O debate interrompido e a ausência da natureza

Enquanto a energia foi abundante no planeta, ela esteve ausente nas discussões econômicas. Agora, o desastre de Fukushima vem confirmar a necessidade não só de se debater o modelo energético, como também de alterar...

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Enquanto a energia foi abundante no planeta, ela esteve ausente nas discussões econômicas. Agora, o desastre de Fukushima vem confirmar a necessidade não só de se debater o modelo energético, como também de alterar os padrões de produções e consumo atuais

Por Adriana Delorenzo e Glauco Faria

 

“A economia só se interessa pela energia quando ela se transforma em algo escasso. Enquanto ela é abundante, as teorias econômicas não contemplam o tema da energia.” É dessa forma que o professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Ricardo Abramovay, exemplifica como a natureza esteve ausente nos debates acadêmicos das ciências humanas em geral e como agora ela terá que ser discutida em função do próprio futuro do planeta.

O desastre de Fukushima põe em questão não apenas a utilização da energia nuclear, mas o próprio modelo de desenvolvimento econômico e a necessidade de se pensar padrões de produção e de consumo que se apoiem num uso cada vez menor de materiais e de energia. “As sociedades contemporâneas só vão conseguir fechar esta equação se promoverem inovação em larga escala e, ao mesmo tempo, se tiverem mecanismos democráticos pelos quais se proceda a um tipo de distribuição de recursos que leve em conta que os ecossistemas não podem conviver com a expansão infinita do estilo de vida atual.” Confira a entrevista a seguir.

Fórum – Na sua opinião, o acidente com a usina de Fukushima coloca em xeque a questão da energia nuclear ou, mais do que isso, serve para refletir a respeito da relação da sociedade atual com a natureza?

Ricardo Abramovay – De certa forma, é um pouco das duas coisas, mas dizer que ela coloca em xeque a energia nuclear de forma genérica talvez seja um pouco exagerado porque aí vamos ter duas posições. Uma, é dizer que hoje existem formas de se fazer usinas nucleares que tecnicamente já poderiam contemplar os problemas que aconteceram em Fukushima. Isto é, sistemas de detecção de vazamentos associados ao resfriamento e à armazenagem destes materiais que, em função disto, não vazariam. O problema desse raciocínio, que pode até ser tecnicamente bem fundamentado, é que evidentemente não existe segurança absoluta, o que nos coloca diante de um dilema muito sério: a energia nuclear é ruim quando funciona mal, só que as energias que são alternativas à energia nuclear nos países hoje dependentes dela – o petróleo, o gás e sobretudo o carvão – são péssimas mesmo quando funcionam bem.

O grande problema da energia nuclear, e para esse problema até hoje não vi uma resposta razoável, é que a chance de um evento catastrófico é muito pequena, mas não tão pequena quanto se diz, porque se fosse assim a recorrência dessas situações não seria tão grande. E, ainda que o aperfeiçoamento técnico reduza a intensidade desses acidentes de forma significativa, o que é característico da energia nuclear é que um acidente pode ter efeitos devastadores.

Portanto, é totalmente razoável que haja resistência da opinião pública da esmagadora maioria dos países que, não de forma sistemática, mas com muita frequência, se opõe à energia nuclear cada vez que acontece um acidente como esse. É totalmente compreensível e essa resistência não vai diminuir. O que é um problema muito sério porque daqui até 2050 não existe qualquer possibilidade de uma substituição considerável do petróleo, do gás e do carvão por fontes alternativas de energia e a energia nuclear era a mais promissora para esta substituição. Por mais que nós apostemos na energia solar, na energia eólica, na energia geotérmica e até nos biocombustíveis, estas soluções, ao que tudo indica, não estarão disponíveis de maneira comercialmente viável antes de 2050, no mínimo. Ao mesmo tempo, por mais que o pico do petróleo esteja prestes a ser atingido, a verdade é que ainda existe petróleo, e muito. E é um combustível de uma eficiência energética extraordinária. Três colheres de petróleo correspondem ao trabalho de 8 horas de um homem, além de ser fácil de transportar etc.

