O desafio de promover o desenvolvimento

Primeira mulher escolhida como presidenta de um banco público no Brasil fala sobre o papel que deve ser desempenhado pela Caixa no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e também das relações com os...

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Primeira mulher escolhida como presidenta de um banco público no Brasil fala sobre o papel que deve ser desempenhado pela Caixa no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e também das relações com os movimentos sociais

Por Daniel Merli

 

A jornalista Maria Fernanda Ramos Coelho chega para a entrevista do lado a que está mais acostumada: como entrevistada. A primeira presidenta de um banco público não teve tempo de utilizar seu diploma da Universidade Católica de Pernambuco. Logo ingressou na Caixa Econômica Federal, onde permaneceria nos 23 anos seguintes. Sem saber que pouco depois dos 40 assumiria o cargo máximo da empresa onde trabalhava.
Maria Fernanda, como se apresenta, afirma que comandar o banco que atende as classes populares no Brasil deu a ela a visão de como usar a instituição como ferramenta para o desenvolvimento. Para que o banco exerça esse papel, Maria Fernanda não abre mão do debate. Ao final da entrevista, está aflita para não perder a hora de encontro marcado com o economista Marcio Pochmann. O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) vai reunir-se com a diretoria do banco para um debate sobre conjuntura econômica. “É uma rotina que a Maria Fernanda estabeleceu”, explica uma assessora. Uma semana antes, havia sido a vez de um encontro com o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Suas idéias para o desenvolvimento do país e a função da Caixa nesse projeto são detalhados por Maria Fernanda na entrevista a seguir.

Fórum – A sua nomeação em 2005 representou duas novidades ao mesmo tempo. Pelo fato de ser a primeira presidenta de um banco público e também por ser funcionária de carreira. Como se iniciou sua trajetória no banco? Maria Fernanda Ramos Coelho – Tenho 23 anos de Caixa. Entrei em uma agência de Recife e trabalhei lá por 15 anos. Depois fui para a área de desenvolvimento urbano, que cuida das políticas de habitação e saneamento. Vim para Brasília há quatro anos para trabalhar com Jorge Mattoso (então presidente do banco) na Superintendência de Desenvolvimento Econômico e Social. Esse é justamente o órgão responsável pelo relacionamento com os ministérios para trabalhar as políticas sociais.
Foi então que percebi a extraordinária potencialidade e o espaço que havia para a atuação da Caixa. Quando você está fora de Brasília, não tem noção exata da dimensão do banco, uma empresa com quase 40 milhões de clientes. Agora, o fato de o presidente da Caixa ser uma mulher tem a ver com uma visão de projeto de país, com inclusão social, crédito para pessoas de todas as faixas de renda e desenvolvimento com sustentabilidade.

Fórum – Quais as funções de um banco público nesse projeto?
Maria Fernanda – O banco público tem o papel principal de fomentar o desenvolvimento social e regional com sustentabilidade. Para fazer isso e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade do banco, tivemos de mudar os modelos de avaliação de risco e de clientes da Caixa. Cada vez mais está sendo possível pulverizar o crédito.
Na habitação, o foco foram as famílias que ganham até cinco salários mínimos. A grande mudança da Caixa foi criar produtos adequados para essa faixa de renda. Não é à toa que hoje 86% de todos os recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) são aplicados em benefício de famílias com renda de até cinco salários mínimos.
Evoluímos também na questão da habitação rural. Era um segmento em que a Caixa simplesmente não atuava. Pela reivindicação dos movimentos sociais, o governo federal começou a acordar para essa demanda. Quando a orientação do governo chegou ao banco, encontrou aqui muitos funcionários de carreira, vindos de zonas rurais ou cidades do interior, que já questionavam isso internamente. É interessante porque houve um movimento duplo.
Hoje trabalhamos muito com os recursos do Fundo de Desenvolvimento Solidário e do FGTS para habitação rural. Só no ano passado fizemos 80 mil habitações rurais. Nesse ano, até meados de abril, fizemos mais 30 mil.

Fórum – Como é a relação dos movimentos sociais com a Caixa?
Maria Fernanda – O diálogo com os movimentos sociais foi inaugurado pelo presidente da República. A partir daí, foi uma outra relação que a Caixa passou a estabelecer, dentro das que já existiam com os diversos setores da sociedade.
Por reivindicação desses movimentos e determinação de governo, passou a ser uma prioridade da Caixa atender a população de baixa renda. Foi definido que a função do banco seria trabalhar com esse segmento da sociedade que historicamente não tinha acesso às políticas públicas. Mesmo sendo donos, por meio de contribuição em carteira, da maior parte do patrimônio do FGTS.
A relação com os movimentos se dá também em âmbito local, com os escritórios regionais da Caixa. Os projetos são apresentados, analisados, aprovados e têm os recursos liberados. Diria que hoje, no país todo, a Caixa tem relações com os movimentos organizados em cada estado. E é uma relação bastante transparente, tanto na avaliação e concessão do crédito quanto no acompanhamento do projeto.

