Não o chamem de Chico!

Crônica por Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Professor de Geografia em colégios estaduais, o Chico se aposentou. Há tempos que ele não suportava nem passar em...

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Crônica por Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Professor de Geografia em colégios estaduais, o Chico se aposentou. Há tempos que ele não suportava nem passar em frente a escolas. Desviava de todas elas. Quando saía de carro, de sua casa, dava uma volta enorme para não passar em frente a uma escola estadual que havia no caminho mais curto para o Centro, para o supermercado e para qualquer lugar. Andando a pé, se tinha de passar obrigatoriamente em frente a uma escola, mudava de calçada, ia pelo lado oposto, sem olhar para o lado, suando frio e nervoso, apressado. Nem parecia o Chico do início de carreira, quando tinha muitas ilusões sobre a “profissão que abraçou”. No final, passou anos estressado, não abandonava a profissão porque já era tarde, havia se dedicado a ela e dera aula anos a fio, e se fosse pular para outro tipo de trabalho teria que começar do zero.
Antes de se aposentar, felizmente, conseguiu uma transferência para a burocracia da Secretaria da Educação, o que lhe deu um pouco de alívio.
Toda essa neurose tinha motivo: o que os sucessivos governos fizeram com a educação pública, incluindo uma degradação – não só salarial – progressiva e contínua do trabalho dos educadores. A profissão de professor, antes merecedora do velho chavão de ser “um sacerdócio”, tornou-se um martírio.
Antes de ser professor, havia tido uma profissão que lhe reforçou uma certa habilidade para falar sobre o nada de maneira convincente: havia sido locutor de rádio no interior. E locutor de rádio no interior tem que ser um craque na arte de encher lingüiça. Às vezes não há assunto nenhum a ser tratado, mas o programa tem que ir ao ar. Outras vezes um assuntinho de nada tinha que ser esticado ao máximo, na falta de outra coisa a ser tratada. E haja criatividade!
Brincalhão com cara de sério, quando queria partir para as brincadeiras, ele sempre impressionava os ouvintes. Era levado em grande consideração, mesmo quando não falava coisa com coisa. E gostava de fazer isso. Fazia grandes gozações sem que os outros percebessem.
Continuou com suas características, apesar das suas condições de trabalho terem sido bem degradadas. Se a gente se sente mal no trabalho a tendência é perder o humor, mas ele conseguia evitar isso.
Numa época em que foi lecionar num colégio estadual da zona Leste de São Paulo, no primeiro dia de aula entrou numa classe e escreveu seu nome no quadro: Francisco. Virou para a classe, encarou seriamente vários alunos, um a um, e começou a falar:
– Estou vendo que alguns de vocês já estão pensando em me chamar de Chico. Quem fizer isso leva bomba! Chico é sinônimo de menstruação… Em muitos lugares, mulher menstruada diz que está de chico…
Os alunos continuaram olhando pra ele com respeito, e ele continuou:
– Chiquinho é pior. É mico daqueles que fazem palhaçadas com camelôs…
Uns alunos tiveram vontade de rir, mas se contiveram ante o olhar reprovador do professor…
– Chicão, é pior ainda. É nome de beque de time de várzea.
Um aluno quis agradar:
– Só pode chamar de professor Francisco, né?
– Que é isso, menino? Quem é que chama alguém de Francisco? É muito formal!
– Professor Fran? – arriscou um outro.
– Fran!? Isso é apelido de Francisco que não assume o nome. Apelido de gente metida a besta.
– Como é que a gente fala, então, professor? – perguntou um aluno quase sem voz, de tanto respeito.
– Chicãozinho. Eu gosto é de ser chamado de Chicãozinho. F



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