Ou seja, a economia mundial é totalmente dependente de energia fóssil e não haverá substituição fácil por energias alternativas. E esse horizonte é agravado pelas relativamente constantes catástrofes, com maior ou menor intensidade, nucleares. Só existem dois horizontes construtivos para enfrentar essa questão. O primeiro é de natureza tecnológica. Trata-se de repensar a maneira como nós usamos a energia, em todos os planos. Tanto do ponto de vista dos indivíduos como do ponto de vista das empresas e das estruturas administrativas estatais, mas, sobretudo, das empresas. E do ponto de vista delas, isso envolve desde o design dos produtos até a localização das próprias empresas. Sob esta vertente, o grande desafio, já que não vamos conseguir substituir as fontes fósseis de energia, é promover formas de produção de riqueza que se apoiem num uso cada vez menor de materiais e de energia.

Fórum – Como é possível promover essas mudanças que utilizem menos energia?

Abramovay – Isso é possível porque o desperdício de materiais e de energia das sociedades contemporâneas é um espanto. Os cálculos do último relatório das Nações Unidas sobre Economia Verde mostram que só nos Estados Unidos há um desperdício alimentar de 40% de tudo que é produzido. São 40% de todos os fertilizantes, 40% de toda a pesquisa, 40% de todas as sementes, 40% de todos os agrotóxicos com tudo isso que envolvem, 40% de todo o rebanho e, portanto, emissões inúteis de metano ligadas a esse rebanho, e emissões inúteis de metano ligadas aos fertilizantes nitrogenados que são quase 300 vezes mais nocivos do ponto de vista do efeito estufa do que o CO2. E este é só o caso da agricultura.

A co-geração de energia, isto é, o uso de detritos industriais para gerar energia voltada para outros segmentos industriais, é algo que está engatinhando, e a siderurgia começa hoje a ser uma fornecedora de escória para a produção de cimento, mas isto se faz numa escala extremamente tímida. O desenho daquilo que nós usamos, por exemplo. Pense num carro: ele representa quase duas toneladas de ferro, de aço, de vidro e de borracha para transportar 80 quilos. Os cálculos dos especialistas em termodinâmica a respeito da eficiência energética do carro mostram que, na maneira como hoje é concebido esse fator decisivo de mobilidade na civilização contemporânea, mais de 90% da energia despendida para a fábrica e, sobretudo, para fazer mover o carro, está voltada ao próprio carro.

Essa é uma questão que envolve um desafio tecnológico extraordinário que vai dominar o sistema de inovação tecnológica do século XXI. O Brasil, neste sentido, está numa posição privilegiada por ter matrizes energéticas bem menos dependentes de energia fóssil do que países das suas dimensões. Mas, como o país não está com a faca no pescoço, do ponto de vista desta orientação voltada à redução do consumo de materiais de energia, o nosso sistema produtivo está muito devagar.

Um segundo problema importante é que, mesmo que haja sucesso neste processo de inovação tecnológica que resulta em menor consumo de materiais de energia, estamos assistindo hoje a algo que os especialistas chamam de rebound effect, efeito ricochete, que é o seguinte: embora se aumente a eficiência tecnológica do uso de materiais de energia, com cada unidade de produto sendo fabricada, em média, com menos materiais e menos energia, o consumo, a renda e a produção estão aumentando muito. Esse aumento tem uma contrapartida: apesar do declínio no consumo por unidade de produto, aumenta o consumo de materiais de energia globalmente, e aumentam as emissões. Esse é o efeito ricochete, no qual você se torna mais eficiente, mas, em compensação, isso permite produzir e consumir mais. E esse efeito não pode deixar de colocar o tema da desigualdade e dos padrões de produção e consumo no centro da discussão tanto da luta contra o aquecimento global como dos padrões energéticos das sociedades contemporâneas, já que os ecossistemas têm limites.

