Kantuta: um território boliviano em São Paulo

Praça no nairro do Pari abriga uma feira semanal que mantém vivas a cultura e tradição do país vizinho Por Texto e fotos por Marcos Palhares  ...

1201 0

Praça no nairro do Pari abriga uma feira semanal que mantém vivas a cultura e tradição do país vizinho

Por Texto e fotos por Marcos Palhares

 

Foto: Marcos PalharesFoto: Marcos Palhares

Domingo de sol em São Paulo e diversas opções de lazer para a população no dia do aniversário da cidade, 25 de janeiro. Mas a grande maioria nem ficou sabendo que no bairro do Pari, zona Leste, aconteceria um dos eventos mais especiais do dia. Na praça Kantuta, local onde os imigrantes da Bolívia realizam semanalmente sua tradicional feira, a comemoração não se restringiu à efeméride municipal. Ali, 5 mil pessoas se reuniram para celebrar, também, a festa anual Alasitas e o referendo popular que, naquela data, aprovaria o novo texto da Constituição boliviana.
Apesar de regularizada pela prefeitura e já há seis anos e meio em atividade, a feira da Kantuta ainda é pouco divulgada e conhecida pelos paulistanos. Uma pena, pois se trata de um dos mais fascinantes aspectos cosmopolitas da quarta maior metrópole do mundo, assim como a decoração oriental do bairro Liberdade ou as cantinas italianas do Bexiga. Na Kantuta, a impressão que se tem é a de estar literalmente na Bolívia: roupas típicas, comidas, bebidas, produtos alimentícios, música e objetos tradicionais estão disponíveis em 70 barracas espalhadas em volta da praça, em frente ao Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (Cefet-SP).
A presença de bolivianos no local é maciça, a maior parte indígenas e mestiços. “Venho todos os domingos, me sinto em casa. Aqui cultivamos nossas tradições, nossa cultura. Sinto-me como se estivesse em meu país”, comentou Salvador Colque, de La Paz, 62 anos e há oito no Brasil. A percepção é verdadeira: só ali um brasileiro que nunca foi à Bolívia pode comer um fricase (ensopado de porco com pimenta ají, milho branco e chuño, espécie de batata desidratada), comprar uma chamarra (poncho de lã), ouvir um huayño ou uma chaqueña (ritmos musicais) ou tomar uma Inca Kola (refrigerante).
No domingo do aniversário de São Paulo, por exemplo, os bolivianos ainda festejavam a Alasitas, que ocorre sempre em 24 de janeiro. É a ocasião de louvar Ekeko que, na cultura andina, é o deus da abundância e da fortuna, representado em pequenas estatuetas como um homem gordo e alegre. Os bolivianos compram essas miniaturas que, na Alasitas, são challadas (benzidas) pelo yatiri, um tipo de feiticeiro ou sábio da cultura aimará. Na Kantuta, é possível observá-lo na cerimônia pagã em que passa folhas de coca e joga vinho ou pinga sobre as estátuas, ao mesmo tempo em que queima incensos.
“Todas as sextas-feiras, em casa, as pessoas colocam um cigarro aceso na boca da miniatura do Ekeko, além de deixar perto um copo d’água e outro de singani, a pinga de uva”, explicou Carlos Soto, 61 anos e há 38 no Brasil. “Aqui na feira as pessoas também compram cédulas de dólar ou de euro, de mentira, para colocar na estatueta. Isso traz prosperidade financeira”, acrescentou Don Carlos, como é conhecido. Uma das barracas que vendiam o dinheiro fictício era a de Juan Carlos Quispe, 26 anos, há quatro em São Paulo. “É a única vez, no ano, que vendo essa mercadoria. Mas todos compram, porque é uma tradição muito arraigada”, explicou.

Foto: Marcos Palhares

Feira legalizada

Atualmente, é Don Carlos quem preside a Associação Gastronômica, Cultural e Folclórica Boliviana Padre Bento, que administra a feira da Kantuta e tem mais de 100 associados. A história começou há cerca de 15 anos, quando os bolivianos começaram a montar barracas aos domingos, de forma irregular, na praça da Igreja Santo Antônio, também no Pari. O movimento cresceu e começou a atrapalhar o trânsito e incomodar a vizinhança. Mais tarde, a gestão da prefeita Marta Suplicy (PT) propôs que os comerciantes formassem a associação. Depois disso, destinou a praça da rua Pedro Vicente como novo espaço, legalizado, da feira.
“Mudamos para cá no dia 2 de junho de 2002. A prefeitura também rebatizou a praça oficialmente como Kantuta”, contou Don Carlos. Em todos esses anos, a feira tem sido a principal ou mesmo única opção de lazer para a colônia de 100 mil bolivianos que reside em São Paulo, principalmente nas zonas Leste e Norte. A maioria trabalha de segunda-feira a sábado e cerca de 50 mil estão em situação irregular, segundo o Consulado da Bolívia em São Paulo. “É a feira de quem veio para cá servir de mão de obra na indústria da costura. É uma referência para o povo boliviano. Aqui (na feira) podem conseguir emprego, mandar recado ou dinheiro para a Bolívia”, ressaltou o cônsul Jaime Valdivia Almanza.
“A associação de comerciantes é uma entidade de classe, eles mesmos se autorregulam, resolvem os problemas de segurança da praça, é uma comunidade. O consulado trabalha para que as normativas se preservem com a prefeitura, além de colaborar para o incremento da infraestrutura na praça”, acrescentou Almanza, que participa de uma comissão permanente do governo brasileiro para resolver as questões legais e trabalhistas dos imigrantes latino-americanos no país (leia entrevista na página 42).

