Mais diversidade, mais cultura

Iniciativa garante que publicações impressas cheguem a bibliotecas e Pontos de Leitura e Cultura, contribuindo para promover o direito de milhões de brasileiros ao acesso a múltiplas visões de mundo Por Juliana Rocha Barroso   “Estabelecer políticas...

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Iniciativa garante que publicações impressas cheguem a bibliotecas e Pontos de Leitura e Cultura, contribuindo para promover o direito de milhões de brasileiros ao acesso a múltiplas visões de mundo

Por Juliana Rocha Barroso

 

“Estabelecer políticas e investimentos que fomentem a leitura e a difusão do livro, assim como o pleno acesso de toda a cidadania à produção literária global e local.” Esse texto pode ser lido no artigo 36 da Agenda 21 da Cultura, documento orientador das políticas públicas da área construído por vários países e aprovado no Fórum Universal das Culturas, em 2004. Trata-se de um grande desafio, ainda mais no Brasil, país em que, embora o cenário cultural seja tão rico e diverso, o acesso a equipamentos e bens ainda é restrito a uma minoria.
O Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Articulação Institucional (SAI), criou em outubro de 2007 o Programa Mais Cultura, dentro dos objetivos preconizados pela Agenda 21, de reconhecer a cultura como uma necessidade básica, destacando a importância da economia da área para o desenvolvimento do País. E, como estratégia para promover a diversidade cultural e ampliar o acesso a bens e serviços do setor, o programa lançou em fevereiro de 2010 o edital Periódicos de Conteúdo Mais Cultura. A ideia foi popularizar materiais de leitura por meio de edição e distribuição periódica de publicações com conteúdos diversificados e de qualidade.
Por meio do edital de 14 de outubro de 2009, resultado das propostas formuladas pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e pela Diretoria de Livro, Leitura e Literatura (DLLL), da SAI/MinC, puderam participar organizações com atuação comprovada na área cultural há pelo menos dois anos. O resultado foi a assinatura anual das 12 publicações selecionadas a sete mil espaços culturais, entre bibliotecas públicas, Pontos de Leitura e Pontos de Cultura, desde março de 2011. São publicações impressas de periodicidade mensal, bimestral ou trimestral realizadas em território brasileiro que desenvolvem conteúdo sobre Cultura, Sociedade, Artes, Política e Economia, com ênfase mínima de 35% da publicação para Cultura e Artes. O acompanhamento nos Pontos de Cultura é feito pela Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural, nos Pontos de Leitura pela Diretoria de Livro, Leitura e Literatura (DLLL) e, nas bibliotecas, pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN), do MinC.
“Esse projeto tem o intuito de fortalecer dois eixos principais do Plano Nacional de Livro e Leitura. O primeiro é a democratização do acesso ao livro e à leitura. O foco também é diversificar a leitura, numa perspectiva de valorização das diferentes culturas, sempre no intuito de ampliar o conhecimento, de compreender que outros mundos culturais existem além do seu próprio. O segundo eixo é o fomento à cadeia criativa e produtiva do livro. Essa iniciativa foi muito positiva para as editoras de revistas que já nos revelaram a importância de ações como essa para suas estruturas”, destaca Fabiano dos Santos Piuba, diretor da DLLL.
Os periódicos chegam a cidades do interior do país que não teriam acesso aos seus conteúdos, pelo desconhecimento de sua existência ou pela dificuldade de alcance desses locais. “Como essa ação é nacional, nós exigimos que os periódicos fossem entregues nos lugares onde tivéssemos registros de bibliotecas públicas, Pontos de Leitura e de Pontos de Cultura, não importa em que região estivessem localizados. Há o atendimento até de Pontos de Cultura existentes em terras indígenas”, conta.
Além do acesso, Piuba ressalta que o programa também tem a perspectiva de servir como instrumento para formação leitora e construção de subjetividades. “Os periódicos selecionados respondem bem à possibilidade de fruição e de leituras críticas, não apenas em relação às artes, mas também como ampliação de leitura de mundo. Quem lê essas revistas com certeza é instigado a ir para a literatura, para um bom poema, um bom romance, um bom filme, uma boa peça teatral, a um bom debate político.”