Isso responde também à segunda parte da sua primeira pergunta, sobre a relação entre sociedade e natureza. Os ecossistemas têm limites e o raciocínio que habitualmente os economistas foram treinados a fazer – de que os bens materiais nos quais se apoiam os processos produtivos são quase que infinitamente substituíveis por outros dependentes do engenho humano – não pode ser mantido diante do aquecimento global. Claro, pode-se dizer que tudo bem aumentar em 6°C a temperatura, mas, em geral, as pessoas têm certa vergonha de dizer isto, mesmo quem pensa assim. Além disso, você pode dizer – e isso é mais interessante e mais grave – que tudo bem eu conservar os padrões produtivos que tenho, porque vou conseguir capturar e armazenar carbono, e essa é a posição da grande maioria das indústrias petrolíferas. Só que há um problema muito sério nisto: o custo energético de capturar carbono. Capturar carbono é uma coisa muito cara do ponto de vista energético, e o drama do petróleo é que, embora ele seja muito eficiente do ponto de vista energético, sua exploração ao longo do tempo e a sua eficiência vão caindo.

Para cada unidade de energia investida na produção de petróleo em 1940 retiravam-se cem unidades de energia. Isso vai caindo ao longo do século XX e hoje, em média, a proporção essa relação é de 1 para 8. Nas explorações de plataformas em alto-mar é 1 para 10, o pré-sal também é 1 para 10. É quase o rendimento energético do álcool. Não que o petróleo deixe de ser eficiente, mas se utiliza muita energia para produzi-lo. Um exemplo são as areias betuminosas do Canadá, que têm o pior e mais poluente petróleo – não dá para entender como uma sociedade democrática como o Canadá produz um negócio desses – e a relação é de 1 para 3. É quase como o etanol de milho nos EUA. Se acrescentar a isso a captura e armazenagem de carbono, o rendimento energético possivelmente vai ser negativo, não vai compensar. Vai se gastar mais energia para produzir do que a energia que será obtida.

Mas se os ecossistemas são limitados, por outro lado, as necessidades básicas dos seres humanos também são limitadas. A ideia de que nós somos portadores de necessidades infinitas é muito recente na história da cultura humana. Os ianomâmis não acham que somos portadores de necessidades infinitas. Nossas necessidades são limitadas, como as dos animais são, como as das plantas são. Os gregos não achavam que elas eram infinitas, na Idade Média tampouco era essa a percepção. Esta ideia se aprende quando se estuda economia. A economia é a ciência que estuda justamente a relação entre o fato de nossas aspirações serem infinitas e os nossos recursos serem finitos. É isto que define a economia como ciência da escassez. Mas a verdade é que nossas necessidades como espécie, como seres biológicos etc., mesmo culturalmente, não são infinitas do ponto de vista da educação, do acesso à cultura, do acesso à saúde, do acesso à moradia etc., e os ecossistemas também não são infinitos. Como dizia Ghandi: “É perfeitamente possível suprir as necessidades de todos os habitantes da Terra. O que não é possível é suprir o desperdício e o luxo”.

O supérfluo e o desperdício – esta é uma questão polêmica que põe no centro da discussão do aquecimento global a definição do que são as necessidades básicas, os basic needs. Este é um termo usado pelo relatório do PNUD sobre desenvolvimento humano. Quais são as necessidades básicas? Quando se fala em padrões de consumo, não conseguiremos, mesmo com as mudanças tecnológicas, mesmo com o mais crente otimismo tecnológico de que se possa estar imbuído, abrigar em condições dignas mais 2,5 bilhões de pessoas até 2050 e tirar da miséria outros 2,5 bilhões, hoje, generalizando os padrões de consumo que caracterizam os ricos de todas as sociedades do mundo. Portanto vamos ter que mexer nos estilos de vida. As sociedades contemporâneas só vão conseguir fechar esta equação se promoverem inovação em larga escala e, ao mesmo tempo, se tiverem mecanismos democráticos pelos quais se proceda a um tipo de distribuição de recursos que leve em conta que os ecossistemas não podem conviver com a expansão infinita do estilo de vida atual.

Fórum – E que vai buscar mais e mais e mais energia…

Abramovay – Mais e mais energia! Mas essa é uma ideia ilusória. Olha, isso é uma coisa interessante: a economia nunca estudou energia. A economia só se interessa pela energia quando ela se transforma em algo escasso. Enquanto ela é abundante, as teorias econômicas não contemplam o tema da energia. A tal ponto que em 1940 o diretor geral da Agência Atômica Americana dizia: “A energia vai ser tão abundante e tão barata para os nossos filhos que não vai valer a pena cobrar por ela”.

