Eu, Ciborgue

Outro dia, conversando sobre feminismo, uma amiga perguntou: mas precisamos ainda de cartilhas ou ideários que nos apontem caminhos para a liberdade? Por que são necessários livros e textos que reafirmem, década após década...

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Outro dia, conversando sobre feminismo, uma amiga perguntou: mas precisamos ainda de cartilhas ou ideários que nos apontem caminhos para a liberdade? Por que são necessários livros e textos que reafirmem, década após década que nós, seres humanos, todos, temos direito a oportunidades iguais?

Por Vange Leonel

 

Outro dia, conversando sobre feminismo, uma amiga perguntou: mas precisamos ainda de cartilhas ou ideários que nos apontem caminhos para a liberdade? Por que são necessários livros e textos que reafirmem, década após década que nós, seres humanos, todos, temos direito a oportunidades iguais? Conceitos básicos iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade já existem há mais de duzentos anos. Por que, em pleno século 21, ainda é preciso lembrar à cidadã e ao cidadão que eles podem, pelo menos, tentar cortar algumas amarras?

Respondi com duas enormes palavras e um pouco de drama: há milênios, heteronormatividade e patriarcado estão inscritos a sangue em pedras pesadas que parecem imóveis. Para enfrentar, dissolver e dinamitar essas pedras são necessários muito treino e irônicas brincadeiras de desconstrução. Este exercício infindo e diário de implosão de máximas patriarcais tidas como verdades absolutas se chama (ao menos pra mim) feminismo.

Muitos se equivocam, entretanto, julgando o feminismo um movimento só. Não poderiam estar mais enganados. São muitos os feminismos, pois a vida acabou ensinando a algumas mulheres que a cooperação descentralizada (principalmente na Era Digital) acaba se mostrando mais eficiente e justa que sistemas rigidamente hierarquizados.

Após anos de ativismo lesbofeminista, encontrei um corpo teórico robusto no feminismo ciborgue de Donna Haraway. Em seu “Manifesto Ciborgue”, a autora traça um ótimo roteiro para implodirmos aqueles dois palavrões supracitados e, junto com eles, mais uma farta lista de falsas assimetrias que emperram nossas vidas.

Para Haraway, a imagem do ciborgue ajuda a sustentar dois fortes argumentos em seu ensaio: sua natureza híbrida e quimérica demonstra que “a produção de uma teoria universal e totalizante é um grande equívoco, que deixa de apreender – provavelmente sempre, mas certamente agora – a maior parte da realidade”. Em segundo lugar, para assumirmos a responsabilidade pelas relações sociais (ciência e tecnologia incluídas) teremos, necessariamente, que recusar “uma metafísica anticiência, uma demonologia da tecnologia e, assim, abraçar a habilidosa tarefa de reconstruir as fronteiras da vida cotidiana, em conexão parcial com os outros, em comunicação com todas as nossas partes”.

Por fim, a imagem do ciborgue, por não ter sexo, espécie, gênero ou gênese, serve para dinamitar dicotomias estanques e falaciosas que sempre estiveram na base de toda relação de poder. Macho e Fêmea, Corpo e Mente, Sexo e Gênero, Natureza e Cultura, e assim por diante.
Para Haraway, “a imagem do ciborgue pode sugerir uma maneira de sair do labirinto dos dualismos por meio dos quais explicamos nossos corpos e nossos instrumentos a nós mesmos”. A filósofa não acredita numa linguagem que seja comum a todos, mas propõe uma heteroglossia, ou em suas palavras, um “feminismo falado em várias línguas para incutir medo nos circuitos dos super salvadores da direita. Significa tanto construir quanto destruir máquinas, identidades, categorias, relações, espaços, histórias”.

Outra grande lição desta feminista marxista é a frase lapidar que fecha seu ensaio e que pintarei em minha parede: “eu prefiro ser ciborgue a ser uma deusa”.

E-mail: vangeleonel@uol.com.br



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