Dores e esperanças de um país em revolução

Depois da queda do ditador Ben Ali, os tunisianos discutem como construir uma democracia que possa assegurar direitos sociais para a população Por Rita Freire, da Tunísia As histórias de jovens que perderam a...

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Depois da queda do ditador Ben Ali, os tunisianos discutem como construir uma democracia que possa assegurar direitos sociais para a população

Por Rita Freire, da Tunísia

As histórias de jovens que perderam a vida nos levantes da Tunísia para expulsar o ditador Zine El Abidine Ben Ali, foram as mais difíceis de ouvir durante a passagem de integrantes do Fórum Social Mundial, entre 1 e 5 de abril, nas cidades de Tunis, Kasserine, Gafsa e Sid Bouzid, lugares que desencadearam e irradiaram rebeldia pelo mundo árabe neste início de ano. A visita solidária ao processo revolucionário do país, que incluiu o campo de refugiados Choucha, em Ras Jédir, fronteira com a Líbia, foi decidida em fevereiro pelo Conselho Internacional do FSM em Dacar.

Nos encontros, organizados pelos Fóruns Sociais Africano, Tunisiano e pela União Geral de Trabalhadores da Tunísia (UGTT), mães e pais cumpriram a tarefa dolorosa de representar, com retratos mórbidos nas mãos, a presença dos filhos assassinados. Conduzem o que consideram a primeira batalha revolucionária: que os crimes contra a juventude não fiquem impunes.

Até outro dia, as pessoas nos retratos eram estudantes navegando pela internet, criando blogs, trocando SMS, e aos poucos ajudando a elevar a voz de uma Tunísia rebelada pelas redes sociais. “Tenho orgulho de meu filho por ele ter usado essas tecnologias para mudar o país”, diz um pai enlutado.Em janeiro, esses internautas passaram das redes às ruas, ajudando a população a driblar a polícia, transferindo sucessivamente as manifestações contra o regime para lugares menos vigiados, por meio de mensagens de celulares. E arriscaram a vida nessa tarefa. Só a cidade de Kasserine tem um saldo 70 de jovens mortos, além de outros tantos ainda presos, feridos e mutilados, como Wael Karrafi, que perdeu a perna direita aos 19 anos.

A senhora Najudaoui segue buscando ajuda para salvar seus filhos. Um deles está internado com queimaduras de terceiro grau. Um outro está preso, foi torturado e acusado sem provas de incendiar uma delegacia, e a pena que deverá cumprir pode chegar a 20 anos. Empregada doméstica e mãe de outros quatro filhos, ela foi espancada ao cobrar explicações da polícia. Exibe as marcas. O filho que está internado pôs fogo em si mesmo, um ato extremo de protesto contra o tratamento dado à sua família. Diante de situações insuportáveis de humilhação, as imolações não são raras nesse país. Na cidade de Sid Bouzid, foi um gesto desses que começou a colocar o país de pé.

Em dezembro, o vendedor ambulante de frutas e legumes Mohamed Bouazizi, de 26 anos, teve sua banca e produtos confiscados. Sendo seu único meio de sustento, em um país sem empregos, o rapaz encharcou o corpo em gasolina e nele ateou fogo, em frente ao gabinete do governador. Os protestos se alastraram: da família para a cidade; dali para o país inteiro. E o regime de Ben Ali veio abaixo.

A Justiça entre dois tempos

Após a fuga do ditador e sua família em 14 de janeiro, a população tenta achar um modo de tornar seu país mais justo e menos opressor, mas esbarra em um sistema de Justiça que ainda funciona segundo a cultura do antigo regime. No final de março, um homem foi preso por ordem judicial anterior à queda de Ben Ali. E instaurou-se um debate na burocracia tunisiana que acabou com a liberação do condenado alguns dias depois. Uma nota na imprensa informou tratar-se de uma prisão política, portanto, sem valor na nova Tunísia. Foi também um sinal de que a polícia ainda não sabe qual mandado antigo deve cumprir ou deixar de fazê-lo.