O que significa essa ausência da energia dentro dos modelos dos economistas? Significa, no fundo, a ausência da natureza. Os economistas são treinados para pensar num sistema que é um circuito-fechado, que vai dos domicílios às empresas e das empresas aos domicílios. Se vocês fizeram um semestre de economia vocês viram que tem um gráfico que está lá mostrando isto: o domicílio fornece mão de obra para as empresas, as empresas geram renda e essa renda vai para os domicílios, o domicílio gasta esta renda e isso dá mercado para as empresas; aqui no meio você tem governo com impostos, bens públicos, etc. E você passa não seis meses, mas 4 ou 5 anos e depois na pós-graduação estudando economia, sem que o tema da natureza tenha qualquer relevância nas atividades intelectuais que você vai desenvolver. E muito menos nas de assessoria ao governo ou às empresas.

Fórum – Então seria necessária, na prática, uma mudança nos padrões de consumo e no modelo de desenvolvimento econômico, ou seja, mudanças mais profundas do que a substituição da energia nuclear por fontes alternativas.

Abramovay – Supõe-se uma mudança nas bases teóricas a partir das quais você pensa a reprodução material das sociedades humanas. Estas bases teóricas têm que romper com a maneira como as ciências sociais foram formadas desde o séc. XVII – dando as costas à natureza, emancipando-se dela. Um elemento muito importante é capacitar não só economistas, mas sociólogos e cientistas políticos para pensarem o mundo a partir da ideia de que a energia é um bem escasso e de que a biodiversidade representa algo cujo extermínio pode ser algo totalmente destrutivo para as sociedades humanas.

Um segundo ponto é uma orientação de mudança tecnológica que envolve algo inédito e muito difícil, que é uma abertura nas bases técnicas da produção material contemporânea, para que se possa promover processos de sinergia industrial responsáveis pela economia de materiais de energia como geração, revalorização e reutilização de produtos, design voltado ao reaproveitamento etc. O que significa também que o capitalismo em que cada empresa se volta estritamente aos seus negócios, no qual o mercado decide quem tem razão e quem não tem razão quebra, esse capitalismo não vai dar mais para existir.

E, por fim, existe a questão dos estilos de vida e dos padrões de consumo, que também de alguma forma vão ter que se incorporar ao calculo econômico. Esse é o capítulo crucial, mas mais difícil. E aí existem coisas muito engraçadas como, por exemplo, a indústria de refrigerantes. Conforme você vai mostrando que refrigerante é um produto que causa obesidade, altamente consumidor de recursos e que não tem por que associar o ato de se alimentar ao ato de tomar bebidas gaseificadas nessa escala, vem a reação da indústria: “Ah, tudo bem, a gente faz o refrigerante diet; tudo bem, a gente faz o refrigerante com pet de química verde, a gente faz o H2OH etc”. É uma tragédia, isso. Hoje, o México é o país de maior consumo de refrigerantes per capita, e o Brasil aumenta de uma forma drástica porque o dos países ricos já chegou ao limite. E aí se generaliza um padrão que promove a obesidade, que não promove o bem-estar, que vende muito anúncio de televisão, mas enfim… Este é um dos capítulos mais difíceis de mexer, mas é fundamental mexer na questão dos padrões de consumo.

Fórum – Existem muitas discussões a respeito dos padrões de consumo, o que não acontecia há 20, 30 anos, por exemplo. Mas não faltam iniciativas concretas da classe política ou da própria sociedade civil? Discutimos, mas não se consegue realmente concretizar ações efetivas…

Abramovay – É verdade. É muito difícil concretizar e, quando se tenta concretizar, vem a acusação de totalitarismo quando, por exemplo, a Anvisa quer discutir proibição de propaganda voltada para menores de 12 anos. Em alguns países nórdicos isso já não se faz, é proibido fazer propaganda para crianças porque, a princípio, a criança não tem discernimento para tomar decisão. O argumento aqui é que isso é um atentado à liberdade, que o direito à informação está sendo tolhido dos pais, que é um argumento de má-fé…

Aí mais uma vez entra o tema da desigualdade. Como há uma parcela cada vez maior de famílias monoparentais dirigidas por mulheres que saem de casa às 5 ou 6 horas da manhã e voltam para casa às 21, que têm uma televisão em casa por causa da filha mais velha, para ela cuidar do menino que tem 5 anos, ela vai dizer “Não ligue a televisão, minha filha”? Essas crianças vão passar o dia em frente à televisão vendo o quê? Então, de fato você tem toda a razão. Este é um tema difícil, envolvendo consumo alimentar, padrões de riqueza ligados, por exemplo, ao automóvel, a bens de luxo etc.