Referendo da Constituição
Mas a presença de representantes do Consulado na Kantuta, em 25 de janeiro, tinha um motivo específico: lembrar o texto da nova Constituição que seria votado naquele domingo, na Bolívia, em referendo popular. “Pela primeira vez na história da Bolívia, a população votou a aprovação da Constituição. Para os que vivem no exterior, como aqui no Brasil, isso significa mais direitos, como o de voto à distância, além de mais reconhecimento e proteção”, resumiu o cônsul. Entre 21 frequentadores questionados pela reportagem, todos votariam a favor da nova carta.
O apoio ao governo de Evo Morales é nítido, tanto nas fotos do presidente espalhadas em calendários e cartazes quanto nos brindes e manifestações que se ouvem de vez em quando, como “Viva a Bolívia livre!” ou “Bolívia indígena soberana!”. “Evo é o presidente que está do lado do povo. Acho que melhorou quase tudo”, frisou a costureira Emilia Benito, 30 anos, que veio há sete anos de Oruro. “Aqui, com certeza, 90% aprovam o governo de Evo Morales. Ele fez as coisas que os bolivianos sempre quiseram. Recuperou nossa dignidade e soberania”, completou Don Carlos.

 

Foto: Marcos PalharesFoto: Marcos Palhares

Futebol, música e comida
No palco montado na entrada da praça, entre discursos e saudações à nova Constituição e ao terceiro ano da Revolução Democrática e Cultural da Bolívia, os visitantes puderam ouvir um pouco da música andina, com os grupos Jilata e Raza Índia. Além dos já citados huayño e chaqueña (típico da região que faz divisa com a Argentina), outros ritmos musicais foram apresentados, como a cueca paceña, a morenada e a diablada. Os instrumentos típicos são as flautas de bambu ou madeira, como a zampoña, a quena e a tarkas, mais o charango (tipo de violão) e tambores como percussão.
Bem em frente, as barracas de comida serviam pratos como o tímpu de cordero (carneiro e caldo separado), o sil pancho (bife à milanesa com arroz e batata), e o allajo (mistura de tomate e quirquiño, uma folha aromática). Outra especialidade é a salteña, empanada que tem como recheio carne de frango ou porco, batata, cebola, salsinha, cebolinha, ovo cozido e caldo. “Sempre que dá saudade da salteña, a gente vem até aqui”, disse Sheila Rodriguez, 33 anos, nascida em Ribera Alta e há 11 anos em São Paulo, em companhia do marido Ronald Jimenez, 34, natural de Santa Cruz de La Sierra.
As bebidas prediletas no local são a cerveja Paceña e o refresco de kisa, um chá de pêssego desidratado. Nas barracas de alimentos in natura, é possível encontrar o chuño, a tunta (outra espécie de batata), os vários tipos de milho bolivianos, a quinua (cereal) e o lokôto (pimentão ardido). A feira também oferece outros tipos de serviço e diversão. Existem barracas de artesanato e até de corte de cabelo. Um campeonato de futebol, na quadra central da praça, reúne enorme torcida em volta do alambrado. Esse clima descontraído e amistoso é o que torna a Kantuta mais do que uma feira. A impressão é a de um grande esforço coletivo, patriótico e alegre dos bolivianos para defender o país de origem, sua cultura e a identidade e altivez de seu povo. Por isso, quem visita a Kantuta geralmente volta. F

Uma mistura de pressão e diálogo Cônsul da Bolívia comenta esforço para regularizar os clandestinos e as condições de trabalho

Dos 250 mil bolivianos que vivem no Brasil, cerca
de 40% (ou 100 mil) estão em situação irregular.
Por isso, enfrentam problemas de moradia, comunicação, assistência jurídica e de saúde e, principalmente, condições precárias de trabalho. Em entrevista à Fórum, o cônsul da Bolívia em São Paulo, Jaime Valdivia Almanza, fala sobre a comissão permanente criada pelo governo brasileiro para buscar soluções com
a interlocução de todas as partes envolvidas.

Fórum – O que está sendo feito para resolver a situação dos clandestinos?
Jaime Almanza –
Com a cooperação bilateral entre os governos de Evo Morales e de Luiz Inácio Lula da Silva, conseguimos regularizar 50 mil imigrantes bolivianos no Brasil desde 2006. Aqui há grande oferta de postos de trabalho na indústria de confecção, mas para subempregos, exploração, trabalho de menores e semiescravidão.

Fórum – Como o consulado participa na resolução desses problemas?
Almanza –
Formamos, por iniciativa do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), comissões permanentes de imigração latina. O Ministério Público do Trabalho (MPT) convocou os sindicatos patronal e de trabalhadores em costura e confecção, os ministérios públicos municipal, estadual e federal, mais consulados e representantes de direitos humanos e pastorais. Essa comissão trabalha há um ano para buscar soluções consultando as bases.

Fórum – E o que já foi decidido?
Almanza –
Aprovamos uma manifestação com o MP, mas é o governo federal que tem que tomar a iniciativa. É uma mescla de pressão e diálogo, buscando alternativas. Algumas empresas de costura não podem dar mercado para a exploração. Temos cooperativas bem organizadas que podem ser contratadas com os direitos dos trabalhadores garantidos. Outra ação é a denúncia, para que a polícia puna os infratores e faça com que isto diminua. F



No artigo

x