Dossiê Marighella

No mês em que se completam 40 anos do assassinato do líder da Aliança Libertadora Nacional, Fórum escuta testemunhas e personagens centrais dessa história e reconstitui o cenário da morte do comunista mais procurado...

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No mês em que se completam 40 anos do assassinato do líder da Aliança Libertadora Nacional, Fórum escuta testemunhas e personagens centrais dessa história e reconstitui o cenário da morte do comunista mais procurado pela ditadura militar

Por Marlon Maciel e Pedro Venceslau

 

Eram 20 horas do dia 4 de novembro de 1969. Terça-feira. A redação dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde (JT), na Rua Major Quedinho, região central de São Paulo, ainda estava vazia quando alguém da polícia telefona para avisar os jornalistas da morte de Carlos Marighella, líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Caía, aos 58 anos, o comunista mais procurado pela ditadura militar no Brasil. A turma especializada na cobertura policial incluía Antonio Carlos Fon, Percival de Souza, Inajar de Souza e Valdir Sanches. Completavam a equipe os editores Fernando Mitre e Sandro Vaia, além do chefe de reportagem Fernando Portela.

O JT circulava à tarde e, por isso, havia pouco trabalho naquele horário na redação. Na ausência de outros repórteres, José Maria Mayrink, então redator de Internacional no Jornal da Tarde, foi deslocado para a Alameda Casa Branca, nos Jardins, a pedido do editor Marco Antônio Rezende. “O fechamento era feito entre as últimas horas da noite e a madrugada. Exceto uma seção chamada Resumo, da segunda página, que era fechada pela manhã, por volta das nove ou dez horas, quando era possível também fazer alguns acertos nas outras páginas. A maioria do pessoal deixava a redação entre quatro e cinco horas da madrugada e o jornal rodava depois do meio-dia”, conta Mayrink, o primeiro repórter a chegar ao endereço indicado.

Aos 31 anos, o mineiro de Jequeri, que acumulava coberturas como a chegada do homem na Lua, a morte de Charles de Gaulle, a ocupação da República Dominicana pelas tropas da OEA, já se acostumara a situações de conflito. Passados 40 anos, o veterano repórter reconstituiu o episódio em entrevista à Fórum, por telefone, enquanto se recuperava de uma cirurgia feita em agosto, aos 71 anos de idade e 47 de profissão.

Mayrink, que conhecia Marighella “só das fotografias”, partiu às pressas em um carro do jornal, enquanto o Corinthians vencia o Santos no Pacaembu. Foram trinta minutos entre o telefonema e sua chegada no local onde avistou o Fusca, placa de São Paulo 24-69-28. “A primeira cena que vi foi o Volks com as portas abertas. Dava para ver o corpo caído no banco de trás, sangrando pela boca. O quarteirão estava tomado por militares e policiais à paisana. É um lugar em que ninguém se identifica e por isso mesmo me chamou a atenção um homem dizendo ser agente do Cenimar (Centro de Informações da Marinha) e que era deles o mérito de localizar Marighella. Esses foram os detalhes que eu levei para o jornal”.
Essa passagem ele narra em Vida de Repórter (Geração Editorial), livro no qual considerou que esta havia sido sua grande reportagem. “Participei de episódios importantes, mas no JT, na época, foi essa a que mais me marcou. Era a primeira vez que saía para fazer reportagem em São Paulo. Não tenho dimensão do peso das minhas informações no conjunto da cobertura. Uma informação se somava à outra, trazida por outros repórteres”. O detalhe: Mayrink acabava de completar onze meses no JT, depois de uma temporada carioca na sucursal do Jornal do Brasil, na função de redator, o que o obrigava a ficar no jornal “fazendo só trabalho de copidesque ou pesquisa interna”.

Estado de ebulição
Era o auge da luta armada contra o regime militar. A violência se intensificava nas ruas com o sequestro do embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, dois meses antes, no Rio de Janeiro. Dentro e fora das redações, o medo se espalhava. O país mergulhava em um dos momentos mais sombrios da sua história política. Dados da Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil mostram que, entre 1964 e 1980, pelo menos 195 pessoas morreram e outras 129 foram consideradas desaparecidas. Sob a censura da Polícia Federal desde 1968, situação que se agravaria em 1973, o jornal não se viu diante de restrições no caso Marighella. “Porque era a versão da polícia. Não lembro se houve pressão para escrever a matéria, mas sim dificuldades em buscar o outro lado. Escrevi meu relato e passei aos editores”, contou Mayrink.

