Mulheres em trânsito

Elas saem sozinhas de seus países, largando filhos e levando na bagagem a esperança de melhores condições econômicas. Hoje, as mulheres já são maioria entre os migrantes, mas sofrem com o preconceito e ficam...

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Elas saem sozinhas de seus países, largando filhos e levando na bagagem a esperança de melhores condições econômicas. Hoje, as mulheres já são maioria entre os migrantes, mas sofrem com o preconceito e ficam sujeitas a toda sorte de violências

Por Eliza Capai

 

Edifícios altos e envidraçados em uma ampla avenida de frente para o Pacífico. A imagem do cartão postal ilustrava um país próspero, diferente da maioria dos vizinhos latino-americanos: repleto de investimentos estrangeiros, mergulhado no american way of life e com o dólar estadunidense como moeda nacional. “Parece os Estados Unidos”, pensou Idalgisa ao ver a foto que a cliente do salão de beleza lhe mostrou. Enquanto secava os cabelos da dona do postal, decidiu-se: “É lá que eu vou morar!”. Arrumou as malas na República Dominicana, largou os dois filhos com a mãe e rumou para o Panamá em 1990.
Um ano antes, o país havia sido bombardeado pelos Estados Unidos. Com a “Operação Causa Justa”, o general Manoel Noriega, treinado nas décadas de 60 e 70 pela própria CIA, foi deposto. O objetivo real do ataque era a manutenção do poderio estadunidense sobre o canal do Panamá. Bairros foram arrasados e milhares de panamenhos assassinados, mas Idalgisa nem notou: “Não estava muito destruído não”, recorda. Depois de cinco anos vivendo ilegalmente, a dominicana se casou com um panamenho. “Mas foi só para conseguir os papéis, não quero casar!”, adverte. Passou a ganhar melhor, aumentou o envio de dinheiro para a família e, não demorou muito, voltou à ilha caribenha para buscar os filhos. Hoje o mais velho, com 23 anos, cursa fotografia na Espanha: “pense, se eu tivesse continuado lá, se ele ia poder estudar fora…”, reflete, mostrando-me a fotografia do belo jovem negro no celular.
Há 18 anos, a história de Idalgisa já anunciava o que seria uma tendência mundial: mulheres que saem sozinhas de seus países, largando filhos e levando na bagagem a esperança de melhores empregos, salários e condições sociais e de gênero. Cruzam as fronteiras como turistas, buscam trabalhos normalmente mal remunerados e acabam por se tornar imigrantes ilegais.
Quando os sutiãs começaram a ser queimados na década de 60 pelas européias e estadunidenses, iniciou-se também um processo de migração de mulheres. Sem acompanharem maridos, namorados ou pais, elas começaram a quebrar o estereótipo masculino do deslocamento. Foi assim que, nos países desenvolvidos, a saída delas ultrapassou a de homens durante a década de 90, enquanto nos subdesenvolvidos a proporção ainda é de 54% de migrantes do sexo masculino, percentual mais ou menos constante desde o surgimento da pílula anticoncepcional. Entretanto, na América Latina, que tem 25 milhões de emigrantes, a média é a mesma dos países desenvolvidos, ou seja, as mulheres são maioria. O subcontinente foi a primeira região do hemisfério Sul a registrar a paridade numérica de emigrantes homens e mulheres.

Preconceito e violência Embora saiam nutridas de sonhos e com a intenção de melhorar de vida, nem todas encontram o happy end de Idalgisa. Até porque, ao cruzarem a fronteira, muitos dos preconceitos de gênero tornam-se ainda mais relevantes. “A associação entre migração feminina e vulnerabilidade tem muitas fontes: o racismo, a xenofobia, a violência, o tráfico de pessoas, a baixa escolaridade e os salários inferiores aos mínimos estabelecidos”, explica Jorge Martínez Pizarro em El mapa migratorio de América Latina y el Caribe, las mujeres y el género.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a pirâmide salarial de cima para baixo é: homens estadunidenses, mulheres estadunidenses, homens migrantes, mulheres migrantes. A média salarial anual das imigrantes é de US$ 26.700 contra os US$ 38.400 dos seus pares, sendo que as colombianas, cubanas e dominicanas recebem os menores salários. De acordo com dados oficiais, 76% daquelas que estão em postos de trabalho mal remunerados têm segundo grau completo, contra 66% dos homens nas mesmas condições. Além disso, 60% delas são fluentes na língua inglesa, em oposição a 50% dos homens. O que mostra que não é exatamente a formação escolar e cultural que justifica a diferença de rendimentos entre um gênero e outro.
Além de piores remunerações, as mulheres estão mais sujeitas à violência. Na cidade de Nova Iorque, por exemplo, 51% das vítimas de homicídio provocado por parceiros são estrangeiras (dados de 1995 da Organização Internacional de Migrações (OIM)). Um terço das latino-americanas denuncia aumento da violência de seus parceiros depois da emigração para os Estados Unidos, sendo que 9% declaram que os abusos começaram após a mudança de país. Elas são também as grandes vítimas do tráfico humano – atualmente entre as três atividades ilícitas mais lucrativas do mundo. Estima-se que mais de 1,9 milhões de mulheres e meninas estejam seqüestradas, somando 80% do total de vítimas. Pesquisas na fronteira sul do México apontaram que 70% das migrantes são vítimas de violência, sendo que dois terços foram vítimas de algum abuso sexual durante a viagem.
Muitas delas, até chegarem nesta divisa, já percorreram toda a América Central. Além de trajeto, o continente é também ponto de parada de emigrantes como Idalgisa. A revista Fórum inicia com esta matéria uma série de reportagens sobre as migrantes centro-americanas. E a primeira parada é o Panamá, onde 52,63% dos 53.322 imigrantes latino-americanos são mulheres.

