Censura, arte e política

Uma sugestão para a próxima Bienal de São Paulo: deixar a curadoria a cargo de juristas. Afinal, a cada edição que passa, ela fica mais dependente da ação de advogados e promotores. Por Alexandre Nodari...

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Uma sugestão para a próxima Bienal de São Paulo: deixar a curadoria a cargo de juristas. Afinal, a cada edição que passa, ela fica mais dependente da ação de advogados e promotores.

Por Alexandre Nodari

 

“O que diferencia o pior arquiteto da melhor abelha é que o arquiteto ergue a construção na imaginação antes de erguê-la na realidade” (Karl Marx)

Uma sugestão para a próxima Bienal de São Paulo: deixar a curadoria a cargo de juristas. Afinal, a cada edição que passa, ela fica mais dependente da ação de advogados e promotores. Há dois anos, ficou marcada pela prisão de pixadores que decidiram ocupar por conta própria o segundo andar do prédio, que a organização optou por deixar vazia. A recém-aberta edição de 2010, voltada para a relação entre arte e política, já se notabilizou pela censura. Primeiro, foi o pedido da seccional paulista da OAB para que não fosse exposta a “Série Inimigos”, de autoria de Gil Vicente, que retrata o artista matando pessoas notórias, como FHC e Lula. A justificativa para a proposta de censura foi da mesma estirpe daquela utilizada contra as Marchas da Maconha: incitação ao crime.

Além disso, houve protestos contra o uso de urubus vivos em uma instalação de Nuno Ramos. Mas o caso mais pernicioso foi o da autocensura da própria Bienal à instalação El alma nunca piensa sin imagen, organizada por Roberto Jacoby: um espaço, delimitado por dois painéis enormes com fotos de Dilma e Serra, no qual artistas argentinos (a “Brigada Argentina por Dilma”) realizariam uma campanha fictícia, produzindo material de propaganda e promovendo debates e discussões artístico-políticas. Poucos dias antes da abertura, e já tendo incluído a imagem dos painéis no catálogo, a organização da Bienal consultou a Procuradoria Eleitoral e decidiu cobrir os painéis, censurando a instalação por violar o marco legal da propaganda política em época de eleições.

O discurso que logo surgiu na mídia em defesa de Jacoby acabou reproduzindo o pressuposto em que se baseou a censura: apesar de haver formas mais “sutis” de elaborar a relação entre arte e política, portanto, apesar de não ser “boa arte”, a instalação não deveria sofrer censura. Ou seja, por esse discurso, A alma nunca pensa sem imagem é muito direto, é (quase) pura propaganda, na alegação dos curadores. Todavia, essa postura omite toda a trajetória artística de Jacoby, voltada para a reflexão crítica dos meios de comunicação e da imagem. Caso emblemático é aquele lembrado por Flávia Cera no blog mundo-abrigo. Em 1966, junto com Raúl Escari e Eduardo Costa, o artista argentino promoveu um “happening que não existiu”: notícias de uma performance que não ocorrera foram enviados para alguns jornais que a noticiaram como tendo acontecido. O falso, veiculado pela mídia, aparecia como verdadeiro. A proposta era pensar “o momento da transmissão de uma obra, mais do que o momento da sua constituição”, ou seja, refletir sobre o que é a mídia, “tematizar os meios como meios”. Não se tratava de negar os novos meios de comunicação de massa, mas pôr em discussão o seu regime de funcionamento e o modo como ele afeta a vida humana.

Toda sociedade possui certo regime de “visibilidade” e de “dizibilidade”, aquilo que Jacques Rancière chamou de “partilha do sensível”: a determinação do que pode ser visto e dito, e os modos como uns aparecem e falam aos outros. Na Roma Antiga, a ordenação desse regime atendia pelo nome de censo, que não era a simples contagem da população e de seus bens, mas a ordenação das pessoas em classes, com respectivas obrigações políticas, jurídicas, econômicas, militares, morais etc. Aos censores, cabia zelar por esta ordem, punindo não os crimes, mas aqueles atos em que a pessoa não se mostrava digna de sua categoria, em que sua aparência pública – o que dizia, como dizia, seus hábitos etc. – não condizia com sua classe. Não por acaso, os censores cuidavam especialmente de questões suntuárias, as regras dos cultos, das festas, dos rituais, fazendo com que estes ficassem dentro de limites pré-determinados. Aquele que ousasse transgredir este “regime estético” era imediatamente punido com a nota censoria, sendo rebaixado de classe.

Enquanto as novas tecnologias parecem permitir cada vez mais o entrelaçamento das diversas esferas da ação humana e mesmo democratizá-las, a “partilha do sensível” que rege nas sociedades contemporâneas parece apontar no sentido contrário, limitando cada “dizer”, cada “aparecer” a uma esfera restrita e separada: a arte, a propaganda, a política, o jornalismo. Se não há mais censura formalmente autorizada pelo Estado, isto não quer dizer que não subsista uma forma de “censo”, de determinação do lugar e das condições nas quais algo pode aparecer ou ser dito. Tal “regime estético” diz respeito não só ao Estado, mas à sociedade como um todo, abarcando fenômenos aparentemente banais: no que nos diz respeito, vai desde a legislação eleitoral até o engessamento midiático dos debates entre candidatos. A instalação de Jacoby questiona justamente estas normas, escritas ou não, que regem o que aparece. Nela, é a própria distinção entre arte, política e propaganda, entre os lugares onde algo pode ou não ser dito, que é posta em xeque através de seu denominador comum: a imagem.

Como argumenta Emanuele Coccia, não há mundo comum aos homens sem a comunicação e a transmissão de discursos, de imagens, em suma, do “sensível”: “apenas através do sensível – através das imagens – penetramos nas coisas e nos outros, podemos viver neles, exercer influência sobre o mundo e sobre o resto dos viventes”. A luta política, portanto, envolve a luta pelo modo como o sensível e o dizível são mediados e veiculados. Não por acaso, n’A República, Platão ligava o “declínio” ateniense ao que ele chamava de “teatrocracia”, o domínio do auditório: os poetas começaram a misturar os gêneros, acabando com a diferença entre boa e má música, ao que se seguiu a intromissão cada vez maior do público nas encenações, público já incapaz de distinguir o bom do ruim, e “prepotente” ao ponto de levar esta intromissão à política, criando a democracia. Assim, a democracia nasceria quando a imagem, a encenação, os discursos deixaram de ser monopólio de uns, de uma classe, os mediadores (meios) da ação, e de se limitar a um lugar, o palco, a representação, para se tornarem comuns. Repensar os modos como uns aparecem e falam aos outros é uma tarefa política que está na ordem do dia. Resta saber se optaremos pelo regime estético-capitalista da separação da imagem (por classes, por lugares) ou se imaginaremos e ergueremos na realidade uma construção político-artística em que o sensível não seja patrimônio individual, abraçando a premissa democrática de que todo homem, toda alma nunca pensa e nunca age sem imagem.

*Nesta edição, excepcionalmente não publicamos o artigo mensal de Idelber Avelar, que retorna na próxima edição.



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