola porque eu estava apenas nascendo naquele momento em que o povo estava tentando fazer um novo país: uma nova bandeira, um novo sistema de educação, tudo era muito experimental. Então é um grande desafio ser original num país em que a improvisação é um estilo de vida”, esclarece Kiluanji.

Somando a guerra de independência e o conflito subsequente, entre os grupos internos, cerca de 1 milhão de pessoas morreram em conflito armado entre 1961 e 2002. Pouco antes de se libertarem dos portugueses, o exército sul-africano tentou impedir o Movimento de Libertação de Angola (MPLA) de chegar ao poder. Assim, o exército de Pretória ocupou por longos períodos o território angolano chegando a uma intensidade de confrontos inédita na África Subsaariana.

“Durante toda a década de 80 sempre tivemos a ameaça da invasão do governo do apartheid sul-africano ao sul de Angola, me lembro de ter esta preocupação quando criança, com esta tensão mesmo. E me recordo também do meu pai a andar armado”, recorda Kiluanji. Neste momento, a parte do mundo bipolarizado que coube a Angola foi a vermelha e aterrissavam no país médicos, professores e exército de Cuba. “Lembro de na escola ser muito presente a questão de ser comunista, uma das visões que mais me marcaram era uma mão branca tentando arrancar o mapa da Angola e vinha uma voz atrás que dizia: `Reagan, tira a mão de Angola…` Mas nunca senti que era uma guerra contra um povo, sempre tive a consciência de que era uma guerra contra um tipo de política: da mesma forma que apareciam coisas contra Ronald Reagan na televisão, nós ouvíamos música americana, funk, rock, em aparelhagens que eram construídas na Rússia”, relativiza o artista.

Graças aos reforços cubanos, em 1998, a mão branca não conseguiu roubar o mapa de Angola, e o exército sul-africano foi expulso. Com a vitória de Cuíto Canavale marcou-se o início do declínio do apartheid. Em 2008, 20 anos depois da batalha, o atual presidente sul-africano Jacob Zuma declarou: “A contribuição do MPLA e do povo angolano na luta em prol da abolição do apartheid na África do Sul é única”.

O apoio cubano havia sido dado ao MPLA e, ao mesmo tempo, os outros dois partidos que lutavam pelo governo de Angola tiveram apoios externos transformando a Guerra Civil em conflito internacional. Assim, a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola) recebia apoio da África do Sul do apartheid. O terceiro partido, a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) recebia apoio do Zaire (Congo) sancionado pelos EUA.

Filho da Revolução

Miguel Pedro Sebastião era um dos integrantes da FNLA. Quando a guerra endureceu, ele e sua família se exilaram no Congo. Um de seus filhos, Yonamine, ainda tem dificuldades de lembrar-se do episódio. “Não gosto muito de falar de antes, a guerra espalhou a minha vida, há 20 anos ou mais não convivo com meus irmãos”, desabafa. Yonamine é o segundo artista angolano presente na Bienal de São Paulo. Ele nasceu no mesmo ano da independência de seu país. “Fui educado para ser um revolucionário poético, nunca fui à guerra, ela veio a ter comigo, agora o que faço é tirar proveito dela. Sou fruto da guerra, de meu pai, de minha mãe e da mídia”, explica o artista, pisando num tapete feito com exemplares do jornal O Estado de São Paulo e cercado por duas paredes revestidas com papel-jornal.

Na obra Os Mestres e as Criaturas Novas (Remixstyle), ícones do pop político se espalham em fotos, estencils e desenhos. Uma pilha de jornal com um buraco no meio, como um olho mágico, revela um vídeo de vermes devorando, supostamente, as notícias. “Hoje sou famoso, mas sei que sou descartável”, pondera Yanomine. De frente para uma das paredes revestidas de jornal, o artista afirma: “este homem eu respeito”, apontando para Bin Laden numa foto. “Ele é um terrorista poético, um bom teórico que desconfigurou o cartão postal, mudou o shape de uma cidade”, se anima. Bin Laden divide espaço com Samora, Obama, o logo da ONU que forma o “O” da palavra “off” e grafismos coloridos. “As pessoas acham que isto é ‘padrão africano’”, comenta, referindo-se aos grafismos em cores fortes em forma de pipa. “Padrão africano é aquilo que se fala que é africano, é este casaco com este pano africano que nem da África é”, diz, apontando para a própria roupa e se referindo aos “tradicionais” panos que são identidade nacional de muitos países do continente, mas que, em geral, são importados das antigas metrópoles ou China. Assim, o artista faz a crítica ao uso do estereótipo que se refere a seu continente.