Panamá – fim e meio “O Panamá é um destino de fim e de trânsito”, explica a subdiretora do Centro Nacional de Migração e Naturalização de Panamá, Tayra Ivonne Barsallo. No país cosmopolita, 10% da população têm ascendência chinesa e desfilam pelas ruas judeus ao lado de etnias kunas, estadunidenses, europeus e canadenses aposentados e hispano-americanos de todos os cantos.
Em 1990, o país de 3 milhões de habitantes tinha 61.400 imigrantes dentro de suas fronteiras. Uma década depois eles já eram 73.317 de acordo com o Censo Nacional de População. Se com as novas oportunidades de negócios chovem ricos estadunidenses e venezuelanos – insatisfeitos com a política chavista – para montarem suas empresas, a grande massa de trabalhadores, por sua vez, fica por conta da classe média baixa e de pobres oriundos dos vizinhos caribenhos e sul-americanos. No começo da década, 18.844 imigrantes eram da vizinha Colômbia, sendo 9.760 mulheres. Depois dos colombianos seguem os dominicanos, que saltaram de um total de 1.440 emigrados para o Panamá, nos anos 90, para 5.594, em 2000. Destes, 4.015 são mulheres.
A migração interna latino-americana teve um boom na década de 70, decorrente das ditaduras militares em diversos países. Nos anos 80, saí­ram nicaragüenses e salvadorenhos fugindo dos conflitos bélicos em seus países. Depois disso, a causa da emigração se deslocou das questões políticas para as econômicas. A exceção a essa regra é a Colômbia, mergulhada há 40 anos em conflitos armados e que continua expulsando seus cidadãos por questões de segurança. O país registra o maior número de pessoas deslocadas internamente no globo, somando aproximadamente 3 milhões de cidadãos obrigados a deixar suas regiões de origem por causa de conflitos armados. Somente no Panamá, entre 1993 e 2003, ingressaram legalmente 15.274 colombianos – sendo 8.471 mulheres.
Uma delas é Alexandra, que depois de ver o marido seqüestrado e assassinado pelas Farc, deixou para trás um filho de 13 anos e levou a esperança de organizar a vida para depois buscá-lo. Passou cinco meses desempregada até conseguir uma vaga de auxiliar técnica em uma casa de repouso para a terceira idade – função inferior ao seu diploma de técnica de enfermagem. Passaram-se mais três anos e Alexandra planeja voltar para casa: “Tenho muita saudade de meu filho e aqui se sofre muito por ser colombiana. Colocam tudo no mesmo saco: drogas, prostituição, violência”.
A também colombiana Dorliska saiu um ano antes que Alexandra. “O clima daqui é parecido com o de lá”, constata. Ao contrário da conterrânea, não pensa em voltar. “Agora tenho meu filho panamenho”, sorri com o bebê de 11 meses no colo. Mas as duas concordam em um ponto. “Os trâmites aqui são muito mais difíceis quando somos colombianas. Logo perguntam quem somos, o que fazemos, por que estamos. Isso se repete para tirar os papéis, na escola, na rua… Em toda parte.”
As reclamações encontram eco nos números oficiais da imigração panamenha. Enquanto 4,5% das solicitações de visto de venezuelanos e 8,1% de estadunidenses foram rejeitadas no primeiro trimestre deste ano, 31% dos colombianos e 26,3% dos dominicanos tiveram seus vistos negados. No mesmo período, 255 colombianos foram deportados. Quando perguntei a Rose, funcionária do hotel em que estava, se ela tinha amigas colombianas ou dominicanas para me apresentar, respondeu ligeira: “Não. Não se pode andar com essa gente, não são confiáveis”.
A xenofobia crescente se apóia muitas vezes no preconceito em relação às profissionais do sexo estrangeiras trabalhando no país. Na primeira noite em que saí na Cidade do Panamá, fui recepcionada com uma indiscreta passada de mão nas nádegas, em uma importante avenida da cidade. Quando indaguei para panamenhos e migrantes se aquilo era normal ou se estava em alguma zona vermelha, a resposta foi unânime: “Claro! Todo Panamá es un puterío!”.
Segundo um estudo de Gina Gallardo para a OIM, a República Dominicana é o quarto país do mundo onde as mulheres mais trabalham na indústria sexual fora de seus países – perdendo apenas para Tailândia, Brasil e Filipinas. “A prostituição clandestina, e desta forma não regulamentada, traz um problema de saúde pública para o país”, afirma a Subdiretora do Centro Nacional de Migração e Naturalização. A Aids já contamina 0,9% da população panamenha sexualmente ativa.
Diana, recém-chegada da Colômbia, também sente os reflexos do preconceito. “Aqui todo mundo pensa que você ou tem drogas ou é puta”, reclama. Ela saiu do país por conta do ciumento ex-marido e de suas ameaças após o término da relação. “Estava com medo. Recebi então uma proposta para vir trabalhar em um salão de beleza aqui e não pensei duas vezes.” O filho de Diana, de 14 anos, vive com a avó na Colômbia e toda semana ela lhes envia uma remessa de US$ 100. “Pelo menos a vida deles está melhor lá”, pondera.
O fluxo das remessas financeiras femininas ultrapassa as remessas masculinas em todo o mundo. Aproximadamente metade do que elas recebem é enviado para os filhos e mães do outro lado da fronteira. Em muitos países subdesenvolvidos as remessas de familiares do exterior têm cifras maiores que o valor de investimentos externos, chegando a 17% do PIB do Haiti e 15% do da Nicarágua. Na Colômbia, de acordo com dados do Banco da República, as remessas ficaram em segundo lugar entre os investimentos estrangeiros em 2007. Somando US$ 4.493 milhões, o dinheiro dos parentes no exterior só perdeu para o petróleo, ultrapassando as cifras movidas pelo carvão e café e deixando o país como sexto país que mais recebe remessas no mundo.

