Desafios da economia solidária

Muitas cooperativas já superaram os primeiros obstáculos ao organizar a produção, mas esbarram em problemas como a obtenção de crédito, democratização da gestão e comercialização Por Anselmo Massad e Glauco Faria  ...

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Muitas cooperativas já superaram os primeiros obstáculos ao organizar a produção, mas esbarram em problemas como a obtenção de crédito, democratização da gestão e comercialização

Por Anselmo Massad e Glauco Faria

 

Ainda que tenha havido avanços na redução da desigualdade no Brasil, este continua sendo um dos principais problemas do país, senão o principal. Com a recuperação de uma economia estagnada havia duas décadas, o desafio da inclusão social é algo que se impõe e o papel da sociedade civil será determinante nesse processo. E, dado o recente histórico das experiências realizadas na área social, há muitas possibilidades que podem e devem ser exploradas e potencializadas para gerar trabalho e renda nos segmentos excluídos da população.
Segundo o Atlas da Economia Solidária da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, existem hoje 22 mil iniciativas ligadas à economia solidária, empreendimentos sociais, cooperativas e associações no Brasil. Se, por um lado, essas ações têm se consolidado como alternativas reais de redução da pobreza e da desigualdade, por outro, encontram dificuldades que vão desde o acesso ao crédito até a distribuição e comercialização, passando por questões de gestão e mesmo de cultura de trabalho em conjunto.
“Não temos tradição de empreendimentos associativos econômicos, isso para nós é novidade”, pondera Luiz Eduardo Parreiras, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e um dos palestrantes do II Seminário Fundação Banco do Brasil de Geração de Trabalho e Renda. “A tradição portuguesa, que é nossa grande matriz de modelo civilizatório, não é de associação e participação, mas de autoritarismo. Não temos em nossa cultura o aspecto participativo.”
Segundo Parreiras, contatos pontuais com princípios de cooperação não são suficientes para consolidá-los como alternativa real entre os trabalhadores. “Precisamos desenvolver isso por meio de processos de mobilização e formação que vão durar alguns anos. Não adianta fazer cursos de associativismo se não houver mobilização, uma estratégia durante um horizonte de tempo maior, de forma que a pessoa almeje depois ter essa cultura formada para o futuro”, completa.
Um dos exemplos da mobilização a que o pesquisador do Ipea se refere pode ser visto no Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. Severino Junior, representante da organização, conta que os trabalhadores da área de reciclagem de materiais sentiram a necessidade de “globalizar” a luta e, por conta disso, iniciaram a articulação nacional. Assim, vieram várias conquistas, como o reconhecimento da atividade como profissão pelo Ministério do Trabalho em 2002. “Quiseram modificar o nome para agente ambiental, reciclador, mas preferimos catador mesmo. Se existe um estigma com o nome, temos que superá-lo”, garante.
Severino trabalha com reciclagem de materiais desde os 12 anos de idade em Natal (RN) e, segundo ele, um dos grandes entraves enfrentados pelas cooperativas e associações de catadores é a burocracia para se conseguir financiamento. “Às vezes chegávamos no banco e o gerente dizia ‘mas o fulano está com o nome no Serasa’… Lógico, se ele estivesse bem de vida não era catador”, ironiza.
O ponto abordado pelo representante dos catadores é algo bastante comum a uma série de empreendimentos similares. Para Gilmar Carneiro, diretor da Ecosol, central de cooperativas de crédito ligada à CUT, a legislação vigente inviabiliza expansão das finanças solidárias e a solução de problemas como fluxo da caixa em empreendimentos coletivos. Ele defende que as exigências para as iniciativas de economia solidária sejam diferentes, devendo-se levar em conta o processo educativo e de aprendizado coletivo para lidar com o ciclo operacional e financeiro do empreendimento, assim como o crédito.
Para reforçar a tese, ele citou a experiência idealizada por Mohamad Yunnus, em Bangladesh, de microcrédito voltado para a população pobre. “Na experiência do Grameen Bank, o banco central [de Bangladesh] passava longe”, defende. Para Carneiro, a perspectiva de ter acesso ao crédito é que impulsiona a regularização. “Aproximadamente 90% dos empreendimentos aprendem a se formalizar para poder acessar o sistema dos bancos”, explica.
Se os recursos iniciais são um problema, superada essa etapa surge outra dificuldade: a falta de capital de giro. “Há muitos projetos que garantem o investimento inicial para instalar uma máquina ou equipamentos, mas há resistência em instituições governamentais de garantir capital de giro”, aponta Jorge Streit, gerente de articulação e parcerias da Fundação Banco do Brasil. “Com essa dificuldade em investir em algo em que não se ‘possa pôr uma plaquinha’, muitas vezes essa operação agrava um problema, na medida que as pessoas ficam sem recursos para tocar o negócio”, lembra.
Para Fernando Kleiman, chefe de gabinete da Senaes, algumas medidas podem e devem ser tomadas para facilitar a vida de um empreendimento social como o adiantamento do pagamento da safra no caso de associações e cooperativas agrícolas. “Às vezes não se conseguia preencher os requisitos para se obter acesso ao crédito e a antecipação fez com que houvesse capital de giro para muitos empreendimentos”, explica Kleiman. “O desafio é transformar o crédito em direito, porque ele é fundamental para o desenvolvimento do país”, defende.