Enquanto a paz chegou em Angola com o acordo de Luanda, datado de 4 de abril de 2002 e assinado pelo MPLA (Movimento de Libertação de Angola) e pela UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), Yonamine continuava na vida de migrante. O artista, que já morou em Angola, Congo, Brasil, Reino Unido e atualmente vive e trabalha entre Lisboa e Luanda explica que em suas migrações aprendeu no Brasil “a falar”, que Angola lhe deu o sangue e, a Europa, a tecnologia. “Minhas obras têm temperos de muitos lugares”.

A crítica portuguesa Carla de Utra Mendes contextualiza que “num mundo globalizado em que as referências circulam num fluxo interminável, artistas como este informam-nos de abordagens outras que nos permitem repensar o lugar do Outro cultural e da sociedade ocidental que pouco a pouco cai em desuso. Os mestiços, os crioulos, aqueles que possuem uma dupla, tripla ou múltipla referência identitária são, atualmente, o novo vigor que a arte precisa para se manter viva e sair da apatia em que acabou por se enterrar”, avalia. “Não é apenas no conteúdo que este artista é complexo e multifacetado. O seu modus operandi varia desde a colagem à pintura, ao grafiti e ao vídeo, dedicando-se à tela como um construtor de mundos, destruindo unidades espaciais, temporais e materiais”, avalia Carla. O crítico e diretor do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), Luis Camillo Osório, ao ser chamado pela Folha de S. Paulo para destacar três artistas da Bienal, colocou em sua lista Yonamine. “(Ele) sabe combinar precariedade e ironia. Este é o paradoxo e a força dos trabalhos”.

O “ser de dentro” e o “estar fora” de Angola também foram o ponto de partida de My African Mind, a terceira obra angolana presente na Bienal. Utilizando linguagem de vídeo norte-americana, algo entre Hollywood e National Geographic Channel, uma voz em off nos apresenta o “monstro negro saudável”, este ser sem escrita, este outro tipo de macaco. Nástio Mosquito, o mais jovem dos três artistas, nasceu em 1981 em Luanda. Multi-artista – músico, videomaker e performer –, Mosquito usa na animação My African Mind imagens de arquivo da história africana do século 20. Assim, Tim ti e Tarzan, por exemplo, representam com ironia e humor os estereótipos e conflitos da relação dos brancos com a África”.A ideia nasceu do Pere Ortín (artista que faz parte do coletivo Bofa da Cara junto com Mosquito). Ele sendo espanhol, queria desafiar os europeus ou ocidentais de uma forma geral… Daí tudo aconteceu. Estávamos há muito a nos perguntar como era possível gente tão velha e tão jovem terem a mesma imagem de África e dos africanos. Chegamos até a cultura pop… My African Mind é direcionado para quem vê o vídeo, mostrado majoritariamente na Europa e EUA, revelando porque ele pensa sobre África da forma como pensa, a ligação à cultura pop na afirmação de estereótipos”, explica Mosquito.

Com o desfile destes ícones pop com os quais crescemos nos gibis e nas telas (vale assistir o vídeo, on-line no link `películas` de www.bofadacara.com) fica clara (e perturbadora) parte da base de nossos pré-conceitos e do racismo. Mosquito, que já circulou pelo mundo, hoje opta por viver em Luanda. “A certa altura, houve um momento em que era melhor produzir meu trabalho em Angola e não na Europa. O Ocidente adora um africano que trabalha na África e produz trabalho de qualidade global… Vende bem”, ironiza. Mosquito vive no país que em 2008 teve eleições nacionais que legitimaram o MPLA, que venceu com maioria absoluta (87% dos votos). A paz é acompanhada de uma taxa alta de fertilidade (em média 7 crianças por mulher, apontada por estudo da Comissão Europeia como a mais alta do mundo) e do retorno de 500 mil refugiados saudosos do `lar`. De 14,7 milhões de pessoas vivendo no país sobe-se, em cinco anos, para 17,4. Cerca de 5 milhões deles estão na capital, sendo que dois terços se encontram em subúrbios precários. Minas terrestres, falta periódica de eletricidade, falta de saneamento básico fazem parte da paisagem da capital. “Sempre foi um orgulho tremendo ser de Angola, algo como respirar. Cresci com uma noção muito forte de ser e pertencer, não ao Primeiro ou ao Terceiro Mundo, mas a um planeta cheio de desafios”, encerra o artista, apagando as fronteiras que sempre excluíram seu país.

Pesquisa de Celia Ribeiro



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