Na contramão Mas enquanto colombianas e dominicanas tentam estabelecer-se no país de trânsito, panamenhas tentam migrar para os EUA. O país continua sendo o principal destino dos latino-americanos – cerca de 18 milhões de hispânicos e brasileiros residem no país. As hermanas são a maioria a cruzar essa fronteira desde a década de 1930 e em 2005 elas já representavam 54,6% dos imigrantes.
A irmã de Wilma há cinco anos trocou a língua espanhola pela inglesa. Foi sozinha, trabalhou de garçonete, casou, tirou o green card e teve filhos. Wilma, administradora de uma empresa no Panamá, acaba de tirar o visto de turista para ajudar a irmã a cuidar dos filhos: “mas eu volto. Não consigo me imaginar vivendo num lugar sem amigos, sem entender a língua. Pelo menos isso é o que eu penso agora…”, me conta na porta do Consulado Estadunidense na Cidade do Panamá.
Ali ninguém quer tirar foto ou conversar muito. Uma jovem bem alinhada em seu tailler marrom, escarpan no mesmo tom e bijuterias douradas se assustou ao ver-me chegar com a câmera. “Só vou fazer um curso de marketing lá, um ano e volto. Adoro conhecer gente, novas culturas, melhorar a língua.” A esperança dita era a de voltar com um MBA embaixo dos braços e assim garantir melhor salário em solo panamenho. “Mas qual é o seu nome?”, encerrei a entrevista: “prefiro não falar”.
A menina sem nome se juntará aos outros 44,5 milhões de migrantes que também habitam os Estados Unidos. Se decidir estender sua estada para além de seu visto e arranjar um trabalho, fará parte dos 5% da força de trabalho americana realizada pelos migrantes ilegais. Se além disso engravidar, a sua cria junto com os sobrinhos de Wilma farão parte dos 13,5 milhões de filhos de imigrantes que habitam a terra do Tio Sam. F
País de passagem A parte mais estreita de terra entre os oceanos Pacífico e Atlântico e o ponto de junção da América do Sul e Central sempre foi um lugar de passagem. Pelo país, saíam as riquezas peruanas para a Espanha durante os tempos coloniais. Os estadunidenses construíram em 1855 uma linha férrea ligando os oceanos e transportando gente e mercadoria de um lado para o outro no território que então se chamava Gran Colombia. Passaram 25 anos e os franceses tentaram a construção de um canal: depois de nove anos e mais de 20 mil operários mortos de malária e febre amarela, a obra parou.
Em 1903, então, os Estados Unidos propuseram continuar a construção, mas a Colômbia negou o direito aos gringos. Como resposta, os estadunidenses patrocinaram a independência panamenha. No mesmo ano formou-se o novo país e as tropas estadunidenses ocuparam o Panamá com o discurso de proteger o novo governo. Assim, iniciaram as obras do Canal e compraram os direitos sobre o seu fluxo, vigentes até 31 de dezembro de 1999. O Panamá assistiu a cerca de 950 mil navios cortarem seu território de um oceano a outro nos últimos 94 anos. Agora, investem-se US$ 5 bilhões na ampliação do canal e outros US$ 10 bilhões em estrutura imobiliária. Junto aos navios maiores, crescem os edifícios, hotéis e serviços: estima-se que 6.750 novos postos de trabalho direto e outros 35 mil indiretos começam a ser criados.



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