Comunista precoce

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Vim para São Paulo com 16 anos de idade e arrumei emprego no primeiro lugar que fui procurar, um...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Vim para São Paulo com 16 anos de idade e arrumei emprego no primeiro lugar que fui procurar, um supermercado. Eu sabia que existiam comunistas, mas nunca tinha visto um cara a cara. No supermercado conheci um, o Tião, que falava contra o capitalismo e citava Marx. Era mineiro também, e morava em São Paulo há um bom tempo.
Em 1964, logo depois do golpe de 31 de março, o Tião sumiu. Foi demitido por “justa causa”, por ser comunista, e por sorte não acabou preso. Um dia, já na década de 70, eu soube de um grupo de violeiros muito bom, de Santa Isabel, interior de São Paulo. Fui a um show deles na USP e achei muito interessante: as letras das modas de viola deles eram altamente revolucionárias, ou no mínimo críticas. Uma coisa fora do normal, pois geralmente as letras de músicas caipiras são mais de exaltar o “rei do gado” ou afins do que de fazer críticas. Muitas dessas músicas são bonitas, eu mesmo gosto, desde que não tente ver a coisa pelo lado político. Os violeiros de Santa Isabel eram bem diferentes.
Ouvia com atenção a cantoria deles e me divertia, parecia que estava num troço de ficção. De repente vejo atrás deles um sujeito de chapéu de palha, fumando um cigarrinho também de palha. Entendi tudo. Falei com alguém que estava por perto:
– Só podia ser o Tião!
Fui conversar com ele e foi um reencontro legal. Perseguido pela polícia, o Tião não podia atuar na cidade, mas descobriu o veio do folclore. Estudou bastante e começou a atuar em grupos folclóricos do interior. O grupo de violeiros de Santa Isabel era cria dele. Só podia ser.

Numa festa de congada no interior, Tião conheceu uma moça igualzinha a ele, comunista 24 horas por dia e pesquisadora de folclore. Acabaram se casando.
O Tião estava vivendo de consertar máquinas de escrever (na era dos computadores, tem jovem que nem conhece isso). Passei a levar máquinas pra ele e a indicá-lo para todos os meus conhecidos. Uma tarde fui levar uma máquina à casa dele, na periferia de São Paulo, divisa com Taboão da Serra. Ir lá era um risco para mim: era longe, e eu tinha um fusquinha velho, bem velho, que quebrava com freqüência. O piso do fusca estava podre, e eu dizia que podia empurrar o carro sem sair de dentro dele, pois tinha um buraco embaixo dos meus pés, o que por sinal também era um risco, pois se descuidasse podia bater o pé no chão com o carro em movimento e, no mínimo, ter uma fratura braba.
Fui torcendo pro carro não quebrar, e cheguei numa boa. Ufa! O Tião não estava, eu sabia, mas a Laí­de, mulher dele, não trabalhava à tarde. Bati palmas e ela saiu, puxando pela mão uma menininha toda bonitinha.
– Uai, Laíde, o que você e o Tião andaram fazendo? – perguntei gozando.
– É filha da vizinha. Ela trabalha à tarde e a menina fica comigo.
Falei com a Laíde que estava com uma máquina pro Tião consertar, ela veio até o carro puxando a menina, que tinha dois anos de idade, segundo me disse. Ela e o Tião estavam era fazendo a cabeça da garota desde já.
Enquanto eu pegava a máquina dentro do fusca esbodegado, a Laíde fazia uma espécie de “prova” sobre a politização da pivetinha:
– Olha, bem, ele tem carro. O que ele é?
– Buguês… buguês… – respondeu a menina ainda sem saber falar direito.
– E você… o que você é?
– Opeiaia… opeiaia…
O rosto da Laíde se iluminou, e eu caí na risada sendo chamado de burguês pela pequena “operária”, por ter um fusquinha caindo aos pedaços, que troquei um mês depois por cinco caixas de cerveja.



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