Existe um trabalho muito interessante produzido sobre isso, que é o relatório do ano passado do World Watch Institute sobre a cultura do consumismo, que o Instituto Akatu traduziu. O trabalho que o Akatu faz relacionado ao consumo consciente é interessante, mas nós precisamos de muito mais do que isso. A minha impressão é que, mesmo que seja importante você conscientizar e se dirigir aos indivíduos, ainda que a atitude individual seja importante, há um conjunto institucional que associa o aumento do consumo ao aumento de bem-estar social cujos resultados globais são catastróficos.

Fórum – Ou seja, não é um problema que possa ser resolvido com atitudes individuais, mas sim coletivamente…

Abramovay – É um problema dos indivíduos, é um problema coletivo e é um problema de padrão civilizacional. Quer dizer, seremos 9,5 bilhões de seres humanos sobre a Terra dizendo que a noção de suficiência corresponde ao tradicionalismo autoritário e que nós só podemos conviver com o caráter supostamente infinito das aspirações humanas? É óbvio que isso é impossível. Não só impossível como está cada vez mais claro que isso não é sinônimo de bem-estar. Uma parte dos bens a que os indivíduos aspiram são bens correspondentes a necessidades básicas ligadas à sua alimentação e ao seu lazer etc.

Agora, a partir de um determinado momento, muitos economistas falam dos bens posicionais, ou seja, bens que valem e lhe dão uma satisfação na medida em que eles diferenciam você das pessoas com as quais você convive. Mas, tão logo outras pessoas adquiram aqueles bens, o valor que você passa a atribuir a eles, subjetivamente, cai. Estes bens são diferentes dos outros chamados relacionais, que colocam você em relação com os outros e que, nesse sentido, de certa forma não se esgotam. A internet é um caminho interessantíssimo para isso. Até o Facebook. Todas as modalidades de relações humanas vão nesta direção. Quando se fala em limites e mudanças nos padrões de consumo, esta não é uma posição tradicionalista. Ao contrário, é uma posição que pode ser e é totalmente compatível com as coisas mais avançadas e mais interessantes que as tecnologias contemporâneas têm, a começar pela internet.

Fórum – Quando ocorrem eventos como este do Japão, temos um bombardeio de informações e imagens, mas em poucos momentos se reflete sobre as consequências, sobre este limite dos ecossistemas, sobre o porquê da utilização energia nuclear etc. Que papel a mídia poderia desempenhar nessa reflexão?

Abramovay – Quanto à reflexão a respeito do vínculo entre a catástrofe do Japão e a questão energética geral, tenho a impressão de que ela está, mesmo na mídia brasileira, bastante presente. Já o vínculo entre padrões energéticos e padrões de consumo, isso é muito difícil de ir para a mídia porque não é propriamente um tema de notícia. Acho que tem mudanças importantes que estão ocorrendo e que algumas vezes vão para a mídia especializada. Por exemplo, sistemas de co-geração de energia são hoje desenvolvidos no Brasil num ritmo interessante. Na área de cimento, existem empresas que estão conseguindo fazer isto. Mesmo do ponto de vista das usinas de etanol, a co-geração de energia e a capacidade que as usinas têm de oferecer energia para a rede é algo muito importante.

Isso, na imprensa especializada, aparece. Todo o trabalho de química verde, de redução do impacto sobre a biodiversidade, também. Mas a verdade é que as seções dos jornais brasileiros voltadas para temas socioambientais precisam ser muito mais desenvolvidas do que são. Hoje está muito melhor do que era há 5 anos, mas ainda tem muito espaço extraordinário para crescer quando você compara, por exemplo, com um jornal como o The Guardian. Nele, há um conjunto de reportagens e de blogueiros sobre temas ambientais dos mais variados, envolvendo temas cotidianos como o uso da bicicleta.