A notícia foi destaque no dia seguinte. A versão oficial seria mantida pelos jornais: o guerrilheiro morria em um confronto com a polícia durante um encontro com dominicanos, que posteriormente seriam acusados de terem entregado Mariguella. Mas os frades Fernando de Brito e Ivo Lesbaupin não foram apresentados aos jornalistas. “Não fomos apresentados para a imprensa em nenhum momento, nem naquele dia nem nos dias seguintes. Os únicos que estiveram conosco foram os policiais”, afirmou Ivo, preso em 1969, aos 23 anos de idade, e mantido no cárcere até 1973.

A revelação de que o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), sob comando do delegado Sérgio Paranhos Fleury, montou uma emboscada para pegar Marighella apareceria treze anos depois com frei Betto, em Batismo de Sangue (Rocco). Outras contradições sobre as circunstâncias da morte surgiriam mais tarde em perícias que indicaram que o revólver do guerrilheiro não foi utilizado. Em 1996, o professor de Medicina Legal da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nelson Massini, elaborou um parecer médico-legal, a pedido da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio, no qual se concluiu que Marighella foi morto por um tiro no tórax a curta distância, depois de baleado três vezes. “O principal desafio era buscar outras versões além da oficial. Era difícil e dependia da iniciativa do outro lado. Embora tentassem, os jornais não conseguiam a confirmação de fatos. Isso aconteceu não só nos meses seguintes, mas nos anos seguintes. Estamos esclarecendo o caso até hoje, cada vez que se tem um novo depoimento. É assim que se faz história”, considerou José Maria Mayrink.

O trabalho de busca de novas informações, contudo, não bastou para evitar que o jornal fosse criticado pelos dominicanos, que se queixavam de terem sido tratados como terroristas. “Isso aparecia em títulos e manchetes. O jornal transcrevia a posição da polícia, mas não houve esse tipo de orientação; era uma questão de edição. O Estado e o JT sempre manifestaram ser contra a versão da participação dominicana nesse episódio. Embora o jornal tivesse denotado que Dom Hélder Câmara tinha tendência à esquerda, eles eram aliados contra a arbitrariedade e a censura”, comentou o repórter.

Diretor da Escola Dominicana de Teologia de São Paulo, frei Oswaldo Augusto Rezende Jr., de 65 anos, rejeita qualquer outra versão sobre a participação dos dominicanos na luta armada que fosse distinta da apresentada em Batismo de Sangue. Junto com frei Betto, ele foi o primeiro a conhecer Marighella. Logo, se tornaria uma das pontes entre os religiosos e o principal quadro da organização revolucionária. “Está claramente descrito ali. A única versão que vejo é essa. Não só para mim como para todos os dominicanos”.

Em 1969, Rezende se encontrava exilado na França. “Minha comunicação com os dominicanos no Brasil era muito difícil, só sabia o que saía na imprensa. Naquele dia, eu almoçava em Roma com uns italianos interessados em ajudar os dominicanos no Brasil contra a ditadura militar. À tarde, precisava partir para a Suíça e pedi a um desses amigos que verificasse o horário do voo. Quando ele voltou, estava lívido e disse que tinha acontecido algo grave no Brasil”. As rádios acabavam de comunicar a morte de Marighella: “a primeira informação era de que ele tinha sido morto com Lamarca. Desconfiei, eles jamais seriam pegos juntos. Mas quando falaram da Alameda Casa Branca não tive mais dúvida”.

Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, também estava na França. Com a notícia, o número 2 da ALN seguiu para Roma, de onde partiria com Rezende para Cuba. “Estávamos arrasados. Tratava-se de saber o que fazer, e Toledo decidiu voltar imediatamente ao Brasil. Para ele, era uma questão ética tomar a responsabilidade que era dele”, disse o frei. Toledo morreu sob tortura em outubro de 1970, após ser preso em São Paulo.

Apertando o cerco No sábado, 1º de novembro, Toledo e Ivo vão ao Rio encontrar Sinval Itacarambi Leão, então diretor da Livraria Vozes, mas acabam presos no Catete, no domingo, dia 2, e submetidos a 48 horas de tortura. “Imediatamente fomos torturados pelo Esquadrão da Morte, comandado pelo delegado Fleury, no Cenimar, no Rio. Eles achavam que o Sinval fosse nosso contato com Marighella. A tortura foi muito forte. Quando você é preso como contato de Marighella, o negócio é diferente. A única coisa que ele dizia era: �vocês são base-fixa do Marighella�”, relatou Fernando.

