“Esse cara está no New York Times”

Chico Mendes fazia do seu relacionamento com a mídia uma forma de se proteger e também de divulgar denúncias sobre o que acontecia no Acre. Mesmo assim, a grande mídia nacional ignorou sua importância até a sua morte

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Chico Mendes fazia do seu relacionamento com a mídia uma forma de se proteger e também de divulgar denúncias sobre o que acontecia no Acre. Mesmo assim, a grande mídia nacional ignorou sua importância até a sua morte

Por Cristina Uchôa e Glauco Faria

Em 1988, quando o advogado Genésio Natividade contava para um amigo que fora convidado para reforçar a equipe do Instituto de Estudos Amazônicos no Acre, ouviu em resposta um surpreso “nossa, você vai defender esse cara importante, que está até no New York Times?”. O “cara importante”, Chico Mendes, tinha adquirido esse status por ser presença assegurada nas mídias mundo afora. Antes de 1988, já tinha sido personagem de dois documentários internacionais e seu nome circulava entre redações de todo o mundo associado aos movimentos verdes, que haviam escolhido uma figura local para personificar a bandeira da defesa da Amazônia.

No entanto, a imprensa brasileira não dava o devido destaque ao líder seringueiro, com algumas exceções. O único documentário nacional sobre ele, por exemplo, foi feito em 1988 pelo jornalista Edílson Martins, um dos poucos a enxergar no sindicalista uma figura apropriada para perfis e grandes entrevistas. Em dezembro daquele ano, Edílson estava no Rio de Janeiro e aproveitou uma passagem de Chico Mendes por lá para fazer uma longa entrevista. Era a célebre conversa em que o acreano afirmava: “quero ficar vivo para salvar a Amazônia”, apesar de saber que as ameaças a sua vida tendiam a se concretizar naquele período de festas.

Feita em 8 de dezembro, aquela seria a última entrevista de Mendes, e estava prevista para ser publicada pelo Jornal do Brasil (JB) no dia 18, um domingo. Contudo, perdeu seu lugar para outro material de maior “importância”. Saiu apenas no domingo seguinte, 25 de dezembro, depois da morte do entrevistado. “Encontrei com o Chico em Rio Branco, numa banca de jornal no domingo antes dele morrer; ele disse que estava atrás do Jornal do Brasil porque era para sua entrevista sair naquele dia, mas não tinha saído nada”, conta o jornalista acreano Altino Machado.

Edílson Martins conta que um dos motivos que o levou a querer publicar a entrevista com Chico foi justamente o fato de ele estar sendo ameaçado de morte. “Saí da minha casa no sábado no fim da tarde para comprar o JB de domingo, abro o jornal, vejo que a entrevista não saiu. Pensei: ‘fodeu, o cara vai morrer’”, relembra. Ele conta ainda ter ligado para o jornalista Zuenir Ventura, que trabalhava no jornal àquela época, para saber por que a entrevista não havia sido publicada. “Ele me disse que o pessoal de lá tinha achado que eu queria ‘politizar’ a ecologia. Depois da morte do Chico, exigi que a matéria fosse publicada em página inteira e o Roberto Pompeu [hoje colunista de Veja] topou.”

Mas a atitude tomada pelo diário carioca, negando espaço ao líder seringueiro, foi algo absolutamente comum entre os veículos à época. Altino Machado, então correspondente de O Estado de S.Paulo, conta que o jornal também ignorou a morte de Chico. Depois de passar mais de um mês usando telex de repartição pública para enviar notícias à redação paulista, o jornal tinha finalmente lhe mandado um próprio, instalado no dia do assassinato. “A Embratel instalou e os funcionários saíram às quatro horas da tarde de casa. Eram 19h30 quando meu pai me ligou e deu a notícia da morte do Chico. Liguei pra duas pessoas para confirmar e fiz um relato grande sobre ele. O Estadão ignorou, mas o Jornal da Tarde deu algo como ‘Assassinado herói da Amazônia’. Só depois que o NYT publicou uma matéria sobre a morte dele, o jornal se interessou pela pauta.”

Assessor de imprensa de si mesmo

Se a morte de Chico Mendes foi notícia em The New York Times, The Washington Post, Boston Globe, The Independent, The Guardian, Daily Telegraph e tantos outros jornais estrangeiros, muito dessa repercussão se deve à relação que o próprio seringueiro, com ajuda e sugestões de muitos assessores e articuladores, construiu como fonte com os repórteres desses jornais.