Fórum – Falando sobre temas cotidianos, existe a questão das cidades. Hoje, 75% da emissão de carbono advém das zonas urbanas e isso tende a aumentar porque a população mundial está se urbanizando cada vez mais. Como é que podemos pensar esse processo de urbanização para que ele respeite, em todos os aspectos, desde o saneamento até a estruturação das próprias cidades, a ideia de um novo modelo de desenvolvimento com menos agressão aos ecossistemas?

Abramovay – Existe uma diferença entre tipos de cidade. Há as mais voltadas para serviços, que são focos de relativamente pouca emissão. E tem outras, as cidades industriais – e provavelmente agroindustriais ainda mais –, que são grandes focos de emissão. Isso coloca uma questão interessante: como serão medidas essas emissões? Vai medir por onde elas são produzidas ou pelo destinatário dos produtos subjacentes que são causadores dessas emissões, onde esses produtos são consumidos? Se elas forem medidas a partir do consumo dos cidadãos – que me parece ser um caminho correto e que tem sido adotado por organizações que trabalham sobre a pegada ecológica de diferentes cidades – nesse caso a conclusão é que mesmo cidades de serviços poderão ser cidades altamente emissoras, uma vez que elas tenham um padrão de consumo de alta renda.

Então, tudo vai depender do tamanho das residências, do tipo de deslocamento dos habitantes – por exemplo, em cidades muito concentradas e baseadas em transportes coletivos, seus habitantes serão menos emissores do que nos locais onde os núcleos de trabalho estão concentrados e onde os habitantes têm que se deslocar para esse centro por meio de automóveis, como é o caso de muitas cidades americanas. Por exemplo, uma das questões que os chineses estão colocando a respeito dos gases do efeito estufa é: “Nós estamos dispostos a rever nossos padrões de produção, mas não é possível a gente deixar de atender as necessidades básicas da nossa população enquanto os americanos e os australianos tiverem habitações do tamanho que têm e um padrão de mobilidade urbana totalmente dependente de emissões numa escala como essa”. Então, mais uma vez, no cerne dessa questão que você está colocando, está a desigualdade dos padrões de consumo.

No caso das cidades brasileiras, isso vai ser muito grave, porque temos cidades onde se consolidou um padrão locacional de separação entre trabalho e domicílio, e onde as pessoas de alta renda moram em lugares supostamente bucólicos com jardins etc, mas que são casas grandes, altamente consumidoras de energia e muito dependentes de transporte automobilístico. Na hora em que essa conta for feita para valer, e de certa forma não tem como ela deixar de ser feita – é como se você dissesse “Olha, o espaço carbono tem que ser considerado um espaço limitado”, e se ele for considerado limitado, vai passar a ser considerado como oxigênio. Não pode fazer uma distribuição de oxigênio em função do grau de riqueza das pessoas. O espaço carbono, também ele vai ter que ser distribuído entre as sociedades, entre os grupos sociais e entre os indivíduos, atendendo ao direito de ocupar este espaço de maneira equânime, assim como todos temos o direito de respirar. É diferente de um bem criado pelo engenho e o trabalho humano com o qual você pode dizer que um é mais rico que o outro etc. Com isso não dá pra ter o mesmo raciocínio.

Fórum – O senhor falou sobre eficiência energética, o que remete a uma obra que o senhor organizou em 2009, o livro Biocombustíveis – A energia da controvérsia. Quais são os prós e os contras dessa forma de produção energética?

Abramovay – Depende de duas coisas: do combustível e de se perguntar: combustível para quê? Quanto ao tipo de combustível, o etanol de cana de açúcar, é muito difícil você não reconhecer que ele tem uma extraordinária eficiência energética e econômica, mas também há a ideia de que ele provoca danos sociais ligados à escassez de alimentos e à ocupação indireta do bioma amazônico. Isso existe em trabalhos bastante persuasivos, no sentido de que essas consequências não são uma fatalidade. Além disso, há talvez um dos mais importantes programas brasileiros relacionados à ciência de processo produtivo, as usinas funcionam como verdadeiras refinarias, há um conjunto de vantagens tecnológicas.