Vários ex-presos dos porões de Ben Ali, ocuparam, no dia 31 de março, as escadarias de um teatro na Avenida Bourguiba, no centro da capital, para exigir direitos, integrados ao novo momento do país. À frente deles, alguém segurava um megafone, enquanto Fadhi, um jovem ativista, equilibrava um notebook com microcâmera e transmitia os discursos ao vivo pela internet. A cena, impensável meses atrás, não significa que os processos contra opositores já tenham sido revogados.

A região mineira de Gafsa, visitada pelo grupo do FSM, tem uma participação mais antiga nos protestos que chegaram ao ápice na virada de 2011. Situada em uma das regiões mais pobres ao Sul do país, tem, no entanto, a economia local movida pela rica mineração que faz da Tunísia o quarto maior produtor mundial de fosfato.

Em 2008, a poderosa mineradora se reestruturou e reduziu de 11 mil para 5 mil o número de empregados, um desastre social nas cidades de Métlaoui, Redaïef e Moularès. Trabalhadores iniciaram uma revolta que mobilizou a população e provocou violenta repressão. Vários sindicalistas, professores e até apoiadores externos foram condenados. Entre os excessos judiciais de então está um processo criminal contra o ativista Mouhieddine Cherbib, presidente da Federação dos Cidadãos da Tunísia nas duas Margens, ONG de apoio à imigração sediada em Paris. A revisão desse caso está marcada para o final do mês, com vigília de participantes do Fórum Social Magreb (grupo de países ao Norte da África, incluída a Tunísia), que farão uma jornada regional de solidariedade ao povo tunisiano na mesma época.

O protesto dos “diplomados” e o papel da imprensa

Mais de duas dezenas de professores e profissionais formados estão em tendas na Praça dos Mártires, em greve de fome. Do lado de fora, varais exibem cópias dos diplomas que de nada servem na Tunísia deixada por Ben Ali. São advogados, economistas, arquitetos, “os diplomados”, como dizem lá.

É um ultimato ao governo para que apresente uma política contra o desemprego. Mudanças mais profundas no país não devem ocorrer antes das eleições para uma Assembleia Constituinte, previstas para 24 de julho, e ainda sem a confiança da população. A imprensa exibe pesquisas de intenção de voto e 40% das pessoas ainda não escolheram ninguém. As construções partidárias estão em andamento. O primeiro-ministro Beji Caid Sebsi faz na TV discursos visivelmente deslocados do ambiente político de mudança nacional. Desdenha do surgimento de tantos partidos novos, desnecessários do seu ponto de vista. “Ele parece enxergar o mundo em branco e preto, e não entende que precisamos de muitas cores”, diz o professor desempregado Fathi Sagroun.

A economia do país nas últimas décadas esteve inteiramente voltada aos interesses de grandes corporações estrangeiras, e submetida aos abusos da família do ditador. Uma grande quantidade de multinacionais se beneficiou de parcerias com empresas tunisianas, das quais parentes de Ben Ali eram sócios diretos, sugando riquezas. Esses escândalos agora estampam jornais nascidos após a partida da família.

Desde que o governo mudou, 25 publicações, entre jornais diários e revistas, pediram registro. O velho jornaleiro Mohamadi Bea Gadoni, no centro da cidade, viu sua banca se politizar. Ele e seu filho mostram como as críticas abertas ao governo são novidades nas manchetes e conteúdos das publicações, inclusive as mais antigas, como La Presse e Le Quotidien. Durante os dias de revolta, jornalistas tomaram redações e mudaram o discurso da imprensa. O leitor Amep Mimita Ezzeddine aponta o surgimento de um novo jornal quinzenal, o L’Audace. Está em sua terceira edição e esmiuça as relações da família Mabrouk, da filha de Ben Ali, nas parcerias com empresas como a Orange, Geant, Monoprix. São escândalos conhecidos. “As empresas ficaram, mas eles fugiram levando muito dinheiro ”, diz Fethi Ben Ali Dbek, coordenador internacional da UGTT.

Esse alto grau de corrupção contribuiu para que fossem limadas oportunidades de trabalho na Tunísia, especialmente no interior pobre. Estudantes saem diplomados de escolas asseguradas por uma Constituição promulgada antes do período de Ben Ali, que determina o gasto de um percentual do PIB com a educação, mas não encontram emprego do lado de fora. “Queremos trabalho e dignidade”, se diz o tempo todo nas ruas do país.