De acordo com relatos de Gomercindo Rodrigues, assessor e amigo de Chico Mendes, ele tinha (ou adquiriu) o hábito de anotar tudo o que fazia e as situações, principalmente de ameaça, pelas quais passava. Altino Machado corrobora: “Ele anotava tudo que presenciava na agenda. Quando a pessoa já vem com os dados para um repórter, isso facilita bastante”. Ele conta outro episódio que exemplifica a importância do hábito do seringueiro. “Uma vez ele disse que ia dar uma palestra na Universidade Cândido Mendes e me deu a íntegra do que ia falar. Ainda tirou uma fotocópia e pediu pra entregar também para a Gazeta do Acre.”

Por conta disso, não só a polícia, por meio de registros oficiais, mas todos os meios de comunicação do Acre estavam muito bem informados sobre as ameaças reais que Chico Mendes vinha sofrendo. Mas boa parte das notícias possivelmente não era divulgada porque alguns veículos acreanos eram de propriedade de um ou outro fazendeiro ou mantinham relação com eles. João Branco, então presidente da União Democrática Ruralista (UDR) estadual, era um dos donos do jornal O Rio Branco, e descrevia sem rodeios o tratamento dispensado àquele que considerava seu inimigo. “Tiramos o Chico Mendes de circulação. Não foi só ele, ele e o bispo local, cuja política não interessa à nossa linha empresarial”, disse candidamente à documentarista Miranda Smith. Ele explicava a conduta, ainda, em seu depoimento para o filme. “Eles pregam a socialização (sic) e nós pregamos a livre iniciativa. Não vou dar espaço nem matéria para esses dois senhores.”

No entanto, o seringueiro não desistia. No próprio domingo, a quatro dias de sua morte, entregou a Altino Machado um de seus relatos. Na viagem que acabara de fazer até Rio Branco, recebera ameaças de Darly Alves, devidamente anotadas, com registro de local, data e hora. “Chico percebeu que repassar informações e fazê-las serem divulgadas podia ser uma forma dele se proteger, que a construção de uma imagem pública poderia até atrasar a sua morte”, avalia o advogado Genésio Natividade.

Provavelmente era essa a estratégia encontrada por diversos ambientalistas que levaram Chico Mendes para fora do Brasil e fizeram dele uma das principais figuras do país ao se tratar de Amazônia. No entanto, talvez o ímpeto de colaborar com a mídia e consigo mesmo pode ter involuntariamente ajudado um dos seus algozes. Uma das notícias que liberou em primeira mão para uma jornalista da Folha de Londrina, em setembro de 1988, foi o fato de que ele e o advogado Genésio haviam acabado de confirmar que Darly Alves e seu irmão Alvarino tinham ordem de prisão decorrente de uma condenação por homicídio no Paraná.

Genésio e Chico Mendes levaram para o Acre a carta precatória que decretava a prisão de Darly. Antes de ser preso, no entanto, o fazendeiro soube que receberia a ordem e sumiu. Se foi esse o estopim que levou o fazendeiro a planejar o assassinato, como muitos acreditam, é bastante plausível que o modo como ele conseguiu se livrar da prisão para praticar o crime tenha sido essa notícia de jornal, que levou um parente seu no Paraná a lhe fazer um telefonema e avisá-lo. Ainda hoje há quem ache que a própria Polícia Federal tenha vazado a informação da ordem de prisão a Darly, como o juiz do caso Adair Longuini, que retomou suas considerações sobre o caso em julho deste ano, em uma entrevista a Altino Machado. No entanto, o furo da Folha de Londrina, proporcionado pelo próprio Chico Mendes, serve de álibi até para essa possível corrupção.

Mas uma das questões que fica é saber se, caso a luta do líder seringueiro tivesse tido mais repercussão na imprensa nacional ou se a mesma tivesse compreensão da real importância de Chico, seus assassinos teriam mais receio em executá-lo. De qualquer forma, o fato da mídia não ter feito naquele momento a cobertura necessária privou muitos de conhecerem a história de um dos grandes lutadores brasileiros. Que a justiça seja feita, ainda que tardiamente.



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