O bigode histórico de um país chamado Rússia

A tradição e a modernidade convivem lado a lado em um país cuja história recente apresentou as mais diversas possibilidades políticas, culturais e econômicas. Por Renato Rovai...

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A tradição e a modernidade convivem lado a lado em um país cuja história recente apresentou as mais diversas possibilidades políticas, culturais e econômicas.

Por Renato Rovai

 

A história da Igreja de Cristo Salvador à beira do rio Moscou e de onde se tem acesso a uma das mais belas vistas da capital da Rússia é simbólica dos últimos 100 anos de um país que, neste período, viveu quase todas as possibilidades políticas, culturais e econômicas. De miserável a potência, de socialista a refém de máfias capitalistas, de governado por czares a controlado pelo sistema de um partido único, de grande influência da religião na política a um Estado ateu, dos maiores novelistas da história da humanidade ao realismo socialista na cultura.

Em 25 de dezembro de 1812, o czar Alexandre I publicou um decreto imperial que ordenava a construção de um templo com o nome de Cristo Salvador para homenagear as tropas russas e os herois de guerra que haviam detido e derrotado o exército de Napoleão. Depois de muitas mudanças no projeto, só em 26 de maio de 1883, no dia da coroação de Alexandre III, é que o templo foi inaugurado. Com a revolução de 1917 e o fim do czarismo na Rússia, a Igreja Ortodoxa perdeu força e a Cristo Salvador, por estar num excelente ponto geográfico para grandes monumentos, acabou sendo dinamitada pelo governo de Stalin em 1931. A intenção do regime soviético era construir no local o Palácio dos Soviets, um monumento ao socialismo que teria uma torre de 400 metros de altura, em cujo topo se levantaria uma estátua de Lênin com 98 metros e peso aproximado de 6 mil toneladas. Mas, devido a dificuldades técnicas, o projeto nunca se concretizou. Nos anos 1960, quando o secretário-geral do PC era Nikita Khrushev, construiu-se no local da Cristo Salvador uma grande piscina pública aquecida. Imaginem o que isso significava para os católicos ortodoxos.

Após a queda da União Soviética, no início dos anos 90, a Igreja Ortodoxa liderou um movimento para a reconstrução da catedral. O governo de Boris Yeltsin apoiou a iniciativa e a Cristo Salvador foi reinaugurada no ano 2000, respeitando o projeto original, o que sorveu recursos públicos altíssimos. Hoje a Cristo Salvador é mais visitada e cultuada do que o Mausoléu de Lênin, na Praça Vermelha.

A Rússia de hoje não é um país para simplificações, como já disse em uma nota publicada no meu blogue. Mas isso não impede afirmações em relação ao seu atual projeto. Ele não é socialista e está completamente inserido na lógica da economia de mercado. Mas também não se alinha automaticamente aos ditames estadunidenses e europeus, buscando criar um outro eixo de poder na Europa Oriental e na Ásia para recuperar o protagonismo internacional que já teve.

Esse novo projeto nascido a partir da eleição de Putin à presidência do país e que se mantém com Medvedev não busca eliminar da história as marcas dos 74 anos do regime socialista no país (1917 – 1991), mas ao mesmo tempo apoia o resgate à simbologia da Rússia dos tempos dos czares, cuja história é contada de forma mais suntuosa por alguns dos ótimos museus espalhados pelo país, especialmente em Moscou e São Petersburgo, e pelas igrejas católicas ortodoxas. A Cristo Salvador é apenas uma. Em 1988, ainda nos tempos da URSS, cerca de 7.000 delas eram frequentadas. Atualmente elas são 19 mil e estão sempre cheias. Calcula-se que os fiéis ortodoxos já sejam 50% dos russos.

Mas o que a religião tem a ver com a política, os rumos da Rússia e sua história? Um passeio pela biografia de Nicolau II e sua família permite entender um pouco melhor esse processo. Ela revela sinais de como essa relação talvez seja mais forte no país de Stalin, Lênin e Trotsky do que em outras partes do mundo.
Nicolau II (Nikolai Nikolaevich Yudenichv) foi o último czar russo. Pelos seus opositores era conhecido como “Nicolau, o Sanguinário”, por ter promovido campanhas antissemitas e pelos ataques a manifestações populares como a do Domingo Sangrento, na qual teria assassinado centenas de camponeses e operários. Em 1981, a Igreja Russa Ordotoxa no estrangeiro o tornou “São Nicolau, o Portador da Paz”. O que veio a ser confirmado pela Igreja Ortodoxa na Rússia, em 2000.