Criando uma nova cultura

Uma acolhida ao grupo do FSM por jovens das comunidades tunisianas foi organizada pela ONG El Taller. Moças e moços que ajudaram a servir o almoço aos visitantes no jardim tomaram a palavra em seguida. Mostraram diferentes formas de sentir a revolução que estão fazendo. Para alguns, está em jogo a vida política do país, um novo sistema com liberdades democráticas. Para outros, a luta é por acesso ao trabalho e à vida digna, aos serviços públicos.

O lugar onde essa juventude discute e ajuda a construir uma nova cultura política já passou dias cercado pela polícia. Mas conseguiu manter uma rotina de acolhida à resistência, diz um representante da Liga dos Autores da Tunísia. Ele conta que a indiana Corinne Kumar, integrante do Conselho Internacional do FSM e uma das responsáveis pelo espaço, foi várias vezes chamada pelo governo para encerrar as reuniões no local, mas teimou no direito, assegurado por contrato, que a ONG tinha de manter suas atividades, e seguiu forçando o caminho entre policiais plantados do lado de fora.

A Tunísia tateia na organização de suas bases sociais e culturais, por tanto tempo reprimidas. Desde 14 de janeiro, 81 novas associações foram criadas: são voltadas ao desenvolvimento, às artes, à ciência e à cultura. O movimento sindical tenta ser firme como referência no processo de revolução, mas também precisou superar as resistências internas dos primeiros momentos de revolta. É algo que Fethi Ben Ali Dbek relata com tristeza. Até o levante do povo, havia dirigentes acomodados na convivência com o regime. “Fui denunciado como elemento perigoso por apoiar a revolução”, lembra ele. Agora, a UGTT aguarda eleições na central para tentar espantar seus fantasmas.

Nas ruas, os soldados se foram, mas ficaram os policiais, lamenta o professor Yahyaoui Filel, de Sidi Bouzid. Mas ainda se veem tanques na capital, como no dia 1º de abril, quando o governo mandou dispersar uma grande marcha pela avenida Bourguiba, no centro de Tunis. É uma marcha convocada pelos professores, explica Hadgiranri, um participante anarquista.

O início da construção de uma nova Tunísia

A inquietação popular impregna a vida urbana. Qualquer início de discussão política é motivo para que as pessoas se aglomerem. Se as opiniões divergem, o círculo aumenta. Outros vão se formando. E se refazem nos dias seguintes. Esse modo espontâneo de ocupar o espaço público não parece ter sido inventado agora. Como disse Halima Jouini, em um dos encontros da Associação Tunisiana de Mulheres Democratas, “a revolução não nasceu agora, com o Facebook”. Para ela, tudo veio da história do povo, de levantes como o dos mineiros de Gafsa.

Os cafés ao ar livre estão sempre repletos de homens que tomam chás verdes com folhas de menta, um hábito nacional. Ridha e suas amigas passam por eles divulgando aos pedestres um abaixo-assinado para que o pagamento da dívida externa da Tunísia seja suspenso. São cuidadosas em sua tarefa que, se for bem sucedida, pode mudar muita coisa na economia nacional. Em 15 de janeiro, o presidente do Banco Central da Tunísia anunciou a intenção de alocar o equivalente a 577 milhões de euros do orçamento da União para o pagamento do serviço da dívida pública do ano de 2010. A Tunísia precisa desse dinheiro para se reconstruir. Por isso, elas recolhemadesões à causa, nestes locais públicos. Estrangeiros não devem assinar, embora seja uma campanha mundial lançada por ocasião do FSM em Dacar.

Os homens sentados observam as ativistas. Com o tempo, as tunisianas conquistaram direitos, como o fim da poligamia, o direito de voto, e a igualdade no papel. “Mas a mentalidade não mudou”, explica a marroquina Hassania, que vive na Tunísia há mais de uma década e faz parte do Fórum Social Tunisiano. Ela explica que, habitualmente, “as mulheres não se sentam nos cafés”.