Segundo Elisa Machado, coordenadora do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), o Brasil está praticamente zerando o número de municípios sem bibliotecas públicas, de acordo com os resultados do primeiro censo da área realizado em 2009 e publicado em 2010. “Nos próximos meses os últimos 36 municípios que não têm bibliotecas receberão o kit de implantação. Estamos trabalhando no sentido de estimular e colaborar com os governos locais para implementar mais bibliotecas e para modernizar as já existentes”, conta Elisa, que sinaliza que o SNBP está desenvolvendo uma série de ferramentas para monitorar e avaliar as ações e os investimentos nas bibliotecas, como a distribuição de assinaturas de periódicos, trabalho que envolve um grande movimento de articulação e conscientização.
Quanto ao uso desses periódicos e de seus conteúdos, ele fica a critério dos Pontos e bibliotecas. “Os bibliotecários que atuam nesses espaços são profissionais habilitados para trabalhar no sentido de disponibilizar da forma mais adequada esse tipo de material e estão preparados também para organizar e implementar ações que valorizem e fomentem a leitura consciente e crítica. Publicações periódicas de qualidade como as que foram distribuídas por meio desse edital são materiais riquíssimos que colaboram para qualificar essas ações”, argumenta Elisa.
A dificuldade em monitorar números como a frequência de usuários dos equipamentos em que chegam os periódicos, média de empréstimos e os impactos parciais dessa ação é atribuída à falta de estrutura para fazer um mapeamento específico de algo tão diverso. “A responsabilidade de cadastro dos Pontos de Leitura e de Cultura no sistema do MinC é muito mais da sociedade do que do Estado. Hoje, no Brasil, existem quase 6 mil municípios. Certamente existe um número alto que o Estado não tem conhecimento. Muitos são criados, fechados, mudam de endereço e de gestores. É impossível acompanhar essa dinâmica social, ainda que seja importante para nós, ter esse mapeamento”, explica Fabiano.
Diversidade é cultura
Os periódicos contemplados no concurso são muito diversos na sua forma de se manter, de buscar o recurso, na sua proposta, na sua história, e toda essa diversidade chegando junta aos espaços é, em si, enriquecedora. O edital apontava como pré-requisito que os candidatos dessem ênfase à cultura, com pelo menos 35% de seu conteúdo total, considerando crônicas, charges, crítica literária, poesia, artes visuais, ou seja, num conceito bastante amplo do que é cultura.
O jornal Rascunho, por exemplo, é puramente literário e dedica muito espaço para a produção regional. A revista Caros Amigos tem muito de economia e de política, enquanto a Rolling Stone trabalha a cultura pelo viés da música pop e do rock. Wagner Nabuco, diretor geral da Caros Amigos, entende que o programa é uma iniciativa inédita no Brasil. “Pelas nossas tradições, a informação que chega é muito homogeneizada por uma visão de mundo com pequenas diferenças, que no seu âmago são parecidas. Então as pessoas em geral têm poucas possibilidades de olhar para outras visões de mundo, que envolvam cultura, economia, política, comportamento.” Nabuco defende que as escolas do sistema de educação formal deveriam também estar recebendo essas publicações, além das hegemônicas. “Adoraria que esses milhões de estudantes brasileiros encontrassem essas publicações nas bibliotecas escolares para ampliar o seu universo de conhecimento, de informação e depois fazer suas escolhas democráticas e esse processo que se iniciou pode abrir essas perspectivas. Não se constrói um país mais igualitário, mais justo sem que seus cidadãos tenham uma formação melhor na educação, na informação.”
Outro aspecto destacado por ele é o canal de relacionamento aberto com os Pontos. “Chegam correspondências, sugestões de pauta, de repente uma delas abre nossos olhares para uma determinada matéria ou cobertura que a gente não faria, porque também são fontes de informação de lugares em que a gente não estava chegando. É uma troca muito bacana”.
