Ele não pede mais licença

A história do músico Marcelo Jeneci se assemelha a de outros tantos da periferia do Brasil e também é um pouco do retrato do país que temos construído Por Pedro Alexandre Sanches...

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A história do músico Marcelo Jeneci se assemelha a de outros tantos da periferia do Brasil e também é um pouco do retrato do país que temos construído

Por Pedro Alexandre Sanches

 

“Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz.” Começa com essa frase, aparentemente uma promessa de infelicidade, o álbum de estreia do instrumentista, compositor e cantor paulistano Marcelo Jeneci, de 28 anos. Feito pra Acabar (título que parece uma promessa de finitude) foi lançado no final de 2010 e sopra ar novo na música popular brasileira – na combalida MPB universitária, mas também nos gêneros musicais verdadeiramente populares, que durante décadas foram por ela marginalizados.

Felicidade, a primeira faixa do álbum, não é uma canção de infelicidade, muito pelo contrário. “Melhor viver, meu bem,/ pois há um lugar em que o sol brilha pra você/ chorar, sorrir também/ e depois dançar na chuva quando a chuva vem”, continuam os versos bem mais alegres que tristes dessa parceria com Chico César, que o empregou como tecladista de sua banda quando ele tinha 17 anos. A dualidade entre o medo de ser infeliz e o desejo, maior, de ser feliz, explica muito sobre Marcelo Jeneci e sua música. E sobre a música brasileira dos anos 2000, em geral. E, mais ainda, sobre o Brasil que temos construído.

Não é uma história inédita. Jeneci, músico virtuoso autodidata acolhido por artistas como o paraibano Chico César, o paulista Arnaldo Antunes e a matogrossense Vanessa da Mata, é fruto de história de ascensão social como outras tantas do Brasil contemporâneo. Seu avô paterno trabalhou na zona rural de Pernambuco, onde mais tarde se tornou pedreiro. Mudou-se com a família para a periferia de São Paulo, e seguiu no ofício de pedreiro. Nascido em Sairé, no agreste frio pernambucano, Manoel, o pai de Marcelo, tinha 16 anos na época da viagem. Migrante numa terra de migrantes, tornou-se técnico autodidata em eletrônica, e começou a construir instrumentos musicais, especialmente as sanfonas que amava por causa do “rei do baião”, Luiz Gonzaga, seu conterrâneo.

O pernambucano Dominguinhos, os goianos Zezé di Camargo & Luciano, o paulista To- ninho Ferragutti, o carioca Oswaldinho do Acordeon e inúmeros músicos viraram fregueses de sua oficina, instalada na casa construída no bairro de Guaianases (zona leste de São Paulo) pelo pai de Manoel, onde ainda mora a família – mas não Marcelo, hoje habitante do Alto de Pinheiros, bairro paulistano de classe média/alta.

“Meu pai foi a pessoa mais importante em incentivar o primeiro músico da família”, ele resume um roteiro comum a muitos de seus pares da MPB, mas diferente num detalhe essencial: filho de um Brasil parecido àquele do filme 2 Filhos de Francisco (2005), do brasiliense Breno Silveira, Marcelo não só não oculta suas origens como exibe o maior orgulho delas. Os shows de apresentação de Feito pra Acabar começaram com a projeção de um minidocumentário no qual ele passeia por Guaianases e mostra o mundo de onde veio.

Sanfona redentora 

Embora se afine mais com gêneros de classe média urbana como pop, rock e MPB, seu histórico o assemelha mais aos de artistas e movimentos de periferia que vêm conquistando, em especial ao longo da década que passou, o direito à identidade, ao orgulho e, por que não?, à felicidade. Se fosse emepebista ortodoxo, Marcelo provavelmente ocultaria histórias, marcas e cicatrizes dos anos anteriores à consolidação artística. Do jeito que é, alinha-se mais aos rappers paulistas, funkeiros cariocas, tecnobregas paraenses, lambadeiros matogrossenses, axezeiros baianos e outros criadores periféricos da entrada do século XXI. “Xanadu/ Shangri-La/ Jardim do Éden/ Paraisópolis”, canta, com orgulho e alguma ironia, na segunda canção do CD, a idílica e (repita-se) algo irônica Jardim do Éden.

