Gastronomia militante

Movimento Slow Food defende um modo de produção sustentável dos alimentos, com a valorização de produtores locais, dos saberes tradicionais, da biodiversidade e práticas da agroecologia Por Adriana Delorenzo...

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Movimento Slow Food defende um modo de produção sustentável dos alimentos, com a valorização de produtores locais, dos saberes tradicionais, da biodiversidade e práticas da agroecologia

Por Adriana Delorenzo

 

Comer é mais do que buscar saciedade, pode ser também um ato político. Em visita ao Brasil, o italiano Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, defendeu essa nova gastronomia, que valoriza a produção sustentável dos alimentos, o respeito aos saberes tradicionais e à biodiversidade. Segundo ele, a partir da escolha dos alimentos é possível contribuir para a construção de um mundo melhor.

À primeira vista, a filosofia Slow Food pode parecer simplesmente uma cartilha que prega um comportamento individual em que as pessoas, mesmo engolidas pela velocidade do dia a dia, deveriam fazer suas refeições com tempo. Mas o movimento questiona todo o modo de produção atual dos alimentos, que estariam reduzidos a mercadorias produzidas em larga escala, ou seja, como se fossem, por exemplo, uma televisão ou um automóvel. Indícios dessa relação são o uso excessivo de fertilizantes, pesticidas, os alimentos geneticamente modificados e animais induzidos a crescer na metade do tempo que levariam naturalmente.

Enquanto isso, a população tradicional do campo que utiliza métodos mais sustentáveis migra para as periferias das cidades por não conseguir “competir” com grandes multinacionais do setor agroindustrial.
“O sistema alimentar é o principal responsável pela destruição do planeta”, sustentou Petrini em palestra no Centro Universitário Senac, em São Paulo, no final de março. Na ocasião, os estudantes do curso de Gastronomia eram boa parte do público presente. A afirmação é justificada por conta dos efeitos nocivos que a industrialização e a globalização da produção alimentícia provocam.

Além da poluição dos solos e lençóis freáticos e da perda de biodiversidade, entre outros danos ambientais, Petrini citou dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) que mostram que a produção alimentar atual é suficiente para 12 bilhões de pessoas e, mesmo assim, um bilhão passa fome. “Mais da metade do que produzimos jogamos no lixo”, destacou. “Isso é determinado por um sistema onde conta somente o preço.”

Em seu novo livro Slow Food – princípios da nova gastronomia (Editora Senac), Petrini ainda diz que estamos diante de um genocídio cultural sem precedentes. Ele apresenta o balanço final da chamada “Revolução Verde”, iniciada após a Segunda Guerra Mundial, patrocinada pelo Banco Mundial: “danos desmedidos aos ecossistemas, aumento da quantidade produzida – que, no entanto não solucionou o problema da fome e subnutrição – e perdas sociais e culturais incalculáveis”.

Para ele, se naquela época a principal preocupação era com a quantidade de alimentos, hoje o ponto crucial é a qualidade. Trata-se de um conceito complexo porque inclui questões ambientais, de gosto e dignidade humana.

Bom, limpo e justo

O gastrônomo narra em seu livro diversas situações que o fizeram perceber os “paradoxos da agroindústria combinada com a globalização”, que acabou dando origem ao movimento. Entre elas estão exemplos de situações onde tradições culinárias locais foram perdidas e variedades de frutas e legumes deram origem a monoculturas. Em outras situações, camponeses deixam as zonas rurais, pois a agricultura familiar, sem apoio, não consegue se sustentar. Perdem as terras e conhecimentos milenares são apagados.

Pensando em tudo isso, o movimento Slow Food busca resgatar a conexão do campo com a mesa. Em sua palestra, Petrini defendeu o retorno à terra e a devolução do alimento ao seu lugar central. “Comer é um ato agrícola”, diz. “Agricultura e ecologia devem ser uma coisa só, e ambas se combinam na gastronomia”, defende. Ele considera a agroecologia o verdadeiro caminho em direção a um futuro sustentável.

Para Petrini, quem trabalha com alimentação tem obrigação de considerar todo o percurso de sua matéria-prima na hora de preparar as refeições. O Slow Food indica três critérios a serem seguidos na hora da compra: o alimento deve ser bom, limpo e justo. “Vocês são muito mais do que cozinheiros, são sujeitos que podem interferir nas ações sociopolíticas”, disse. O Slow Food considera que o consumidor passa a ser um co-produtor.
O primeiro conceito, de “bom”, segundo o movimento, refere-se ao sabor, o prazer de consumir alimentos que agradem ao paladar. Para explicar esse conceito, Petrini desmistifica a ideia de que a gastronomia seria apenas uma arte de cozinhar alimentos, patrocinada pelo vício de uma pequena burguesia. Para ele, a gastronomia e o prazer de um bom alimento devem ser direito de todos. Além disso, defende o respeito à diversidade gastronômica, que garante a cada comunidade ter gostos e costumes próprios.

O conceito de “limpo” faz alusão ao meio ambiente. O alimento limpo será aquele que não causa danos ambientais, seja na produção ou em seu processamento e até no transporte utilizado para chegar ao consumidor. O Slow Food defende a compra de alimentos de produtores locais e diretamente com eles, ou seja, sem atravessadores. Uma das atuações do movimento é justamente dar apoio a esses produtores, criando-se uma rede e incentivando a economia solidária. Petrini esteve no Brasil em março para o encontro do Terra Madre, realizado em Brasília. Trata-se de uma rede mundial que reúne pequenos agricultores e produtores.

Já o “justo” aponta para o consumo de alimentos produzidos por pequenos produtores locais, ou seja, considera a justiça social. De acordo com Petrini, em seu livro, isso implica em buscar alimentos produzidos de formas alternativas ao agronegócio. De acordo com ele, feiras e mercados que se dedicam à venda desses produtos devem ser incentivados e o idela é usar a criatividade. “Por que não formar um grupo de compras juntando dez famílias para comprar direto do produtor?”, sugere.

Movimento no Brasil

Fundado em 1989, o Slow Food tem, atualmente, uma rede de 100 mil associados voluntários em 150 países. Eles se reúnem em um convivium, que são grupos locais. No Brasil, há 20 conviviuns e cerca de 600 associados. “São pessoas que se reunem voluntariamente para difundir o movimento conforme a realidade local”, explica Carlyle Vilarinho, líder do convivium de Brasília. Segundo ele, no caso de Brasília, a atuação é mais política. “Posicionamos-nos em algumas questões fundamentais, como os transgênicos”, comenta.

Carlyle ressalta a diversidade regional brasileira, onde a população do cerrado tem hábitos alimentares diferentes do pantanal e da Amazônia. Na Ilha de Marajó (PA), por exemplo, o camarão faz parte da merenda escolar das crianças. “A intenção é que isso seja reconhecido e valorizado localmente.” Na capital federal, o líder destaca que muitos chefes de cozinha têm participado do movimento levando sua cultura aos restaurantes, procurando comprar de pequenos produtores.

Conforme diz Cênia Salles, líder do convivium de São Paulo, o Slow Food é um movimento gastronômico, cultural e social. Entre as ações estão o resgate de receitas tradicionais e o catálogo Arca do Gosto, que elenca os alimentos em risco de extinção, como o fruto cambuci, que já não se encontra no bairro de mesmo nome na capital paulista. O convivium de São Paulo apoia os pequenos produtores do estado e na lista estão 14 quilombos e algumas reservas extrativistas. “Se não apoiarmos os pequenos agora, no futuro não teremos essa escolha”, resume.



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