As distinções de gênero são evidentes. Rapazes sacrificados pela revolução são “mártires”, motivo de honra para as famílias. As jovens sãochamadas “vítimas”. Os sindicalistas falam de uma ou outra exceção nesse tratamento, mas os palcos de acolhida sindical ao FSM também são essencialmente masculinos, não diferindo do que acontece em ambientes similares na maior parte do planeta. Hassania é otimista. As mulheres tunisianas presentes nesses encontros, quando indignadas, falam alto e forte de onde quer que estejam, desafiando o volume dos microfones.

África refugiada

A última parada da caravana solidária do FSM na Tunísia foi o campo de refugiados Choucha. Ali não se encontramtunisianos nem líbios, apesar de o local estar na fronteira entre os dois países. Os líbios que passam, documentados, seguem diretamente para os centros urbanos, onde se instalam.

Os campos recebem principalmente pessoas que já tinham saído de países em conflito, como a Somália, Costa do Marfim, Eritreia, Iêmen, buscando refúgio no país de Kadaffi. Agora estão novamente de passagem,fugindo mais uma vez de guerras. Quando começaram os ataques militares, estrangeiros começaram a sair. E a Tunísia começou a acolhê-los.

O que precisamos é pouco. São voos para levar as pessoas de volta aos seus países”, diz Besin Ajeti, voluntário da Organização Mundial dos Imigrantes no campo. Mas voos custam caro e não há como embarcar todo mundo. A jovem Alemeneshe Terefe Keno aguarda na fila de um telefone coletivo,via satélite. Ela tenta falar com a família na Etiópia. Muitos não têm para onde voltar. Um rapaz da Costa do Marfim pensa em conseguir trabalho na Europa. Jovens e famílias inteiras habitam as tendas de três campos de refugiados, separados por países e com sonhos parecidos de cruzar o Mediterrâneo em busca de vida nova.

Não se viu em todo percurso da caravana demonstrações de apoio à intervenção militar dos aliados e à intervenção da Otan no país vizinho. A Tunísia se orgulha de ter feito sua reviravolta sem o apoio ou a intromissão dos países europeus ou dos EUA, e são críticos aos ocidentais. “Eles acharam um argumento para destruir a infraestrutura da Líbia e entrar depois, para reconstruir e fazer negócios”, garante o professor Beyaoui Nejib. Ele e seus companheiros no Sul do país sentem que os aliados procuram um modo de continuar controlando a região.

No campo de refugiados, o discurso sobre “proteger o povo”, usado pela França ao lançar as primeiras bombas sobre a Líbia, perde todo significado. Jovens e famílias que fogem dessa mesma guerra são recusados na Europa. O pesado investimento em ações militares contrasta com a falta de ajuda para tirá-los de lá.

Por conta própria, muitos refugiados se lançam à aventura de cruzar o Mediterrâneo em barcos clandestinos rumo à Europa, e não são aceitos. Acuado poruma sucessão de naufrágios e mortes na travessia rumo à Itália, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi teve de liberar a passagem de imigrantes que estavamisolados ao Sul do país, na minúscula Ilha de Lampedusa, para outros países da União Europeia. A França de Sarkozy respondeu raivosa, endurecendo e acrescentando xenofobia à sua política anti-imigração. Seus funcionários estão orientados a exigir de cada africano refugiado a prova de que dispõe de 61 euros para cada dia que quiser ficar no país.

 

Experiências do Brasil podem inspirar a Tunísia

O tunisiano Taoufik Ben Abdallah vive há vários anos na cidade de Dacar. Quando as notícias dos enfrentamentos na Tunísia começaram a se espalhar, ele estava às voltas com a organização do Fórum Social Mundial na capital senegalesa. Integrante do Conselho Internacional do FSM e do Fórum Social Africano, acompanhou de lá a derrubada de Ben Ali e os ventos revolucionários que contagiaram o Norte da África. “Foi muito forte a vontade de estar no meu país e eu não podia”, lembra. A queda de um segundo ditador na região, o egípcio Hosni Mubarak, coincidiu com o último dia do FSM, com participantes de vários países celebrando juntos em Dacar a vitória do povo em festa na Praça Tahrir, no Cairo. “Entendi que não era um momento só. As mudanças estavam só começando.”

