Gripe suína, meningite e conhaque

Crônica. Por Mouzar Benedito   Nestes tempos de neurose por causa da gripe suína, quero dizer: já tive coisa pior, e o efeito não foi tão ruim...

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Crônica.

Por Mouzar Benedito

 

Nestes tempos de neurose por causa da gripe suína, quero dizer: já tive coisa pior, e o efeito não foi tão ruim assim. Passei a apreciar uma boa bebida por causa da doença.

Quando me perguntam com que idade comecei a beber, conto a verdade mas não acreditam. Tudo começou com um surto de meningite na minha terra. Foi um arraso. Eu tinha cinco meses de idade e fui uma das suas vítimas.

Na época, o único antibiótico que existia era a penicilina e assim mesmo fora do Brasil. Então, quem tinha a doença estava meio condenado, valia a história de que quem tinha meningite, se não morresse, ficava louco. Continuou valendo depois, o que me deu uma certa tranquilidade para fazer certas coisas que ficavam por conta desse conceito: “Ele teve meningite…”. E muita coisa se perdoava.

Foram muitas crianças que tiveram meningite, inclusive a filha do único médico da cidade, doutor Elógio. Apesar de morar num lugar fora de todos os caminhos importantes, em que mal chegava uma jardineira por dia, ele era bem informado e – não sei como, talvez usando o telégrafo, porque telefonema internacional, de Nova Resende, era impossível – mandou buscar penicilina no exterior. A penicilina não era como hoje, eram bacilos vivos, mantidos congelados, só descongelados na hora da aplicação da injeção. Minha mãe me contava que a penicilina que me curou, encomendada pelo doutor Elógio, vinha da Europa para São Paulo, congelada, em aviões. De São Paulo, seguia em um pequeno avião da Real (uma companhia aérea regional), que tinha voos regulares até Guaxupé, e lá era colocada em uma caixa com gelo e levada para Nova Resende. Consciente de seu dever, ele mandava buscar penicilina suficiente para todo mundo.

Quem me aplicava as injeções era o Tozito, um farmacêutico prático, nosso vizinho, de grande competência, orientado pelo doutor Elógio sobre como aplicar aquele medicamento inédito. E minha mãe mesmo contava:

— Diziam que o farmacêutico tinha que tirar um líquido da espinha e colocar a penicilina no mesmo lugar. Tinham que te dobrar pra frente, pra ele acertar o lugar certinho. Se errasse, você ficava paralítico. Eu não tinha coragem de ficar vendo, ia lá para o fundo da horta, ficava rezando…

Sarei com poucas sequelas, como fraqueza e fama de meio doido. Durante muito tempo não podia contar que tive meningite, pois não me dariam emprego em lugar nenhum. Já adulto, fiquei sabendo que o doutor Elógio foi pioneiro no uso da penicilina no Brasil. Então, fui cobaia da penicilina.

Um problema era que ninguém sabia de possíveis efeitos colaterais, e eu tive um: uma inapetência danada. Mas lá não tinha esse negócio de “ele está com anorexia”: minha mãe abria minha boca na marra e mandava alguém despejar leite. Aí, um dia frio e chuvoso chegou em nossa casa um irmão dela, meu tio Dito, viajando a cavalo. Enquanto ele tomava banho, minha mãe preparou um leite quente com conhaque pra ele, para se prevenir contra um possível resfriado.
Enquanto ele tomava o leite com conhaque, eu – no colo da minha mãe – olhava curioso. Ele me ofereceu um pouquinho, eu bebi e gostei, para surpresa dos meus pais. Aí, só aceitava mamadeira de leite com conhaque. Dizem que ficava tontinho. Até uns cinco anos de idade, esse era meu alimento preferido. Minha mãe pensava: “antes isso do que ficar sem se alimentar”. Quando ia pra roça passar uns dias, enquanto meus irmãos se preocupavam em arrumar algum brinquedo, eu corria com uma garrafinha a um bar e mandava encher de conhaque. De manhãzinha punha um pouquinho de conhaque numa caneca e pedia ao meu tio pra tirar leite em cima. Ele me entregava o leite quentinho, recém-saído das tetas das vacas, com uma espuminha deliciosa…

Assim, graças ao doutor Elógio, ao Tozito e ao conhaque estou aqui até hoje, pra desgosto de quem não gosta de mim. A fama de meio doido continua, mas não me incomoda. Também não procuro mais emprego, que agora não me dão por outros motivos. E pra me prevenir contra a gripe suína, bebo conhaque. Sem leite.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de setembro. Nas bancas.



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