Sessões de espancamento e choque elétrico começaram no Rio e continuaram em São Paulo, no Dops, para onde foram levados no mesmo dia. “Houve algo de domingo para segunda. Em São Paulo, ficamos no Dops e eles [investigadores] vão ao convento de Perdizes e prendem todos sem o cuidado de manter a coisa em sigilo. Tanto que frei Betto soube no mesmo dia, lá no Rio Grande do Sul. Na terça, a prisão dos dominicanos já era notícia. Então, vem a pergunta: Por que Marighella foi até o ponto? O que aconteceu? Por que ele não sabia? No Dops, nos disseram que o Paulo de Tarso Venceslau [integrante da ALN e contato dos dominicanos] tinha entregado Marighella. Não acho que houve colaboração. Isso não é importante para mim até porque não foi uma pessoa só que falou, e a tortura é algo sobrehumano. Não acuso ninguém, mas tenho certeza, sem ter provas, de que outras pessoas falaram. Assim como eu falei. Não aguentei. Foi arrancado na tortura. Eu disse que recebia telefonemas de Marighella na livraria . Já Ivo disse que era no convento. Também dissemos números diferentes do ponto na Alameda Casa Branca”, disse.

Ivo Lesbaupin endossa o relato do antigo companheiro. “Houve, entre algumas pessoas da esquerda armada, alguns poucos que achavam que Paulo de Tarso Venceslau era o responsável, pois teria sido através de um papel (com um nome e um telefone) encontrado em sua posse que se teria chegado aos dominicanos. Nós, dominicanos, nunca concordamos com esta acusação. Conhecíamos Paulo antes da prisão e convivemos muito bem com ele durante o período de prisão e depois. É evidente que pessoas são presas a partir de alguma descoberta feita numa prisão anterior, seja com algum endereço ou telefone descoberto, seja sob torturas. Mesmo que tenha sido este o motivo próximo para a repressão chegar aos dominicanos, isto não o torna responsável pela morte de Marighella”, analisa. “Quem matou Marighella foi a repressão. Também alguns dentro da esquerda armada acharam que frei Fernando e eu teríamos colaborado porque a mídia da época divulgou esta versão. Mas esta suspeita durou poucos dias: pouco a pouco as pessoas que conheciam a atuação dos dominicanos foram levantando dúvidas cada vez mais fortes sobre a versão oficial divulgada pela mídia. É preciso lembrar que a ALN, representada por vários dos seus membros presos, nunca aceitou a versão da imprensa, de que tivesse havido qualquer colaboração de nossa parte”, afirmou.

Primeiro a escrever sobre o assunto, frei Betto enfatiza que nem tudo foi contado sobre a morte do comandante da ALN. “Por exemplo, a versão dos seus assassinos, a de quem o induziu a ir à Alameda Casa Branca, a dos agentes da CIA que operavam no Brasil etc. Eu, lá em São Leopoldo , fiquei sabendo no dia 2 de novembro de 1969 que os frades Fernando e Ivo haviam sido presos. Como ele, na capital paulista, ignorou isso até o dia 4?”, questiona.

Terça-feira, dia 4. À tarde, véspera da emboscada, frei Fernando é levado à Livraria Duas Cidades, administrada pelos dominicanos. “Antes de sair já diziam no Dops que o Marighella iria nos procurar. Só eu fui levado. Não levaram o Ivo. Por que só levaram um de nós?”, acrescentou (Fernando, e não Frei Betto, certo? Retomar, para eliminar ambiguidade na frase). Já na livraria, o telefone toca. Fernando atende e recebe a senha “Ernesto”. “Senti que era falso. Não era Marighella. A voz era do delegado Roberto Guimarães. De fato, foi feito um telefonema em nome de Marighella. Ele [Antônio Flávio Médici, da ALN] ligou, alguém da polícia interceptou, conversou com ele e, depois disso, o delegado ligou para mim na livraria. Era para parecer que foi traição, para dar fundamento à imprensa. Eles queriam desmoralizar os cristãos revolucionários, que estavam em ascensão”, comentou Fernando.

No mesmo dia, Fernando é levado de volta ao Dops. De lá, ele e Ivo são algemados e colocados em um Fusca, conduzido por um policial com destino à Alameda Casa Branca. “Fui sentado no banco do carona e Ivo foi atrás. Fomos deixados lá, dentro do carro. Pelo retrovisor, Ivo vê Marighella se aproximar e ser baleado. Somos retirados do carro e jogados no chão. Um terceiro homem é algemado com a gente. Era um policial, que queria ouvir o que conversávamos. Depois, soube que havia outros carros cheios de delegados e investigadores espalhados por lá, mas não posso dizer que houve tiroteio. Era a polícia atirando, atirando”, relatou.

