Editorial – O ódio como legado

Após o país passar por um processo eleitoral conturbado, em que diversos pontos importantes da pauta política foram deixados de lado para dar lugar a temas morais e de cunho religioso, é importante refletir...

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Após o país passar por um processo eleitoral conturbado, em que diversos pontos importantes da pauta política foram deixados de lado para dar lugar a temas morais e de cunho religioso, é importante refletir sobre os resultados desse verdadeiro embate que se deu não apenas nas campanhas, mas também em outros setores da sociedade e na própria mídia.

Por Revista Fórum

 

 

Após o país passar por um processo eleitoral conturbado, em que diversos pontos importantes da pauta política foram deixados de lado para dar lugar a temas morais e de cunho religioso, é importante refletir sobre os resultados desse verdadeiro embate que se deu não apenas nas campanhas, mas também em outros setores da sociedade e na própria mídia.

Analisando os dados, vê-se que o PT conseguiu ser bem-sucedido nos parlamentos, aumentando suas bancadas na Câmara, no Senado e também nas assembleias legislativas. O PSDB, em que pese a derrota na disputa à Presidência, conseguiu eleger oito governadores, dois nos principais estados do país, São Paulo e Minas Gerais. Porém, teve sua influência reduzida no Legislativo. Já o PSB foi a agremiação cujo crescimento mais se fez notar, com seis governos de estado conquistados, além da ampliação do seu poder no Congresso Nacional.

No entanto, ainda que a oposição tenha sofrido sérios reveses, alguns dos frutos da sua campanha permanecem. E eles aparecem não necessariamente no terreno institucional. Com a radicalização do discurso e a insistência de algumas vozes célebres (e de outras nem tanto) em desancar programas sociais, atribuindo-lhes um cárater de “esmola” com intenção de “comprar votos”, uma verdadeira plêiade de preconceitos veio à tona. Não que estes tenham sido “inventados”, mas o cenário de guerra promovido pela campanha preparou um terreno propício para manifestações xenófobas, entendidas por alguns como mero exercício da “liberdade de expressão”.

Um dos exemplos do espírito beligerante que continuou a vigorar mesmo com as urnas fechadas, foi o próprio discurso em que Serra reconheceu a sua derrota. Ali, ao invés de oferecer apoio e desejar o sucesso da candidata vencedora, como de praxe na política nacional, contribuiu ainda mais para a belicosidade que caracterizou sua campanha oficial e também a não oficial. Termos como “forças terríveis”, “trincheira”, “fortaleza” povoaram sua fala repleta de rancor, que reconheceu na internet um de seus principais campos de batalha e sinalizou que ali “a luta” continuaria. Não se sabe quais serão os termos de tais lutas.

O trabalho da oposição ao governo federal será necessário, como é em qualquer democracia do mundo. E é provável que uma nova direita se organize, fundada em valores não representados, hoje, por partidos políticos que não souberam se contrapor discursivamente a um governo bem avaliado. Nada mais legítimo. Mas que não sejam o preconceito e a intolerância o amálgama a sedimentar a ação desses novos opositores.



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