Responsabilidade de dono
A falta de tradição em gerir empreendimentos em conjunto, como lembrou Parreiras, é um dos principais obstáculos quando se pretende trabalhar em processos cooperativos. A tentação em querer delegar poder de comando a um ou poucos associados é algo recorrente. “É necessário o controle democrático da gestão, delegar o comando do empreendimento para um líder da comunidade é receita para o fracasso. Pode haver gestores profissionais, mas é importante impedir que um ou outro associado se apodere do negócio e tome conta de tudo”, alerta Parreiras.
Um dos desafios é o processo de aprendizado do trabalhador para que ele se sinta dono do empreendimento. Livânia Frison, da Agência Regional de Comercialização do Mato Grande (Arco), relatou a necessidade de regras para implantar o modelo de fruticultura e criação de tilápia em assentamentos de reforma agrária. “O mamão, por exemplo, é sensível, e é preciso ter disciplina em não deixar para amanhã o que tem que fazer hoje”, defende. Por isso, são estabelecidas multas para quem “marca bobeira” e coloca em risco a produção coletiva. “Não é porque todos são donos que pode tudo”, explica.
O rigor deu resultado no assentamento de Canudos. “Há mais de um ano ninguém é multado porque as pessoas aprenderam a ser donos”, garante. Para ela, o desafio é o de perceber que, mesmo sabendo fazer a sua parte do trabalho, os participantes precisam entender que dependem dos outros. “Não existe saída [de desenvolvimento] que não seja coletiva”, sustenta.

Comercialização Outro entrave para os empreendimentos solidários está na comercialização. Raimundo Pereira, da Central Agroindustrial de Caju do Ceará (Copacaju), contou sobre o impasse por que as minifábricas de extração da castanha-de-caju passaram em 2007. Como a produção é pequena e inconstante, é difícil atender o mercado. Quando perceberam que estavam com estoques cheios, fizeram um esforço para encontrar compradores. O empenho deu resultado, mas depois de vender o que tinham se depararam com outro problema. “Se antes tínhamos estoque sem comprador, agora temos quem compre, mas não temos o que vender”, lamenta.
Segundo Francisco Mazzeu, diretor-executivo da rede de 92 universidades da Unitrabalho, esse tipo de dilema é corrente entre os empreendimentos solidários. No caso da produção agrícola, são três as opções de quem produz. Ficar nas mãos de intermediários ou atravessadores que juntam a produção e levam a outros lugares, ser um feirante que produz e vende ou enfrentar um mercado que não quer comprar, como os centros atacadistas.
“Quem produz, não vende, não podemos debitar na cota dele, porque ou se faz uma coisa direito ou outra”, pondera. Por isso, Mazzeu defende que se capacitem pessoas da própria comunidade – como filhos de agricultores – para se dedicarem exclusivamente a executar estratégias de comercialização definidas pela associação. “Insistir em não qualificar quem vai vender é manter padrões de pobreza, de viver para trabalhar, quando o que queremos é trabalhar apenas o necessário para viver.” F



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