Terminado o Fórum, Ben Abdallah assumiu a organização da visita de um grupo de organizações do FSM à Tunísia, conforme proposta aprovada pelo Conselho Internacional reunido em Dacar. Mas além dos contatos solidários, ele também se viu em busca de vias institucionais como alternativa para um amplo campo da esquerda tunisiana. O país prepara a eleição de uma Assembleia Nacional Constituinte, em julho. Enquanto alguns setores do movimento social e sindical pensam na possibilidade de apoiar uma frente para conduzir as mudanças, outros debatem a criação de um novo protagonismo partidário para disputar o governo. Ben Abdallah está entre os que apostam na construção de um partido comprometido com as bases sociais, sindicais e intelectuais para a continuidade do processo revolucionário, e se inspira na criação do Partido dos Trabalhadores brasileiro. Com esse propósito em mente, planeja visitar o Brasil e intermediar contatos.

Confira trechos da entrevista com Taoufik Ben Abdallah.

Fórum – O que você vê em comum entre o Brasil e o momento atual tunisiano?

Taoufik Ben Abdallah – Vejo uma possível troca de experiências, por exemplo, com o PT e a CUT, que tiveram forte papel na transição democrática do Brasil, e também com o atual governo e o anterior, especialmente sobre os últimos anos. Do ponto de vista econômico, o Brasil enfrentou uma crise mundial mantendo sua política social, e a Tunísia também terá de fazer isso com urgência. Por outro lado, o modo como a revolução se deu, desencadeando mobilizações por todo país, pode interessar do ponto de vista estratégico.

Fórum – O que diferencia a revolução na Tunísia dos demais processos?

Ben Abdallah – Do ponto de vista geopolítico, é muito importante o fato de que o povo da Tunísia conduziu seu processo sem intervenção militar externa. A Europa e os Estados Unidos não facilitariam a revolução. Onde França, Itália e Inglaterra impõem suas forças, elas serão parte do jogo depois. É impossível fazer guerra ao lado da França e querer independência depois. Na Argélia, um milhão de pessoas morreram pela independência. Precisamos defender o processo tunisiano.

Fórum – Quais são os grandes riscos?

Ben Abdallah – A Tunísia é um país pequeno. A Líbia e a Argélia não são democracias e exercem grande pressão. Para a Europa e os Estados Unidos já basta o que ocorreu aqui, porque querem ditar o futuro para a região. Sobre os riscos internos, o primeiro é que o partido RCD, da ditadura, volte. Se o desemprego e os problemas sociais aumentarem, o povo pode pensar que a opção anterior era melhor. Isso porque o ditador saiu, mas as pessoas que o apoiavam continuam nas estruturas e podem criar outro RDC.

O outro risco é o fundamentalismo. Se o novo Estado não conseguir dar uma perspectiva para as pessoas e os jovens, elas podem permitir que o fundamentalismo cresça.

Fórum – E quais seriam os ingredientes para uma nova Tunísia?

Ben Abdallah – Uma experiência laica, como está sendo defendida nas ruas (em manifestações que ocorreram um mês após a queda do regime), pode mostrar ao mundo árabe que é possível ter um governo que não seja contra as religiões, mas a favor da sociedade. Além disso, o país teve um período anterior à ditadura de Ben Ali que está sendo revisto. O governo do presidente Bourguiba, primeiro presidente após a independência e a derrubada da monarquia, embora não democrático e conhecido pelo autoritarismo, teve um outro lado, de enfrentamento à colonização e também de modernidade, que promoveu avanços como o fim da poligamia, os direitos das mulheres ao voto e à criminalização da violência. Precisamos resgatar esses elementos da história e promover liberdades democráticas.

Fórum – Com quem será esse diálogo, do lado tunisiano?

Ben Abdallah – Com intelectuais, sindicalistas, pessoas do movimento social, ainda estamos conversando para que um pequeno grupo possa ir logo ao Brasil. 



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