Isso aconteceu não só porque a Igreja Ortodoxa manteve relação de cumplicidade com a monarquia dos czares, mas também porque as relações com o regime socialista eram péssimas. A história de mártir de Nicolau II é a seguinte: ele, sua família e alguns dos seus serviçais foram presos na revolução de 1917 e assassinados pelos  bolcheviques na madrugada de 16 para 17 de julho de 1918. O assassinato foi considerado um martírio, e Nicolau II se tornou santo, bem como todos que estavam com ele naquela noite. Em 1981, inclusive os servos foram canonizados. Mas em 2000, perderam a distinção religiosa porque segundo pesquisas das Igreja teriam tido outra religião.

O ex-museu da Revolução e o Mausoléu de Lênin

Foi dito há alguns parágrafos que o Mausoléu de Lênin perde atualmente em visitações para a Igreja Cristo Salvador. Não há na afirmação qualquer intenção de reduzir a importância do líder revolucionário de outubro de 1917, só a de ser fiel aos fatos. Até porque a visita ao Mausoleu de Lênin é um momento inesquecível, principalmente para quem viveu uma parte da história da Guerra Fria e embalou naquele período sonhos de que era possível construir, a partir das teses leninistas, uma sociedade mais justa e igualitária e que não reproduzisse a lógica capitalista. A sensação que se tem é a de estar participando do velório do líder russo, já que o corpo parece ter sido colocado ali na noite anterior, tal é o ponto de sua preservação. Não se pode falar no local, nem levar celulares ou câmeras para o seu interior, o que ajuda a transformar a atmosfera da visita e a torna ainda mais reverencial e memorável.

O Mausoleu fica no centro da Praça Vermelha, de frente para o GUM, atualmente um dos shoppings onde as lojas pagam o metro quadrado mais caro do mundo. Até por isso quase só se veem as grandes marcas de grife por ali. Antes de 1991, o GUM era um mercado público onde os soviéticos compravam produtos de primeira necessidade.

Mas não é só na permanência do Mausoleu de Lênin à frente do shopping mais caro do mundo que as contradições da atual Rússia se revelam. No pórtico de entrada da Praça Vermelha, o capitalismo mais selvagem também mostra suas garras. Antes de o turista cruzar a entrada da Praça, ele passa sobre um marco onde alguns atiram moedas para trás enquanto fazem desejos. Ao largo do local, senhoras e senhores russos, em geral acima dos 60 anos, esperam o tilintar das moedas no piso de concreto para pegá-las. E guardá-las. Apenas as de 1 centavo de rublo são dispensadas. A cena impressiona pela crueza. É como se a esmola fosse jogada ao chão para que os pedintes de idade avançada tivessem de se abaixar num gesto de humilhação para obtê-la.

De alguma forma essa cena também é ilustrativa de que a Moscou de hoje não é tão diferente da dos anos soviéticos só por conta da mudança das perspectivas locais, mas também porque atrai um tipo de visitante bem diferente daquele que ia à cidade quando ela era capital da ex-URSS. Antes, Moscou era visitada apenas por aqueles que obtinham difíceis autorizações. Hoje recebe aproximadamente 3 milhões de turistas ao ano e tem projetos para aumentar esse número para 5 milhões. A maior parte não procura a cidade em busca de histórias do seu tempo de regime socialista, mas das belezas das construções dos tempos czaristas e dos novos templos do capitalismo, como o GUM.

Tanto que ao comentar com uma família russa tradicional que no dia seguinte visitaríamos o Mausoléu de Lênin, a surpresa foi coletiva e um silêncio constrangedor se fez na mesa. Depois verbalizado por algo como “por que perder parte do dia para um passeio tão sem atrativos”.