“Em Guaianases, sempre me senti à vontade. É um lugar de pessoas que convivem e se protegem. Nunca me senti inseguro, a não ser quando saí”, afirma, lembrando que por obra da mãe evangélica cresceu dentro da Igreja do Refúgio, onde começou a tocar órgão, inclusive num grupo de pagode gospel chamado JCV. O percurso incluiu passagens, agora profanas, pelo grupo de pagode Balança Brasil, empresariado pelo paulista Rick Bonadio, e pela banda de forró Peixelétrico.

Cedo, seu Manoel gostava de exibir os dotes musicais do filho à sanfona, para os amigos-clientes-músicos que frequentavam a oficina. Marcelo resistia: “Era à força, eu tinha que ir lá tocar, não queria”. A reviravolta veio quando Toninho Ferragutti, então músico de Chico César, indicou Marcelo ao cantor, que estava precisando de um… sanfoneiro.

Aos poucos, o garoto periférico que nasceu em Aricanduva e cresceu em Guaianases foi forjando uma identidade peculiar, de sanfoneiro pop, que o levou para o centro expandido de São Paulo e culminou em performance endiabrada no DVD Ao Vivo no Estúdio (2007), do paulistano Arnaldo Antunes. “Comecei a perceber que era legal ir assumindo a sanfona”, conta, admitindo uma visão mercadológica por trás da escolha. “Me diziam: ‘Toque sanfona que você vai ter mais trabalho’. Esse foi um dos motivos.”

Em Feito pra Acabar, Marcelo empunha a sanfona já na terceira faixa, o ska-rock com ecos dos cariocas Los Hermanos Copo d`Água. “Quando um não quer os dois não fazem tempestade em copo d’água/ (…) sim, sim, sim, `vamo` ficar numa boa/ você é a pessoa que eu quero pra mim”, diz mais uma letra em busca da felicidade.

A romântica Pra Sonhar e a melancólica Longe (lançada primeiro por Arnaldo Antunes) também se constroem à base de sanfona. Ambas são cantadas pela jovem intérprete paulista Laura Lavieri, presente em quase todo o disco, como a atestar certo grau de insegurança de Marcelo em se assumir como cantor.

“Tenho que me preocupar, porque quando toco sanfona é mais fácil ir para o tango argentino que para o Nordeste”, ele diz, referindo-se à ligação mítica do instrumento com o forró nordestino e com um dos inventores do Brasil musical, Luiz Gonzaga. Pra Sonhar, de todo modo lembra menos o argentino Astor Piazzolla que Dominguinhos, nascido em Garanhuns (PE) e discípulo direto de Gonzagão.

É nítida no disco a influência da MPB, lapidada a partir do contato com Chico César, Arnaldo Antunes e Vanessa da Mata. A voz do ainda tímido cantor tem um quê do paulista Nando Reis, outro do baiano Caetano Veloso. Certos trechos da construção musical de Show de Estrelas e, principalmente, Pense Duas Vezes Antes de Esquecer caberiam num disco rock-tropicalista-paulista dos Mutantes.

“Diante da visão do firmamento/ um pensamento vem ao coração/ de que cada um de nós não é senão uma estrela/ a brilhar no céu do chão”, canta Show de Estrelas, ecoando a versão tropicalista dos Mutantes para o clássico Chão de Estrelas, dos cariocas Orestes Barbosa e Silvio Caldas, mas trazendo o imaginário pós-internet, quando cada fã se conscientizar de que pode, ele próprio, ser uma estrela no céu do chão.