Esgotado e faminto, frei Fernando sentia faltar a percepção. “Eu parecia um zumbi. Estava pairando como se aquilo que eu via e ouvia não me atingisse. Olhando e não vendo. Não estava no meu estado normal”. Acusados de traição, os frades acabam na cela 5, a mesma em que estavam outros 17 integrantes da ALN. “Eles podiam ter nos matado, o que seria um prato cheio para a repressão”, disse Fernando. Aos 73 anos, completados em outubro, há 13 vive ele em Sítio do Conde, antiga aldeia de pescadores e, agora, polo turístico de Conde, município baiano localizado na divisa com Sergipe. Lá, dedica-se ao “diálogo com as religiões, principalmente com o Candomblé” e à Casa de Cultura, fundada por ele, “que procura fazer uma educação de jovens e adolescentes através da arte popular”.

Hoje, o sociólogo Ivo Lesbaupin vive no Rio de Janeiro, onde nasceu. Deixou a Ordem em 1977 e passou a dedicar-se aos estudos em filosofia e teologia, voltados às questões de direitos humanos. Casou-se no início dos anos 1980 com Sarah, com quem tem dois filhos, atualmente com 24 e 19 anos. Professor aposentado pela UFRJ, Ivo exerce a função de secretário-executivo da Iser Assessoria, uma ONG que reúne cientistas sociais e teólogos. “Oferecemos pequenos cursos de formação e também preparamos subsídios para militantes de movimentos sociais, de comunidades de base, de pastorais sociais, onde nos solicitarem no Brasil. A minha parte é a análise da conjuntura nacional, movimentos sociais, poder local”, explicou.

Memória na mesa
A revelação da ligação entre os frades e o movimento armado gerou prejuízos ao Convento de Perdizes, que se viu obrigado a interromper as atividades por 23 anos. Criado em 1943, funcionou como um centro de estudos de São Tomás de Aquino no Brasil até 1970, quando houve as primeiras prisões de membros da Ordem. Entre eles, os freis Betto e Tito de Alencar, dois dos quatro principais contatos com a ALN, ao lado de Ivo e Giorgio Calegari. “Tivemos grandes prejuízos, inclusive financeiros. Pôr alguém aqui era colocá-lo em perigo”, descreveu Oswaldo Rezende.

O trabalho foi retomado nos anos 1990. No último mês de agosto, a Escola Dominicana de Teologia de São Paulo promoveu o colóquio “frei Tito, 35 anos depois”. “Memória do cárcere no tempo da repressão” e “frei Tito e os direitos humanos no Brasil” foram temas debatidos com a participação de Fernando de Brito, Sinval Itacarambi Leão, José Cardogna, frei Betto, Ivo Lesbaupin, frei Oswaldo Rezende e o ministro da Secretaria dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi. “Lembrar isso é preparar o futuro para que os jovens valorizem e trabalhem para melhorar a democracia”, disse o diretor da instituição.

Marighella, hoje

Nascido em Salvador, em 5 de dezembro de 1911, Marighella completaria 98 anos em 2009. Caso ainda fosse vivo, investiria na política atual? Que papel desempenharia? Integraria a base governista no Congresso? Militante pragmático do PT? Ministro do governo Lula?. Na opinião de Fernando de Brito, não seria nada disso. “Ele manteria sua liderança e carisma, e o desejo e a atividade para se ter uma sociedade justa e fraterna, com lugar para os excluídos. Com certeza, estaria militando na política. Não na oposição, como existe agora. Estaria lutando pelo povo. Em todos os casos, teria personalidade própria, por isso, demorou a deixar o Partido Comunista, porque queria que todo o partido tomasse uma posição revolucionária”.

Já frei Betto prefere não fazer exercícios de futurologia. “Não tenho bola de cristal. Já vi, sobretudo nos últimos tempos, ex-militantes de esquerda defenderem Sarney e Collor, como vejo antigos companheiros coerentes com o princípio de que é preciso construir uma sociedade sem opressores e oprimidos. Pela coerência de vida de Marighella, acredito que, hoje, ele estaria na defesa das causas populares e contra alianças eleitoreiras”. Disse ainda não imaginá-lo representando a base de apoio ao atual governo”, embora acredite que ele estaria de acordo que, apesar de tudo, o Brasil e a América Latina são agora melhores com Lula do que sem ele, pelo apoio dado ao Mercosul, à Unasul, ao Banco do Sul, à Alba e, em especial, à soberania de Cuba”, justificou.