Falando de atrativos da nova Rússia, poucos também se aventuram a uma ida ao Museu da Revolução. Aliás, ex-Museu da Revolução. Agora, seu nome é Museu da História Contemporânea da Rússia e a sua sala de abertura conta a história dos últimos anos, com Putin e Medvedev. A propósito, entre os poucos líderes mundiais que estiveram na Rússia pós-1991 e que se destacam na parede do museu, está Hugo Chávez. Não, amigos, não há citação ao presidente Lula no Museu.

A história dos tempos da revolução e dos governos socialistas ainda está lá e é contada com rigor, mas, ao mesmo tempo, de todos os museus abertos à visitação turística este parece ser o mais empobrecido e menos badalado. As paredes parecem ter sido pintadas ainda no regime soviético e os tapetes, por exemplo, também dão a impressão de ter mais do que os 19 anos que separam a atual Rússia da ex-URSS. A impressão que se tem é que enquanto o Museu da História Contemporânea da Rússia contiver muito mais do tempo em que era Museu da Revolução, estará fadado a viver dias magros.

Metrô, vodca e matrioshkas

Não existe chave especial para abrir as portas do entendimento da Rússia de hoje, principalmente de sua capital e de suas principais cidades, como São Petersburgo. Elas são fundamentalmente iguais às grandes cidades do mundo globalizado, mas mantêm acesas chamas de uma rica história tanto do ponto de vista cultural e político, como arquitetônico. Os metrôs de Moscou, por exemplo, abandonados durante o período do governo Yeltsin porque recordavam os tempos do antigo regime, voltaram a ser tratados com a dignidade merecida. Afinal, são obras de arte públicas. Aliás, a história que se conta é que Stalin os teria construído com tantos requintes de nobreza para que a população pudesse ter contato com a mesma sensação dos nobres quando caminhavam pelos corredores de castelos monárquicos.

Se não chegam a tanto, o que se pode perceber fazendo uma visita ao Hermitage, em São Petersburgo, um dos museus mais interessantes do mundo, principalmente em se tratando de ambientalização das obras de arte, é algo que leva o visitante a se perguntar por que os nossos metrôs não foram projetados utilizando o padrão russo de construção. As estações são decoradas com enormes telas de artistas da época, abajures gigantes, pinturas muralistas etc. Em cada uma dessas estações destaca-se um tipo de estilo. Nenhuma é igual à outra. Exatamente ao contrário das nossas, em que só diferem os nomes das placas de identificações.
Há outras coisas em que a Rússia, neste caso Moscou, se mantém diferente das outras grandes cidades do mundo. Como no hábito de beber vodca em garrafa, e não em doses, nas mesas dos bares. Ou de tomar cerveja em bancos de praças após o horário de trabalho. Ou ainda no uso dos grandes saltos altos pelas mulheres mais jovens.

Mas se o assunto é tradição, nada é mais tradicional na Rússia do que as bonecas Matrioshkas. Aquelas que guardam dentro delas uma série de outras, em número de três ou mais, podendo chegar a uma dezena.
Há muitas lendas sobre a criação dessa boneca, mas uma que costuma ser mais divulgada para consumo turístico também ajuda a entender por que na Rússia como em outras partes do mundo é preciso ser criativo para que a vida siga seu rumo.

Certa vez, um senhor que esculpia e vendia bonecas fez uma tão linda que preferiu não vendê-la, levou para sua casa e colocou-a no seu criado-mudo, dando a ela o nome de Matrioshka. Todas as noites antes de dormir, perguntava à boneca se ela estava feliz. Até que, numa noite, a Matrioshka pediu um bebê. Ele teria esculpido uma boneca menor chamada Trioshka, serrou a Matrioshka e colocou o bebê dentro dela. Mas logo na noite seguinte, a Trioshka também pediu um bebê. E o senhor teria feito outra boneca, colocando-a dentro da Trioshka, desta vez a bebê se chamava Oshka. Seguindo o roteiro das outras, na noite seguinte Oshka pediu um bebê. E o senhor atendeu seu pedido. Só que desta vez pensando que isso não iria acabar mais, ele ao terminar o bebê, desenhou rapidamente um bigode nele e o chamou de Ka, garantindo que seria homem e não iria pedir um bebê novamente.

Mesmo com tantas evidências apontando para uma conclusão ao contrário, pela enorme vitalidade que a história tem na Rússia dá para se arriscar a dizer que ali ela parece não ter ainda ganhado um bigode.



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