Mas existem alguns problemas seríssimos em relação ao etanol. Primeiro, a colheita da cana de açúcar não está totalmente mecanizada e ali onde ela não está totalmente mecanizada está longe de estar mecanizada. Deve estar meio a meio, ou um pouco mais mecanizada em São Paulo do que no restante. E onde o trabalho não está mecanizado, as condições de trabalho estão muito distantes daquilo que a Organização Internacional de Trabalho chama de trabalho decente. São jornadas de trabalho extremamente longas, extenuantes, um trabalhador de cana de açúcar desfere trinta golpes de foice por minuto durante jornadas de trabalho que frequentemente vão além de 10 horas. Esse não é um trabalho para ser feito por seres humanos nas condições de competitividade exigidas para se ter um combustível como a cana de açúcar, como o etanol. Na Índia, a cana de açúcar é agricultura familiar e não tem um ritmo alucinante como o que tem aqui.

Além disso, há um problema pouco divulgado, da expansão das usinas de cana de açúcar no bioma do cerrado. São defeitos que muitas vezes são obscurecidos pela ideia tão frequente de que o cerrado não é um bioma importante, de que é zona de fronteira agrícola. Além disso, há uma dependência forte de fertilizantes químicos nitrogenados e a pesquisa sobre isso é precária, mas pode ser algo também problemático. Culturas lineares, homogêneas, tão extensas comprometem o fluxo gênico e a biodiversidade. Nem vou falar do biocombustível de milho etc., porque aí é um absurdo completo.

A grande esperança dos biocombustíveis está nos biocombustíveis de segunda geração, o etanol celulósico, que tem condição de fazer um aproveitamento de resíduos produtivos como, por exemplo, resíduos de plantação de eucalipto. E tem uma terceira geração de biocombustíveis, que são combustíveis de algas, que ainda estão sendo pesquisados e talvez representem algo promissor. Conclusão: há um lugar para o biocombustível na matriz energética mundial na área de transportes, mas esse lugar certamente não será um lugar dominante e, se hoje isso é muito importante no Brasil, isso não é importante no mundo todo; só no Brasil tem carro flex. Nos Estados Unidos tem E85, mas não com a mesma importância que isso tem no Brasil. Ou seja, o padrão de crescimento e de padrão tecnológico da indústria automobilística mundial não vai no sentido do carro flex e, se for nesse sentido, é flex elétrico com gasolina, muito diferente do que a gente conhece aqui.

Fórum – Na Alemanha, inclusive, estavam colocando etanol no combustível e houve toda uma reação contrária.

Abramovay – E muitas vezes há falta de informação. A verdade é que é uma briga muito grande para o Brasil exportar etanol, mas, mais do que conseguir exportar etanol, é preciso ampliar o número de países produtores de etanol. Essa é a grande batalha estratégica do Brasil, fazer com que os países da África, do Sul do Saara, venham a se tornar grandes produtores, mas não dá para saber se isso vai acontecer ou não. Os obstáculos sociais e ambientais são extraordinariamente grandes, muitos dos países africanos visados por essa operação são países de agricultura comunitária, tribal ou de agricultura familiar que não têm nada semelhante aos latifúndios que caracterizam as bases fundiárias de usinas de etanol no Brasil, de 20 mil, 30 mil hectares… Isso não existe, é inconcebível ter propriedades deste tamanho. Além disso, tem outra questão que é: O etanol e o biodiesel, para quê? Tem um problema muito sério na exaltação dessas virtudes que é deixar de lado a discussão sobre os automóveis. O automóvel é individual, a eficiência energética do automóvel é muito baixa.

Fórum – E essa é uma questão que você acha mal discutida politicamente? É difícil mesmo distinguir direita e esquerda nessa discussão dos biocombustíveis, mas também às vezes na questão ambiental como um todo.

Abramovay – Sem dúvida. Quando, por exemplo, estourou a crise de 2008, a primeira atitude que o governo teve foi de subsidiar a venda de automóveis e venda de linha branca de eletrodomésticos, mas, sobretudo, de automóveis. O que é um espanto. No fundo, está o lugar do crescimento econômico na construção de uma sociedade democrática, os governos têm, de maneira geral, muita dificuldade de discutir isso.



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