“A ação, para Marighella, significava sair da retórica”, diz José Dirceu

José Dirceu conheceu Marighella em 1969, nas reuniões clandestinas em que ele fundou a ALN. Mais tarde, em 1969, foi um dos presos libertados devido ao sequestro do embaixador americano. O ex-ministro deu o seguinte depoimento à Fórum:

“Carlos Marighella é parte da história brasileira. Ele queria uma ação militar e política, uma ampla frente para derrotar a ditadura e tirar o Brasil da independência norte-americana. Não era uma estratégia socialista. Marighella acreditava que a principal tarefa era a libertação nacional e o fim da ditadura, para retomar o fio da história interrompido pelo golpe de 1964. Além disso, pregava a criação de colunas guerrilheiras dentro de uma tática militar de guerra de movimento. Ação, para Marighella, significava sair da retórica e da propaganda e partir para a guerra. Para ele, aquele se opõe à ditadura tem que aceitar a guerra civil como meio de derrubar o regime militar, já que não existe outra saída senão a submissão à ditadura pura e simples, à espera de seu próprio esgotamento. Se estivesse vivo, Carlos Marighella, como qualquer um de nós, poderia estar no PT e participar de governos, seja do PT ou qualquer outro partido, já que era um homem de alianças e de unidade, sempre visando mudanças”.

Líderes da ALN tinham que ser bons na ação
Três dias antes do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, o comandante da ALN, Carlos Marighella, citou Danton para criticar, em uma tribuna de debate, o imobilismo da organização que ambicionava derrubar a ditadura pela via armada: “Audácia, ainda audácia, sempre audácia”. Joaquim Câmara Ferreira, o segundo na hierarquia, ouviu calado. Sem saber de nada, Marighella foi ao Rio de Janeiro no mesmo dia da ação e ficou sabendo dela através dos jornais. Correu, portanto, um risco desnecessário de acabar preso e morto. A decisão de não comunicar o líder ilustra bem o radicalismo dogmático que permeou a mitológica Ação Libertadora Nacional. Foi durante um encontro da Organização Latino Americana de Solidariedade em Cuba, em 1967, que Marigehlla começou a traçar o esboço de uma organização político-militar totalmente compartimentalizada. A ideia era que a direção do grupo não fosse formada por burocratas, mas por militantes aptos a participar de ações armadas. Para crescer dentro da organização, portanto, era preciso saber atirar, explodir, pilotar e articular, não necessariamente nessa ordem. Com núcleos espalhados por vários estados, a liderança central, em São Paulo, dava autonomia tática para ações que fossem organizadas. O sequestro de Elbrick e a morte de Marighella levaram ao desmantelamento da espinha dorsal do grupo, mas a ALN continuou existindo de forma orgânica até 1980, quando foi criado o PT.

Leia mais sobre Marighella em um especial na página eletrônica da Fórum, www.revistaforum.com.br.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro. Nas bancas.



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1 comment

  1. psdbjb Responder

    Conheci Mariguela (numa das reuniões na R.São Vicente de Paula) pois ele morava em apto. que aluguei(e montei) em meu nome na Rua Martin Francisco onde alguns dias após a sua morte limpei quaisquer vestígios dele. O apto. ficou parecendo intacto pois quase não tinha tempo de ir lá até que fui preso pela OBAN e ao chegar lá pedi para ir ao banheiro urinar e com um monte de anotações no bolso do casaco que vestia joguei tudo no vaso, que para meu desespero não tinha agua, e tive com as mãos empurrar tudo……e deu certo. Mesmo assim durante o interrogatório pediram minha identidade que estava na carteira que usava e nela foi  encontrado o recibo de aluguel daquele Atpto. que não batia com o endereço que forneci….vai dai que tive que inventar uma história de que quem morava lá era meu cunhado que por estar separado de minha irmã e isso não poderia ninguem saber pois ele era muito conhecido no Mercado de Capitais (dono de uma Distribuidora de Valores) e já tinha viajado para a Euroopa……Chile….ou Cuba.. e eu fiquei aqui na merda sem emprego sem nada pois trabalhava para ele. Quanto ao Apto. da Martin Francisco os tira e milicos da OBAN nunca descobriram que o Apto. era residido pelo Mariguela e D.Clara


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