Fórum – O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) reclama que ainda há preconceito na ponta do balcão, quando o gerente tem de liberar crédito para um assentamento ou empreendimento de agricultura familiar.
Maria Fernanda – É possível. Você não muda uma mentalidade de uma hora para outra. Mas o que vejo é uma mobilização dos funcionários da Caixa em atender esse segmento. Em Presidente Prudente (SP), região do Pontal do Paranapanema, os funcionários da Caixa saíram das agências e foram até os locais onde os trabalhadores estão para fomentar a adesão ao crédito rural. Fizeram um mutirão de abertura de contas. Mas temos de lembrar que são 21 mil pontos de atendimentos e 70 mil empregados. Já tivemos este ano uma revisão do nosso modelo de gestão interna, em que cada vez mais fica clara a importância do cliente, o foco nas pessoas e a importância de estabelecer parcerias não só com os estados e municípios, mas também com os movimentos sociais.

Fórum – É possível dizer que este banco vai ser o principal agente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)?
Maria Fernanda – A Caixa é sem dúvida o principal agente na habitação e saneamento da implementação das políticas do PAC. Dos R$ 504 bilhões previstos no PAC, R$ 100 bilhões são para habitação e R$ 40 bilhões para saneamento.
E nisso o banco vai ter um papel essencial de desenvolvimento regional. É como o Bolsa Família, a Caixa responsabilizou-se pelo pagamento, já que tem acesso a todos os beneficiários ou por meio de uma casa lotérica ou correspondente bancário ou de uma agência. Aquilo modificou a economia local em regiões como o Nordeste, que estavam deprimidas, já que o cidadão passa a comprar o remédio na farmácia, compra material de construção e gera outra dinâmica.
Hoje a gente começa a ter uma estratégia de unificação das políticas públicas para possibilitar o acesso ao crédito e a partir daí construir alternativas de desenvolvimento. O primeiro momento foi de saber onde estavam essas pessoas, cadastrar essas famílias, ter um cadastro transparente com todas as informações. Hoje o programa da juventude vai trabalhar o jovem que está inserido na família que recebe o Bolsa Família. A ação de inclusão bancária vai fazer um diagnóstico da pobreza e das alternativas.
Toda a perspectiva do crédito, por exemplo, é trabalhar com esse foco, de redução da pobreza, e principalmente na redução das desigualdades regionais. O Brasil é desigual, mesmo intra-regionalmente é muito desigual.
Temos alguns programas que não diria que são específicos da economia solidária, mas são programas que buscam atender essas famílias. A Caixa também trabalha no sentido de patrocinar o artesanato, cooperativas. Essa é a linha mais democrática, de maior acesso, por meio de conta e microcrédito.
Ainda há que se avançar muito nesse segmento. Com o novo modelo que estamos implantando, a perspectiva é que a gente avance bastante. Eu diria que ainda é tímida a atuação no que se refere ao microcrédito, mas a gente tem o espaço muito grande para estruturar uma atuação nesse segmento. A inclusão bancária já beneficiou 5,5 milhões de pessoas, desde o começo, em 2003, até hoje, 2007.

Fórum – Em entrevista à Fórum (“A encruzilhada dos bancos públicos”, nº 52, julho de 2007), alguns economistas e sindicatos reclamam que a Caixa e o Banco do Brasil poderiam baixar suas taxas forçando, por meio da concorrência, a uma redução das taxas nos bancos privados. No entanto, atualmente, algumas taxas dos bancos públicos são iguais ou mais altas que as dos privados.
Maria Fernanda – A Caixa já pratica as menores taxas, não só no crédito comercial da pessoa física e jurídica, mas também no crédito habitacional. Lembrando que na área habitacional, por exemplo, há recursos subsidiados.
É uma orientação de governo, do presidente da República, que nós trabalhemos com as menores taxas, para forçar a redução do spread bancário e facilitar o acesso ao crédito. Porque não há dúvida nenhuma da relação crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) com o acesso ao crédito.
O principal é que hoje, na Caixa, o que a gente busca é cada vez mais firmar a Caixa como banco público e firmar a importância de o país ter um banco público. Não só pela redução das taxas, mas também por dar acesso ao crédito, em todos os pontos do país.
É importante dizer que a Caixa está presente em locais onde não existem outra agência bancária ou instituição. O banco público faz isso, na realidade, ele é pioneiro em algumas ações, como fomos pioneiros na expansão do crédito. Hoje existe crédito habitacional para 30 anos. Isso é padrão de qualquer país de primeiro mundo. Significa que é uma aposta da instituição, principalmente, no desenvolvimento econômico, mas também na perenidade das ações que estão sendo tomadas pelo governo. Ou seja, a gente sabe que tem sustentabilidade. Acho que esse é o grande papel do banco: prover o acesso ao crédito, atender, ter uma perspectiva de atendimento, não só de clientes da Caixa, mas de todas as pessoas que procuram uma agência da Caixa ou telemarketing, que procuram produtos e serviços. Não é à toa que nós temos o maior banco de formação de núcleo.

Fórum – Na mesma edição da Fórum, o coordenador da comissão de funcionários da Caixa, Plínio Pavão, reclamou do estabelecimento de metas para os funcionários do banco. Segundo ele, elas têm pouca relação com a função pública do banco. Maria Fernanda – Mudamos muito isso, mas acredito que é preciso evoluir muito ainda. Temos sim de ter outra sistemática de distribuição e discussão de metas e desempenho. Inclusive de avaliação da própria empresa. A Caixa vai ter que estabelecer outra maneira de avaliar seu desempenho. O indicador não pode ser apenas econômico. A Caixa precisa ser avaliada por seu papel econômico, social e ambiental.



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