A referência a Caetano é óbvia em Quarto de Dormir, que evoca de perto a versão do baiano para o hino “cafona” Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, do mineiro Fernando Mendes. Mas essa balada dramática e ultra-romântica (menos na letra que na melodia) é bem mais complexa, e atesta a cândida constatação de Marcelo, de que “eu sou uma esponja”. Ao piano, ele elabora um híbrido grandiloquente de Caetano, Fernando Mendes, o Guilherme Arantes de Meu Mundo e Nada Mais, o Roberto Carlos de Desenhos na Parede e Detalhes, o Erasmo Carlos de Meu Mar e Mesmo Que Seja Eu.

Pianistas e paulistas, Marcelo e Guilherme têm muito em comum, inclusive as letras felizes e abundantes na referência à água, em suas mais diversas variantes, da chuva à lágrima. Guilherme cantou Planeta Água e Deixa Chover; Marcelo canta Copo d`Água e Tempestade Emocional (“vai chover dor”, “vai chover desilusão”). “Espero a chuva que não quer cair”, impacienta-se em Quarto de Dormir.

É fácil constatar que o desejo de água corresponde, em grande medida, à vontade de felicidade – e de emoção, algo que a MPB universitária relutou em oferecer em tempos recentes. Os emotivos arranjos de cordas de parte das faixas de Feito pra Acabar ficaram sob responsabilidade do veterano Arthur Verocai, ex-arranjador da Globo e de discos de veludo de seus conterrâneos cariocas Erasmo Carlos (Carlos, Erasmo…, de 1971), Jorge Ben (Negro É Lindo, 1971), outro notório fazedor de chuva em forma de música.

As cordas (sobretudo em Quarto de Dormir e na faixa-título, que encerra o disco) aproximam bastante Marcelo do romantismo exacerbado do capixaba Roberto Carlos, outro dos grandes ídolos de seu pai, daqueles que pedem água sem mencioná-la explicitamente, como o porta-voz da seca Luiz Gonzaga. Certa vez, quando Marcelo era pequeno, a família Jeneci voltava de uma de muitas viagens muambeiras ao Paraguai, quando o ônibus foi parado pela polícia. Conversa vai, conversa vem, o menino foi convocado pelos policiais a provar que sabia tocar o teclado que levava em mãos. Ele provou. Tocando Detalhes, de Roberto e Erasmo.

“A chuva é a vontade do céu de tocar o mar/ e a gente chove assim também quando perde alguém/ mas quando começa a chorar começa a desentristecer/ assim se purifica o ar depois de chover”, diz uma canção ainda não gravada de Marcelo, que faz grande sucesso nos shows e seu pai acha muito parecida com algo de Guilherme Arantes.

O desejo de chuva, liberdade e felicidade de Marcelo parece corresponder a um processo de descoberta de si próprio, comum a ele, a meninos de periferia Brasil afora e ao próprio Brasil, que por oito anos encontrou exemplo cotidiano maior a falta de vergonha (ou melhor, o orgulho) de si mesmo do retirante ruralista pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva.

Jeneci relata esse tipo de sentimento ao falar sobre a conquista do disco próprio: “É como se eu estivesse parando de pedir licença, tá ligado? Antes eu chegava todo cheio de dedos, ‘essa música eu fiz com fulano’. Toda música eu falava o nome dos parceiros, sempre me tirando da história. Era minha vergonha de mostrar que aquilo era meu também. O reconhecimento é importante para desencantar”. A vontade de ser feliz, por vezes, é tão simples (e complexa) como o mero desejo de existir.

Em 1937, a lua do Orestes Barbosa de Chão de Estrelas furava o telhado de zinco do barracão, salpicava-o de estrelas e obrigava uma musa inatingível dos morros “malvestidos” a pisar nos astros, distraída e sem saber da ventura desta vida. Em 2010, o Show de Estrelas de Marcelo Jeneci transforma cada um de nós em musa-estrela a pisar no céu de um chão idílico (e irônico) em que ninguém é sem-chão, sem-teto ou sem-terra. Em momentos como esses, Marcelo Jeneci e sua música poderiam se chamar Guaianases, ou Paraisópolis. Ou Brasil.



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