Editorial – Sobre fatos e versões

Não faz muito tempo os grandes veículos de comunicação davam a seus leitores a oportunidade de conhecer algumas opiniões que se distanciavam de suas linhas editoriais. Intelectuais e mesmo jornalistas de outras tendências ideológicas...

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Não faz muito tempo os grandes veículos de comunicação davam a seus leitores a oportunidade de conhecer algumas opiniões que se distanciavam de suas linhas editoriais. Intelectuais e mesmo jornalistas de outras tendências ideológicas podiam ser lidos nas páginas dos jornalões conservadores. Havia um mínimo de pluralismo ou ao menos as aparências eram preservadas. Hoje, nem isso restou.

Por Revista Fórum

 

Quando essa edição da revista Fórum esta quase pronta para ir à gráfica, ocorreu o episódio envolvendo Maria Rita Khel e o jornal O Estado de São Paulo. A psicanalista foi demitida, segundo ela, por ter cometido um “delito de opinião”. “O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram”, contou em entrevista ao Terra Magazine.

Não faz muito tempo os grandes veículos de comunicação davam a seus leitores a oportunidade de conhecer algumas opiniões que se distanciavam de suas linhas editoriais. Intelectuais e mesmo jornalistas de outras tendências ideológicas podiam ser lidos nas páginas dos jornalões conservadores. Havia um mínimo de pluralismo ou ao menos as aparências eram preservadas. Hoje, nem isso restou.

Se Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais, disse que “na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos”, a velha mídia durante essas últimas semanas das eleições fez o mesmo movimento de radicalização à direita do candidato que tem o seu apoio. Namoram o sectarismo conservador, fuzilam reputações sem obedecer a critérios minimamente jornalísticos e, paradoxalmente, ameaçam a liberdade de expressão que tanto dizem defender.

Além do episódio com Khel, a Folha de S.Paulo obrigou que um site humorístico fosse retirado do ar. O mesmo fazia troça das manchetes do periódico paulistano. Curiosamente, há pouco tempo humoristas faziam protestos iracundos contra uma suposta censura, promovida pelo TSE (e atribuída por muitos, de forma equivocada mas proposital, ao presidente da República) a sua “cobertura” das eleições. Nenhum deles, no entanto, levantou a voz para defender a página eletrônica que ironizava o jornal dos Frias. A indignação foi seletiva.

Essas eleições ficarão marcadas por um comportamento da velha mídia que não pode ser ignorado e que deveria levar a uma reflexão profunda a respeito do papel da imprensa. O mesmo debate de “propostas” pelo qual muitos veículos clamavam que existisse da parte dos candidatos foi obliterado pelo seu pseudo-jornalismo de ocasião. O Código de Ética dos Jornalistas (sim, ele existe) foi vilipendiado inúmeras vezes, mas à velha mídia se reserva esse direito. Ela entende que pode proceder assim e se incomoda com qualquer crítica. E ainda se diz democrática. Quem acredita?



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