Belém-Brasília

Sem ter o que fazer, depois de ler os jornais, fui bebendo, bebendo… Resultado: cheguei bem calibrado em Belém, às quatro e meia da tarde. Peguei um táxi e fui direto para o hotel Por...

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Sem ter o que fazer, depois de ler os jornais, fui bebendo, bebendo… Resultado: cheguei bem calibrado em Belém, às quatro e meia da tarde. Peguei um táxi e fui direto para o hotel

Por Mouzar Benedito

 

Pelo fato do Fórum Social Mundial deste ano ter sido realizado em Belém, fiquei me lembrando da primeira vez que fui lá, em mil novecentos e antigamente.
Peguei um avião que fez escalas no Rio, em Salvador, Recife, Fortaleza, Teresina e São Luís. Foi uma viagem de quase dez horas – e não tinha nada de caos em aeroportos, a demora foi por causa do excesso de escalas.
Naqueles tempos, os serviços de bordo não eram essa miséria de hoje, de darem um sanduichinho vagabundo e, de álcool, uma cerveja ruim e praticamente sem gelo. Comia-se bem e bebia-se muito bem. E muito.
Sem ter o que fazer, depois de ler os jornais, fui bebendo, bebendo… Resultado: cheguei bem calibrado em Belém, às quatro e meia da tarde. Peguei um táxi e fui direto para o hotel. Fiz a ficha rapidamente, entrei no quarto e caí na cama para um cochilo.
Menos de uma hora depois, acordei. Estava começando a escurecer. Não me lembrava de nada, não sabia onde estava. Olhei o quarto e só dava para ver que estava num hotel. Resolvi sair à janela para tentar reconhecer o lugar, mas a janela dava para os fundos de outro prédio. Olhei o telefone na mesinha de cabeceira, pensei em ligar para a portaria e perguntar onde eu estava, mas achei que ia pegar mal.
Deitei de novo, não para dormir, e fiquei tentando me lembrar de onde eu estava no dia anterior e o que havia feito nesse dia. Demorei, mas me lembrei. Saí e fui encontrar uns jornalistas no Bar do Parque, em frente ao Teatro da Paz, para tomar umas Cerpinhas (cerveja maravilhosa na época, hoje não sei como está) e conversar. Estávamos em plena ditadura e os jornalistas me contaram que o prefeito – que era nomeado, não havia eleições para o cargo nas capitais – estava acabando com a cidade. Nem os antigos coretos escapavam. Belíssimos, eles estavam desaparecendo de Belém e reaparecendo em outros lugares. Até num sítio de um militar em Petrópolis, estado do Rio, foi visto um daqueles coretos históricos.
Bom… Minhas lembranças dessa época pararam aí. Depois fiz várias outras viagens à capital paraense, mas minhas recordações mudaram de rumo, para a rodovia Belém-Brasília, que foi bem precária durante muito tempo.
– Comprida e mal-acabada… – di­ziam da rodovia, e essas características fizeram uma ascensorista do Senai, em São Paulo, receber o apelido de Belém-Brasília, já por volta de 1980. Não fui eu que lhe dei o apelido, quando cheguei para trabalhar no Senai ela já era chamada assim…
A Belém-Brasília era uma funcionária que “vestia a camisa” do Senai. Obedecia às regras mais absurdas sem chiar, e dedava quem saía da linha. Por isso, era uma das minhas vítimas e também de outras pessoas que gostavam de sacanear os burocratas e afins. Uma das regras rígidas era que nenhum funcionário podia entrar no prédio sem crachá. E tinha que permanecer com ele o tempo todo.
Um dia entrei no elevador cheio de gente e ela ficou olhando feio pra mim, não fechava a porta.
– Se você não colocar o crachá eu não subo – falou invocada.
– Eu estou com o crachá.
– No bolso não vale, tem que ficar exposto – falou brava, em tom de xingamento.
– Ele está exposto. Olha aí – indiquei o crachá na braguilha.
Ela ficou vermelha, fechou a porta do elevador para subir, mas continuou reclamando:
– Tem que ser no peito.
– Não está escrito em lugar nenhum. Só disseram que a gente tem que usar o crachá.
Um burocrata, chefete de alguma coisa, tomou as dores dela:
– Qual é o seu cargo aqui? – perguntou.
– Suporte de crachá – respondi.
– Como, suporte de crachá?!
– Não sou eu que entro aqui, é o crachá. Só tenho que vir para trazer ele. Se eu tentar entrar aqui sem ele, não consigo. Ele só não entra sozinho porque precisa que alguém o carregue.
Realmente eu enchia o saco… Não é à toa que meu emprego lá não durou muito. Fui demitido como agitador, militante de esquerda e não sei o que mais. F



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