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Por Revista Fórum   Handala e a tragédia palestina O confronto entre Israel e Palestina talvez seja o maior exemplo de tratamento unilateral de um assunto por...

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Por Revista Fórum

 

Handala e a tragédia palestina

O confronto entre Israel e Palestina talvez seja o maior exemplo de tratamento unilateral de um assunto por parte da mídia mundial. É raro encontrar, em meio ao mar de opiniões que validam a ocupação dos territórios palestinos pelos israelenses, uma simples menção à visão das vítimas dessa invasão: as pessoas que construíram suas vidas na região da Palestina antes do ano de 1948, quando as Nações Unidas determinaram a criação do Estado israelense.

Nessa aridez, o recém-lançado Uma Criança na Palestina – Os cartuns de Naji al-Ali se torna uma esperança nas prateleiras das livrarias. Traduzido por Rogério Bettoni, o livro traz uma coletânea do trabalho do cartunista palestino e apresenta Handala, seu principal personagem.
Uma história narrada na introdução do livro pelo quadrinista Joe Sacco, autor da HQ-reportagem Palestina – Uma Nação Ocupada, mostra a importância de al-Ali para os palestinos. Ele conta que, ao chegar aos territórios ocupados pela primeira vez, no início dos anos 1990, tinha receio de como seria recebida sua proposta de utilizar quadrinhos para contar a história daquele povo. Não deveria ter se preocupado. “Ao revelar o segredo de minha abordagem, uma expressão de entendimento geralmente se estampava naqueles rostos. Claro! Nós tivemos o nosso cartunista! Naji al-Ali!”
Nascido em 1936 num vilarejo palestino chamado Ash Shajara, o cartunista tinha 12 anos quando, em 1948, a criação do Estado de Israel expulsou milhares de palestinos de suas terras e ele e sua família foram forçados a viver em campos de refugiados no Líbano. Foi ali que, na década de 1950, al-Ali descobriu o talento para o desenho, que utilizou pelo resto de sua vida como arma política na luta pelo direito de retorno dos exilados palestinos.
É essa experiência que al-Ali quer deixar clara ao criar o personagem Handala, um menino palestino refugiado que observa as cenas de horror da invasão e expulsão de sua família e povo. Ele se mostra quase sempre de costas, com os braços cruzados atrás do corpo, como um observador impassível. O que ele vê é o sonho do retorno dos palestinos para suas terras barrado por Israel, pelos interesses das grandes potências, pelo descaso das elites árabes.
O livro é precioso por trazer aos brasileiros um autor fundamental de uma região do mundo que hoje cada vez mais entra em nosso radar, como mostram as mudanças proporcionadas pela Primavera Árabe. Mas sofre com problemas comuns às coletâneas de charges políticas, no entanto. Como se trata de uma linguagem que busca ser sintética ao extremo e sempre ligada aos acontecimentos cotidianos, ocorre que as charges se tornam difíceis de compreender fora do momento em que são publicadas.
Isso se torna mais verdade no trabalho de al-Ali, que utiliza simbolismos com grande frequência. Os organizadores do livro enfrentam esse problema com textos de apresentação e legendas que, na verdade, explicam as charges e acabam limitando as interpretações possíveis para os leitores. Nada grave, porém, considerando que seria talvez impossível explicar o contexto de cada desenho. A obra de Naji al-Ali, assassinado em 1987, nas ruas de Londres, se mantém fundamental para quem quiser compreender um pouco mais uma das histórias mais tristes de nossos tempos, que será lembrada com pesar pelos historiadores do futuro. Que Handala os ajude a enxergar o lado dos mais fracos.
(Nicolau Soares)
Incertezas em série
Depois do sucesso retumbante do romance O Filho Eterno, de 2007, a obra seguinte do escritor catarinense Cristóvão Tezza era aguardada com ansiedade nos círculos literários. Criou-se uma grande a expectativa sobre o que sairia da verve do escritor depois de amealhar grande parte dos prêmios de literatura em língua portuguesa como o Jabuti, São Paulo, APCA e Portugal Telecom. Embora o caráter autobiográfico de O Filho tenha sido abandonado, Tezza brinca com a própria situação ao criar, em Um Erro Emocional, um escritor que um dia fez sucesso, mas que passa por dificuldades em manter a qualidade da produção.
A trama do livro se passa em uma noite. Não há, por assim dizer, ação, mas diálogos entrecortados por pensamentos e digressões. A história começa com Paulo, o escritor decadente, batendo à porta de Beatriz, fã de sua literatura que havia conhecido na noite anterior. Assim que passa à porta, Paulo declara que “cometeu um erro emocional” ao se apaixonar por ela. O rumo da conversa, no entanto, não é romântico. Depois do arroubo, o escritor afirma que está lá para que Beatriz revise os manuscritos de sua nova obra. O que se segue são diálogos que não se desenvolvem por conta da insegurança que atinge ambas as partes. Mais velho que a sua leitora, Paulo se vê intimidado como um adolescente apaixonado, enquanto a revisora não consegue ultrapassar a barreira entre fã e ídolo.
O que importa em Um Erro Emocional, no entanto, é aquilo que não é dito. A cada frase reticente de parte a parte segue-se uma longa digressão, seja sobre a estranha situação dos dois naquela noite, as expectativas sobre a vida ou, principalmente, sobre o passado, que teima em marcar presença na relação entre os dois. Durante a noite, ambos vão tentando acertar contas com histórias pretéritas que ainda os perturbam, na maior parte das vezes, sem sucesso. Nada é dito, mas tudo influencia no próximo passo.
Com habilidade, Tezza constrói um cenário verdadeiro, sem que qualquer conflito seja supervalorizado. A escrita é comedida, mas o resultado é verdadeiro e convincente.
(Thalita Pires)


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