Fundamentalismo à brasileira

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Dois ditados: “Lei, no Brasil, é igual vacina: umas pegam, outras não” e “Criar dificuldades para vender facilidades”. Eu...

313 0

Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Dois ditados: “Lei, no Brasil, é igual vacina: umas pegam, outras não” e “Criar dificuldades para vender facilidades”.
Eu me lembro de quando Maluf era prefeito de São Paulo e criou uma lei proibindo o fumo em qualquer bar ou restaurante. Muitos não-fumantes vibraram e até denunciavam pessoas que fumavam nos bares e restaurantes. E fumantes em estabelecimentos eram multados.
Eu, ex-fumante mas não militante antitabagista (gente às vezes mais chata do que fumante), me perguntava: por que não fazer funcionar a lei que existia, separando de verdade a área de fumantes da de não-fumantes? Simples, não? Mas o próprio prefeito argumentava, como se fosse um campeão da defesa dos trabalhadores: e os garçons? Eles seriam fumantes passivos, sujeitos a doenças do mesmo jeito. Não passava pela cabeça dele que podiam ser contratados garçons fumantes para essas áreas.
Outro motivo pelo qual eu era contra: lei assim pode ser o início de uma escalada fundamentalista. Primeiro, a lei anti-fumo, com a desculpa da saúde da população. Pode vir outro que não bebe e criar lei contra o consumo de bebida alcoólica, pois álcool também faz mal (o que varia de pessoa para pessoa). Depois, pode vir um vegetariano dizendo que carne faz mal à saúde, depois alguém que diz que o povo vota mal…
Bom, o certo é que a lei, passado o radicalismo dos primeiros momentos, como certas vacinas, não pegou.
O outro ditado eu pensava que estava em processo de extinção, desde que fui renovar meu passaporte, há uns três anos. Fiquei na fila, uma funcionária jovem, lá de longe, achou que eu já estava na idade de ter o direito a atendimento especial (que horror!, olha eu na “terceira idade”) e pediu a um guarda que me avisasse que eu não precisava entrar na fila. E fui otimamente atendido. Fiquei surpreso. E depois fui bem atendido em outros serviços públicos. Então, passava a fase daquela história de ser tudo complicado no serviço público, para que você se visse obrigado a contratar um despachante que sabia o caminho das pedras, ou você mesmo “dar algum”…
Pois agora vejo aí uma coisa chamada de “Lei Seca”, federal. Álcool é perigoso no trânsito? Sim, em excesso é. Mas o que a gente vê não é só o álcool como causador de tragédias. A benevolência da Justiça com certos infratores é impressionante. Na década de 90, um filho de um ministro dirigindo bêbado, com o pai dentro do carro, sobe na calçada, mata um trabalhador, foge… e qual é sua condenação? Dar uma cesta básica para uma família pobre.

Em São Paulo, diversas pessoas foram pegas este ano trafegando a mais de 100 km/h na contra-mão em rodovias movimentadíssimas, e o que aconteceu com elas? Foram pegas, passaram pela delegacia e foram liberadas.
Uma vez, há anos, em um racha na zona Leste, em São Paulo, um menor de idade subiu na calçada e matou várias pessoas. A mãe dele foi chamada e, no próprio local do acidente, dizia que o coitado do filho podia ficar traumatizado “só porque” matou uns pobres. E dizia para o filho: “Não ligue, que esse pessoal não era gente, era animal”. Ninguém foi preso.
E o rigor dessa Lei Seca (como é que alguém que se preza faz uma lei com esse nome que remete ao gangsterismo?) permite supor que se alguém dirigindo feito louco, mas sem beber álcool, atropelar e matar gente e no mesmo momento e local alguém estiver dirigindo “normalmente”, mas tiver bebido dois copos de vinho e os dois forem pegos pelos mesmos policiais, o que matou gente no trânsito vai embora, enquanto o que bebeu vai em cana, se não tiver dinheiro para pagar fiança. Outra discriminação da lei: rico se safa, pagando.
Então não seria melhor uma ação mais correta da Justiça nesses casos? Não… O negócio é multar e tomar carteira de quem tomou duas taças de vinho. Ou a gente se livrar dessas dificuldades comprando facilidades, não é? F



No artigo

x