Ciência climática busca o saber camponês

Programa da ONU busca estabelecer diálogo entre a academia e o saber tradicional, talvez um dos maiores desafios da América Latina hoje Por Daniela Estrada, da IPS...

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Programa da ONU busca estabelecer diálogo entre a academia e o saber tradicional, talvez um dos maiores desafios da América Latina hoje

Por Daniela Estrada, da IPS

 

 

A percepção que indígenas e camponeses têm da variabilidade climática, pelo menos em uma região da Colômbia, coincide quase matematicamente com os registros obtidos pelos instrumentos técnicos. É o que afirma o especialista Andrés González, coordenador do Programa Conjunto Integração de Ecossistemas e Adaptação à Mudança Climática no Maciço Colombiano, executado há quase três anos por agências da Organização das Nações Unidas.

No departamento de Valle del Cauca, indígenas e cientistas trabalham juntos na adaptação à mudança climática, um caso raro na América Latina. Este ano foi estabelecida ali uma rede de custódia de sementes de tubérculos, milhos, frutas, espécies forrageiras, quinoa e amaranto, entre outros alimentos de alto poder nutritivo, com a finalidade de promover a troca entre as comunidades dos resguardos (jurisdições indígenas) Puracé, Paletará, Coconuco, Quintana e Poblazón.

Também foram criadas parcelas para aclimatar as sementes e seis “Escolas de Campo”, onde profissionais e camponeses estudam e discutem segurança alimentar, produção sustentável, gestão de riscos e contextos saudáveis. Participam cerca de mil famílias dos municípios de Popayán e Puracé. Na área de impacto direto do programa nessa região do Cauca, habitam aproximadamente 11 mil pessoas, mas estima-se que as beneficiadas sejam mais de 240 mil. Andrés espera que o projeto, que terminará em seis meses, seja renovado.

Em um contexto histórico de conflito pela terra, entre os resguardos indígenas, os pequenos agricultores e os latifundiários da região, foram assinados os Pactos de Convivência entre estes atores, e elaborados calendários produtivos e listas de espécies resistentes a diferentes condições. No entanto, “falta muito. É um desafio importante estabelecer este diálogo, para que possamos entender a lógica (de camponeses e indígenas) e eles, a nossa”, disse Andrés à IPS.

A equipe que dirige este projeto, patrocinado pelo Fundo para o Sucesso dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conta com representantes de comunidades nativas, “nos quais se espelham nossos técnicos e profissionais, que velam para que sua concepção e sua visão do mundo estejam garantidas no programa”, afirmou Andrés. Os indígenas e camponeses não poderiam estar ausentes, pela exatidão que mostram suas percepções e observações empíricas.

A produção agropecuária é responsável por aproximadamente 30% dos gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, lançados na atmosfera pelos países da América Latina. Principalmente por mudanças no uso do solo, na utilização de fertilizantes e decomposição dos dejetos do gado. E a agricultura é um dos setores que já sente os efeitos da mudança climática: maior intensidade e frequência de fenômenos extremos – inundações, geadas e secas –, aparição de novas pragas, mudanças na disponibilidade de água por derretimento de geleiras e deslocamento de cultivos.

A isto, soma-se o fato de mais de 50% da população rural da América Latina e do Caribe ser pobre, e de quase um terço viver em condições de indigência, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), com sede em Santiago. “O agricultor sabe da variabilidade climática porque a agricultura é isso: manejar o clima”, disse à IPS Laura Meza, coordenadora da Equipe Multidisciplinar de Mudança Climática e Meio Ambiente para a América do Sul da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). “Incentivar o diálogo entre a academia e o saber tradicional é um dos desafios que temos como região”.

“Na Austrália, sabemos que há um vínculo muito estreito entre o agricultor, o cientista e o tomador de decisão. Os três estão trabalhando juntos”, assegurou a especialista da FAO, cujo escritório regional também fica em Santiago. “Aqui são compartimentos estanques, estão separados. Falta muito diálogo”, enfatizou Laura. Também é necessária a comunicação entre países, “porque falamos de um fenômeno que não conhece fronteiras”, afirmou à IPS Adrián Rodríguez, oficial encarregado da Unidade de Desenvolvimento Agrícola da Divisão de Desenvolvimento Produtivo e Empresarial da Cepal.

“É hora de valorizar o conhecimento ancestral dos camponeses e dos indígenas”, disse à IPS a quechua Rosa Guamán, da equatoriana Associação de Produtores de Plantas Medicinais Chimborazo-Jambi Kiwa, uma pujante empresa comunitária formada por mulheres indígenas, que exporta ervas para o Canadá e países europeus. Como dirigente indígena e da associação, Rosa contou que teve que derrubar muitos preconceitos para validar seu saber porque não possui formação acadêmica.

“Não creio que haja uma receita” para garantir um diálogo efetivo, disse à IPS Holm Tiessen, diretor do Instituto Interamericano para a Pesquisa da Mudança Climática, órgão intergovernamental com sede em São Paulo, Brasil. “O que ocorre muitas vezes é que a ciência produz respostas para problemas que ninguém tem. Então, é importante, em algum momento do planejamento e da busca por financiamento (para projetos de pesquisa), falar com as pessoas do campo. Entretanto, não há mecanismos estabelecidos”, ressaltou. “Como órgão financeiro, temos de forçar os pesquisadores a abrir os olhos, a falar, dialogar com os produtores para tornarem sua ciência mais eficiente”, acrescentou. O Instituto financia estudos que incluem mais de um país.

Para Laura, as políticas públicas têm de estar voltadas, com urgência, para a melhoria do conhecimento sobre o clima, fortalecendo as redes meteorológicas, e é preciso difundir esta informação entre as autoridades e os agricultores. Esta base permitirá tomar decisões importantes, como “contratar seguros, usar variedades de curta duração que demandam menos água para enfrentar um período de seca, conservar matéria orgânica no solo para gozar de mais umidade, ou construir estábulos para animais”, entre outras medidas práticas.

O Brasil, por exemplo, lidera o processo de “zoneamento agroecológico”, que define as áreas e temporadas aptas para produzir determinados cultivos. Outros países avançam no manejo de bacias, sistemas de irrigação e gestão de conflitos. “Entretanto, falta muito. A mudança climática é vista como algo muito distante e este é um problema, porque os tomadores de decisão, os agricultores e a sociedade em geral não dão importância à urgência de agir”, concluiu Laura.

 

Envolverde/IPS



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