É nos próprios Pontos de Cultura e nas bibliotecas que se pode medir o impacto da chegada dessas publicações para as comunidades, que passam a ter acesso a um conteúdo informativo novo. O Ponto de Leitura Traças do Bem fica em uma comunidade de periferia, de meio rural, em Maricá (RJ). Distante do centro da cidade, sofre com o alcance da divulgação de suas ações. Maria Regina Moura da Silva, coordenadora dos projetos do Ponto, conta que as pessoas que participam da iniciativa se utilizam de várias ações simultâneas, pois também são Ponto de Cultura e Cineclube (Cine mais Cultura), para divulgar o acervo e a própria Sala de Leitura nas escolas. Ela avalia que os periódicos são valiosos por sua atualidade, e são também um meio de manter o acervo em constante renovação. “Eles despertam o interesse dos frequentadores, seja para as leituras de entretenimento, seja como material de pesquisa”, analisa.
Jussara Bohrer Ortiz, diretora da Biblioteca Pública Municipal Dr. João Minssen, de Cachoeira do Sul (RS), destaca a qualidade das publicações e a importância da iniciativa do MinC, em razão das dificuldades da biblioteca em adquirir periódicos. Já Lucélia de Cássia Clarindo, coordenadora do Ponto de Leitura Bando da Leitura, de Ponta Grossa (PR), destaca a diversidade do conjunto de periódicos, dirigidos a todas as faixas etárias e aos mais diversos leitores. “A revista Viração é bem procurada por adolescentes e é a mais emprestada. Acadêmicos também procuram as revistas para seus trabalhos”, conta.
O Ponto de Cultura a Bruxa Tá Solta está localizado no Anauá, segundo maior assentamento familiar em extensão territorial do Brasil, no município de Rorainópolis, sul do Estado de Roraima. Catarina Ribeiro, gestora de projetos do local, destaca a importância dos materiais para as atividades cotidianas. “Eles têm servido especialmente de subsídio para professores em sala de aula. Os educadores são parceiros do Ponto, que atua na abordagem territorial por meio de Pontos de Luz, ou seja, pessoas que assumem o papel de multiplicadores. Temos distribuído as publicações conforme a área de interesse de cada educador”, explica.
O Ponto de Cultura é parceiro da comunidade indígena Maturuca, das Terras Indígenas Raposa–Serra do Sol. “Muitas edições das revistas Fórum e o Le Monde Diplomatique têm sido utilizados nas aulas de Filosofia do professor Macuxi. Entendo que precisamos seguir nessa democratização das informações, com a diversidade que representa o conjunto das publicações. Somente nessa ação se torna possível levar a consideração das pessoas nas comunidades mais afastadas outros pontos de vista, outras óticas de mundo”, ressalta.
A rede formada pelos Periódicos de Conteúdo Mais Cultura está articulada em busca de maneiras de continuidade à iniciativa. “Estamos começando as primeiras conversas entre os editores para levantarmos elementos também de qual foi o impacto disso nas comunidades, com mais dados, com aprofundamento do conhecimento do dado e também como divulgar isso para o conjunto da sociedade, demonstrar que foi um dinheiro público bem aplicado, que tem um retorno real. Acho que esse tem que ser o critério fundamental e nós, com certeza, vamos ter elementos para demonstrar isso. E seria muito bom que fizéssemos isso junto ao próprio MinC”.
O Brasil tem fome de quê?
– Apenas 13% dos brasileiros frequentam cinema (ao menos uma vez por ano).
– 92% dos brasileiros nunca foram a museus.
– 82% dos brasileiros não possuem computador em casa.
Destes, 70% não têm qualquer acesso à internet (nem no trabalho, nem na escola).
– Mais de 90% dos municípios não possuem salas de cinema, teatros, museus e espaços culturais.
– O brasileiro lê, em média, 1,3 livro per capita/ano (enquanto na França, por exemplo, são 7 livros por pessoa).
– 73% dos livros estão concentrados nas mãos de apenas 16% da população.
– O preço médio do livro de leitura corrente (obras literárias e de divulgação)  é de R$ 25.
– 56,7% da população ocupada na área de cultura não tem carteira assinada ou trabalha por conta própria;
– A média brasileira de despesa mensal com cultura/família é de 4,4% do total de rendimentos, porcentual acima da educação (3,5%), não variando em razão da classe social e ocupando a 6ª posição dos gastos mensais da família.
*trecho extraído da apresentação do Programa Mais Cultura (dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais, referente ao período 2003-2005 – MinC/IBGE 2008).
Para todos os gostos
Conheça os periódicos vencedores do concurso público:
Brasileiros
Cult
Revista Viração
Rolling Stone
Raça Brasil
Piauí
Carta na Escola
Jornal Rascunho
Revista Fórum
Le Monde Diplomatique Brasil
Caros Amigos
Almanaque Brasil de Cultura Popular


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