Editorial – Violências invisíveis e cotidianas

Os episódios recentes de violência homofóbica que ganharam destaque no noticiário brasileiro certamente surpreenderam algumas pessoas que devem ter se perguntado: de onde vem esse ódio? Por...

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Os episódios recentes de violência homofóbica que ganharam destaque no noticiário brasileiro certamente surpreenderam algumas pessoas que devem ter se perguntado: de onde vem esse ódio?

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Os episódios recentes de violência homofóbica que ganharam destaque no noticiário brasileiro certamente surpreenderam algumas pessoas que devem ter se perguntado: de onde vem esse ódio? Mas, dificilmente, tal espanto poderia levar a uma reflexão outra, que seria algo como “que tipo de contribuição eu dou para que isso aconteça”?

Vivemos em uma sociedade que não respeita a pluralidade sexual e a heterossexualidade estabelece uma ordem hierárquica onde quem não se encaixa no modelo pré-estabelecido é tratado como inferior. O mesmo mecanismo que valeu para legitimar toda sorte de discriminações e preconceitos que a humanidade já assistiu ao longo da sua história.

Mas por que, em pleno século XXI, os homossexuais ainda se veem privados de uma série de direitos, sendo alguns deles os mais básicos? Certamente a homofobia permeia todas as instituições sociais, às vezes de forma sub-reptícia e disfarçada sob um véu de suposta tolerância que só serve para reforçar a exclusão desse segmento. Assim, “permite-se” até que homossexuais possam viver seu cotidiano, contanto que de forma privada, ou melhor, quase clandestina, sem “escandalizar” as outras pessoas.

A naturalização desse tipo de condição é que faz com que o caldo que alimenta todos os tipos de violência homofóbica –  desde aqueles representadas por simples gestos e palavras até os que resultam em agressões físicas e homicídios -, fervilhe e cresça, mantendo-se geração após geração. Uma das evidências disso é que um simples projeto de distribuição de kits anti-homofobia planejado pelo ministério da Educação, destinado a estudantes do ensino médio da rede pública, causa polêmica e reações extremadas contra ele. Talvez, aliás, tenha causado tanto ou mais estranhamento do que a própria violência sofrida pelos jovens na avenida Paulista.

Os movimentos LGBT já conquistaram importantes vitórias nas últimas décadas e hoje a visibilidade de suas reivindicações é muito maior do que outrora. Mas, ainda assim, é preciso trabalhar essas pautas dentro do campo político institucional, que sofreu sérios abalos em função da última campanha eleitoral na qual vicejou o ódio moralista estimulado por interesses mesquinhos, sem que se levasse em consideração os efeitos de a disputa chegar a tal ponto. Agora, o novo Congresso e os novos governos terão que assumir a responsabilidade de discutir o tema e colaborar para que o país deixe de ser o “campeão mundial da homofobia”.



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